João Pires da Cruz: O físico teórico que quer mudar a forma de fazer economia

“Daqui a 25 anos, os nossos filhos vão sorrir, porque vão olhar para o que sabemos hoje sobre economia como nós olhamos hoje para os astrónomos da época pré-coperniciana. De facto, até agora, os economistas andaram a fazer filosofia.”

(Texto) e (Fotografia)

Tempo é dinheiro, dizia Benjamin Franklin. Mas, quando se trata de prever as flutuações do sistema bancário e financeiro, o tempo e o dinheiro transformam-se em empecilhos. E é preciso retirá-los da equação para conseguir fazer previsões que não sejam, pura e simplesmente, “estúpidas”.

Esta é a opinião de João Pires da Cruz, empresário de 49 anos formado em Física Teórica pela Universidade de Lisboa — e que abandonou a investigação académica, há uns 20 anos, para se dedicar, como explicou à Revista 2, ao estudo de “um sistema físico muito particular e cujo conhecimento é ainda hoje muito ténue chamado ‘economia’”.

“Quando entrei pela primeira vez num laboratório de física, pensei: ‘O que é que eu vim aqui fazer?’ Aguentei seis meses e passei para a indústria”, explicou-nos. E aí, admite, teve uma sorte incrível, que só acontece muito de vez em quando.

“Entrei no mercado dos sistemas informáticos e fui atirado para uma coisa que estava a nascer em Portugal: o negócio da banca de investimento.

E descobri que tinha grande facilidade para perceber os instrumentos financeiros porque… a maioria deriva da física. As pessoas que vinham das finanças não conseguiam aprender aquilo porque não percebiam as fórmulas.”

Em 2006, João Pires da Cruz fundou a empresa Closer, que ainda hoje dirige, para aplicar essa sua nova perícia. Mas foi também nessa altura que “as coisas começaram a rebentar”. No ano seguinte, estalou a crise do subprime nos EUA, desencadeada por uma descida brutal dos preços do imobiliário.

João Pires da Cruz começou então a suspeitar de que os modelos (ainda hoje utilizados) para fazer previsões financeiras talvez não funcionassem tão bem como se pensava.

“A crise do subprime foi uma crise da ignorância — e não, como se costuma pensar, da ganância ou da vigarice”, diz-nos agora. “Aconteceu porque toda a gente acreditou que a probabilidade de os preços das casas descerem era zero, o que é uma estupidez. A vigarice é algo a que os sistemas [económicos] respondem bem; aqui o problema foi a concentração das crenças.” E exclama: “Eu também acreditei!”

Foi assim que o profissional das finanças regressou à investigação em física: “Percebi que algo estava profundamente errado naquilo que estávamos a fazer. A economia não é uma adaptação da física tal como se quis fazer.”

Por um lado, frisa, isso tem que ver “com a forma como nós encaramos o tempo”. Nos modelos físicos, a única coisa que interessa, para conhecer o instante seguinte, é o instante anterior. Mas, na economia, há toda uma história por trás. “A economia é como uma pilha de areia, está sempre a receber mais areia, sempre a crescer. E a altura da pilha de areia representa o tempo.”

Avalanches financeiras

Basta então retirar um grãozinho de areia da pilha para produzir “avalanches”. “Todo o passado cai sobre o presente, os grandes bancos abrem falência e levam outros mais pequenos com eles”, diz João Pires da Cruz. Ninguém é independente dos outros, porque “as interacções com outros são a própria definição da economia”.

Por outro lado, a economia também não é um sistema que possa atingir um equilíbrio como os sistemas físicos habituais — por exemplo, as moléculas de um gás em determinadas circunstâncias. É algo que, “porque está sempre a crescer, está sempre fora do equilíbrio”, salienta João Pires da Cruz. “Aquilo que eu produzo hoje com o meu trabalho vem juntar-se àquilo que produzi ontem.”

Outra analogia: “É como se lançássemos um dado com um número diferente de faces de cada vez: ninguém conseguiria prever qual o número que vai sair”, explica. “Como a economia está sempre a crescer, nunca se consegue prever o que vai acontecer.”

A economia é uma rede complexa onde as “partículas” — os bancos —, desde que tenham suficiente energia [leia-se capital próprio], se relacionam uns com os outros e vão trocando essa energia. Mas essa rede não é aleatória e acaba por haver bancos muito grandes e outros muito pequenos.

A esse propósito, um dos marcos do trabalho que João Pires da Cruz desenvolveu foi um artigo publicado em 2012, juntamente com Pedro Gonçalves Lind, investigador do Centro de Física Teórica e Computacional da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, na revista European Physical Journal B, e que mereceu destaque internacional.

Nesse artigo, os autores mostravam que a ideia de que aumentar o capital dos bancos favorece a estabilidade bancária não só está errada como pode ter exactamente o efeito oposto ao previsto. Para João Pires da Cruz, a “fúria” da regulação bancária, que obriga os bancos a ter um capital mínimo maior do que antes da crise do subprime para prevenir os casos de insolvência, faz com que, na Europa, haja cada vez menos bancos e que o sistema bancário seja cada vez mais frágil.

Voltando aos modelos físicos aplicados à economia, há ainda um outro problema: o facto de que, em economia, tudo se mede em dinheiro. “Não pode haver equilíbrio físico num espaço em que todas as coisas são medidas em dinheiro”, frisa João Pires da Cruz.

Malefícios do dinheiro

Porquê? Porque o dinheiro é uma bitola fixa — mas que ao mesmo tempo, como a economia está sempre a crescer, está sempre a perder valor a partir do momento em que é impresso. E acaba por não ser bitola nenhuma. “Hoje, as coisas estão montadas em cima da ideia de que tudo se pode medir em dinheiro.” Ora, isso não funciona, diz João Pires da Cruz, porque “não é possível prever qual será o preço de uma coisa amanhã, mas apenas qual será a distribuição dos preços possíveis”.

Mais: ao medir-se tudo em dinheiro, não há programa de inteligência artificial nem génio humano das finanças que consigam calcular, por exemplo, o risco de uma pessoa a quem um banco empresta dinheiro vir a entrar em incumprimento. “Milhões de pessoas não têm crédito junto dos bancos porque os modelos estão mal feitos”, diz João Pires da Cruz.

Mas existe algum modelo mais próximo da verdade do que os actualmente utilizados? “Acreditamos que sim”, responde João Pires da Cruz.

Mas, para isso, é preciso essencialmente retirar o tempo e o dinheiro das fórmulas. “Tempo é dinheiro”, diz o adágio, mas aqui, a sabedoria popular tudo baralha.

“O tempo tem de passar a ser irrelevante nos modelos, porque é a única variável que não conseguimos controlar — é a única variável da física que está sempre a aumentar e que não volta para trás”, diz João Pires da Cruz. E o dinheiro também tem de se tornar irrelevante: “Temos de usar medidas relativas, como a comparação dos agentes económicos com outros agentes económicos no mesmo instante” — e deixar cair a medida absoluta do dinheiro. “Se não tirarmos o dinheiro da equação, vamos estar sempre a ser enganados por um computador”, enfatiza.

Ao tornar assim o tempo e o dinheiro “irrelevantes”, diz Pires da Cruz, as ferramentas financeiras passam a funcionar substancialmente melhor. “Mas não digo que já tenhamos a fórmula do Universo”, ressalva. “Ainda há muito trabalho para fazer.”

E é esse trabalho que ele está a tentar fazer na Closer, empresa onde trabalham 160 pessoas e que “é o maior empregador privado de físicos em Portugal”: 15 no total, dos quais cinco doutorados, para não falar de dezenas de matemáticos. “O nosso grande problema é que há muito poucos físicos.” Quanto a pessoas da área da economia, “não temos nenhum economista puro, apenas uns poucos especialistas de gestão”.

Quanto ao que se faz exactamente na Closer, João Pires da Cruz não adianta muitos pormenores, por razões de confidencialidade empresarial, desculpando-se várias vezes pelo nível de abstracção das suas explicações. “Estamos a usar as mesmas técnicas na economia que os físicos utilizam para descobrir planetas extra-solares — ou seja, sistemas de detecção de padrões”, diz-nos com um sorriso.

Entre os clientes da empresa, há obviamente bancos — mas também empresas de media. E João Pires da Cruz menciona, como exemplos de serviços oferecidos, “o cálculo de risco de incumprimento de empréstimos” ou ainda “modelos matemáticos para determinar a probabilidade, com base nos seus movimentos bancários, de uma pessoa vir a comprar um carro”.

Há muitas outras empresas a adoptar este tipo de abordagem?, perguntamos ainda. “Não”, responde. “Somos diferentes do resto do mundo. Em Londres, onde temos escritórios, somos conhecidos por fazermos o que mais ninguém faz.”

Contudo, o impacto deste trabalho tem sido limitado entre os físicos e inexistente entre os economistas. Há uma razão para isso, diz João Pires da Cruz: “Só no século XXI é que, graças à Internet e à informatização da banca, começou a haver dados sobre a economia. A partir de agora, já pode nascer uma ciência económica.”

E o futuro? “Daqui a 25 anos, os nossos filhos vão sorrir, porque vão olhar para o que sabemos hoje sobre economia como nós olhamos hoje para os astrónomos da época pré-coperniciana. De facto, até agora, os economistas andaram a fazer filosofia.”

 

Ana Gerschenfeld     

 

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