Papa Francisco: O bom, o mau e o feio

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 “O papa não pode ser “tudo para todos”. E a coisa boa sobre o Francisco é que ele não vai nem mesmo tentar sê-lo.  Através de seus pontos fracos e de sua falibilidade, o Papa Francisco está ajudando a deixar isto claro. Mesmo considerando o quão importante é o Bispo de Roma para a Igreja Católica, ele não é a figura central ou mais importante. E isto não é necessariamente uma coisa má.”

A reportagem é de Robert Mickens, editor-chefe da revista Global Pulse, publicada por Global Pulse, 10-02-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa. Robert Mickens vive em Roma, desde 1986, onde estudou teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, antes de trabalhar na Rádio Vaticano por 11 anos e, em seguida, como correspondente da revista The Tablet de Londres.

Omnia omnibus. São Paulo era demasiado ambicioso para pensar que poderia realmente ser “tudo para todos”. As suas limitações humanas e as fraquezas pessoais dos que pertenciam à sua comunidade cristã significavam que este era um objetivo distante, impossível de se realizar.

Mas, surpreendentemente, muitos católicos hoje pensam que o Francisco de Roma deveria ter condições de fazer aquilo que Paulo de Tarso não fez.

Eles esperam que o papa, sozinho, realize as “alegrias e esperanças” que eles têm para com a Igreja e forneça respostas concretas “à dor e angústia das pessoas do nosso tempo”.

Para alguns, isso significa que ele deveria estar defendendo as tradições distintivas do catolicismo face ao secularismo, enquanto que, para outros, significa reformar radicalmente a Igreja para uma sociedade de fiéis mais inclusiva e com visão de futuro.

Naturalmente, todos acreditam que ele já deveria ter implementado a maior parte destas reformas.

Mas o Papa Francisco não pode ser omnia omnibus [tudo para todos]. Esta é uma expectativa irrealista e injusta que se coloca sobre ele.

Honestamente, Jorge Mario Bergoglio, o 266º Bispo de Roma, é muito mais atraente com todos os seus talentos e falhas do que o herói mítico ou o imprudente, ou ainda o inimigo da tradição – o que vários grupos tentaram retratá-lo como sendo.

Enquanto a marca de dois anos de seu pontificado se aproxima (13 de março), mostra-se indubitavelmente claro que o primeiro latino-americano e primeiro jesuíta a se tornar papa é uma figura um tanto heterogênea.

 

O bom

Não há como negar que o Papa Francisco, num período muito breve de tempo, mudou a imagem de Igreja que muitas pessoas tinham: de uma religião de repreensão e moralizadora para uma comunidade de cristãos mais inclusiva, tolerante para com as falhas das pessoas e amiga para com fiéis de outros credos e até com os ateus. Ele também começou mudando o ethos do Vaticano e as fileiras de ministros ordenados, desmistificando o papado e desmantelando os restos remanescentes de um tribunal papal anacrônico.

Ele acertou com precisão ao criticar a mentalidade clericalista e seus métodos, chamando-a de um câncer dentro da Igreja. Ele começou o processo de equilibrar a centralização excessiva de autoridade (e poder) em Roma com uma campanha lenta porém deliberada para fazer da sinodalidade e de métodos melhorados da colegialidade episcopal uma parte constitutiva da complicada realidade teológica do papado e de suas prerrogativas concernentes à governança da Igreja.

Os que tanto desejam que Francisco tenha sucesso nessa área são também alguns dos críticos mais ferrenhos, são os que não conseguem ver que uma reforma de tal magnitude deve ser implementada com cuidado e precisão para que o seu predecessor (ou seus predecessores) não possa desfazê-la.

Esta é, sem dúvida, a mudança estrutural mais importante que ele iniciou. É um trabalho em andamento e que inclui uma reformulação completa do Sínodo dos Bispos. Independentemente dos elogios que ganhou da imprensa secular por seus esforços em limpar o assim-chamado Banco Vaticano e outras questões envolvendo dinheiro, uma reorganização financeira não está nem remotamente no topo das prioridades do Papa Francisco em relação à reforma da Igreja.

É uma prioridade somente no sentido de uma mudança atitudinal. Por exemplo, Francisco distanciou a Santa Sé e a Igreja universal, pelo menos aparentemente, de suas antigas alianças com os ricos e poderosos do mundo. E, em lugar disso, colocou uma ênfase quase constante na necessidade de a Igreja estar com os pobres e outras pessoas marginalizadas da sociedade, aquelas que ele gosta de identificar como os irmãos e irmãs da “periferia”.

Nesse mesmo sentido, ele também deu um novo impulso à doutrina social da Igreja e ajudou a sublinhar novamente o trabalho exemplar e cativante que católicos executam no campo da justiça social, do desenvolvimento humano, da assistência caritativa, da saúde e na preocupação com toda a criação de Deus – incluindo o ambiente natural. Naturalmente, ele enfatiza que os fiéis fazem tudo isso a partir do amor por Cristo e por seus irmãos e irmãs, e não porque simplesmente fazem parte de uma organização não governamental.

O Papa Francisco também encantou as pessoas por sua absoluta “normalidade”, falando e agindo tal como ele fazia antes de se tornar o Bispo de Roma. “Se tentasse agir de maneira diferente, eu pareceria ridículo”, disse a um amigo na Argentina logo após sua eleição.

Ao falar continuamente de improviso (às vezes até fazendo comentários questionáveis) e mostrar uma abertura e uma vulnerabilidade irresistíveis na conversa com os jornalistas, ele fez mais para frear a compreensão problemática da infalibilidade papal do que se tentasse efetivamente revogar o dogma.

 

O mau

As características cativantes do Papa Bergoglio decorrem da personalidade de um homem que se encontra claramente bem consigo mesmo. Ele é um exemplo de uma pessoa animada, livre e confiante no trabalho do Espírito Santo. Mas, como em todas as pessoas, há algo contraditório em sua personalidade. Ele também é um homem muito condicionado por sua própria formação cultural. E isto, às vezes, traz consequências negativas.

Por exemplo, há áreas onde o Papa Francisco não vem sendo um líder ou uma inspiração; onde, na verdade, ele tem sido uma decepção. Duas das mais gritantes são a sua atitude (e as suas palavras) em relação às mulheres e a sua resposta extremamente ambivalente ao flagelo dos abusos sexuais clericais.

Embora tenha falado em diferentes ocasiões, mesmo muito recentemente, sobre a necessidade de se envolver mais mulheres em todos os níveis das estruturais da Igreja, ele não fez absolutamente nada mais do que os seus predecessores para promover as mulheres a postos-chave no Vaticano.

Quando ele fala sobre as mulheres, o seu vocabulário mostra-se, por vezes, contaminado com um traço inconfundível do jargão de um homem machista ítalo-argentino. O fato de ele fazer brincadeiras com as madrastas e de constantemente repetir estereótipos sobre o matrimônio e a vida familiar ao estilo da década de 1950 denuncia a desconexão do papa para com muitas mulheres, especialmente aquelas da Europa do norte e dos países de língua inglesa.

Ele se encontrou com pessoas de todas as esferas da vida social – aqui inclui travestis, não crentes e pessoas de outras religiões. Mas ainda não se encontrou com um grupo de mulheres por algum período de tempo considerável, com o objetivo de compreender melhor as aspirações definidas por elas mesmas. Francisco mostrou uma capacidade enorme de escutar, aprender e reformular as suas opiniões. No intuito de ter sucesso em seu apelo por uma presença feminina maior na Igreja, ele deveria, de fato, se sentar e escutá-las.

O papa jesuíta também recebe uma avaliação negativa em sua resposta dada à crise dos abusos sexuais. Esta área simplesmente não é uma prioridade para ele. Levou quase um ano para que o Cardeal Sean O’Malley, de Boston, membro do Conselho dos Cardeais, o convencesse a criar uma Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores.

O grupo, presidido por O’Malley, se encontrou só algumas vezes e ainda está nos estágios iniciais de dar recomendações sobre como evitar futuros abusos sexuais contra pessoas vulneráveis na Igreja. Também começou sugerir formas de se responsabilizar os bispos quando eles não seguem os protocolos exigidos pela Igreja. Isto deve ser elogiado.

Mas o Papa Francisco enfrenta um problema colossal, da mesma forma como provavelmente os seus predecessores enfrentaram. Será difícil para ele disciplinar os bispos negligentes em suas formas de lidar com os casos de abuso sexual por um motivo simples: segundo consta, ele também foi negligente quando era arcebispo de Buenos Aires. Além disso, as vítimas de abusos clericais acusaram-no de se recusar a se encontrar com elas. Isso limita em muito a sua capacidade de disciplinar os demais bispos.

A Comissão para a Tutela dos Menores anunciou que está trabalhando na produção de materiais alusivos ao Dia Mundial da Oração por “aqueles que foram prejudicados pelos abusos sexuais”. O papa deveria fazer deste tema uma prioridade, realizando, por exemplo, uma cerimônia especial no Vaticano para marcar este dia.

Ainda que não fora um líder na questão dos abusos sexuais até o momento, ele desfruta de tanta credibilidade em tantas outras áreas que bem poderia mudar este cenário fazendo uma honesta e dramática mea culpa. Até que ele faça isso, suas palavras irão soar vazias e qualquer ação que ele contemple para disciplinar os outros bispos vai ser considerada uma ação hipócrita.

 

O feio

Pesquisas em todas as partes do mundo mostram consistentemente que o Papa Francisco desfruta de uma popularidade generalizada. Ele é, com razão, chamado de “o Papa do povo”.

Mas ele também tem inimigos. E uma série deles vive e trabalha em seu próprio quintal.

O Cardeal Raymond Burke, ex-prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, é um ponto de encontro de uma oposição ferrenha ao papa. Ele faz parte de um grupo de tradicionalistas, igrejeiros profissionais que estão alarmados com o chamado de Francisco a reexaminar os ensinamentos da Igreja relativos ao matrimônio e à família.

Este grupo é formado por outros bispos e religiosos, incluindo alguns teólogos em Roma e noutros lugares, que acreditam que o papa está levando, perigosamente, a Igreja Católica a uma forma “desastrosa e falida” do protestantismo.

Estes consideram o próximo Sínodo dos Bispos, em outubro, como o marco zero na luta para salvar o catolicismo de uma visão radical e equivocada que, creem eles, Francisco está defendendo em sua reforma da Igreja. E eles estão ocupados neste trabalho, aprimorando os seus argumentos em defesa do status quo.

O papa tem outros inimigos na Cidade Eterna. Alguns deles fazem parte da Cúria Romana, que tradicionalmente considerou a Companhia de Jesus, à qual ele pertence, como uma das ordens religiosas mais desconfiadas na Igreja. Estes o veem como “jesuíta demais” e se preocupam que ele acabe sendo até mesmo mais radical do que os fazedores de mitos na imprensa secular o fazem ser.

Por fim, o Papa Francisco também tem inimigos na ala “progressista” da Igreja. Estes são companheiros – especialmente nos Estados Unidos – extremamente impacientes com o ritmo lento das mudanças. Eles também tendem a considerar toda palavra ou ação como se fosse destinada a influenciar a política americana ou a proteger a Igreja da responsabilidade em processos judiciais relacionados com abuso sexual.

O papa não pode ser “tudo para todos”. E a coisa boa sobre o Francisco é que ele não vai nem mesmo tentar sê-lo.

Mesmo considerando o quão importante é o Bispo de Roma para a Igreja Católica, ele não é a figura central ou mais importante dela. Através de seus pontos fracos e de sua falibilidade, o Papa Francisco está ajudando a deixar isto claro. E isto não é necessariamente uma coisa má.

 

Robert Mickens,

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539866

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