Dom Helder, o mártir que não mataram

Clélia e  marido Jerônimo Podestà, bispo de Avellaneda na Argentina                      A autora Clelia Luro de Podestá inclui-se em uma lista de pessoas que não são bem vistas pela ala conservadora da Igreja Católica. A jornalista uniu-se em matrimônio com um bispo argentino, o progressista Jerónimo Podestá.  (NR. Clelia Luro, amiga pessoal do Jorge Bergoglio – papa Francisco- que deu a Santa Unção a Jerónimo Podestà, faleceu em 2014, em Bunos Aires.)

E essa união foi fortalecida pelas bênçãos de um bispo brasileiro, que ficou famoso por sua defesa em busca de mudanças na estrutura eclesiástica católica: Dom Hélder Câmara.

A amizade do casal com o ex-bispo de Olinda e Recife, no Estado de Pernambuco, é o pano de fundo deste livro de linguagem pessoal, “EL MARTIR QUE NO MATARON – Helder Camara”. Longe de pretender-se “jornalístico”, o livro narra a admiração e o respeito da autora pelas ideias e a vida do bispo brasileiro.

Em seu texto, Clelia apresenta a ideologia social e progressista de Helder Câmara dentro da Igreja – como o apoio ao matrimônio de sacerdotes e por uma maior participação da mulher no seio católico – mas, principalmente, as consequências políticas de suas posições. Como exemplo, o nome do livro.

 Segundo a autora, Câmara só não foi assassinado pelo governo brasileiro durante o período ditatorial (1964-1985) porque não queriam transformá-lo em mártir. Também por conta de suas ideias, dom Helder Câmara ficou muitos anos sem ser convidado a ir para a Argentina – e quando foi, em 1989, o governo argentino tratou de ocultar a visita do ilustre brasileiro.

Conforme detalha Clelia, após sua recepção no aeroporto, em Buenos Aires, “de imediato, fizeram-no entrar em um carro de aparência diplomática, conduzido por um sacerdote vinculado à Embaixada da França, acompanhado em seu interior por três policiais de ‘segurança máxima’, como um amigo nos comentou estranhando tamanha escolta.

Do aeroporto, Câmara foi levado a um lugar desconhecido, para afastá-lo totalmente do público, amigos e conhecidos”.

O que mais chama a atenção no livro, entretanto, é a perseguição que Câmara enfrentou dentro de sua própria Igreja. Se por um lado os papas o ouviam e pediam conselhos, por outro, mantinham uma vigilância cerrada, impedindo o sacerdote de expor suas ideias com liberdade.

“Creio que Helder é tão grande, mas ao mesmo tempo, frente ao Papa, é como uma criança sem malícia…”, reflete a autora.Quanto a este cerceamento, o bispo brasileiro refletia humildemente, demonstrando respeito e submissão às ordens de sua instituição.

“A proibição de ir às dioceses onde não fui convidado pelo bispo local foi só um conselho, uma instrução do Papa, e eu aceitei seu conselho.

“A Igreja] pediu-me também que entregue de antemão e por escrito o texto do que pretendo falar” – palavras do próprio Helder.

Dom Helder e Clélia Luro – México -1978

São essas narrativas doces e, por vezes, revoltantes, que contextualizam a vida de dom Helder Câmara. Leitura obrigatória para quem deseja conhecer melhor a vida de nosso “bispo vermelho”.

Paulo Emanuel Lopes

Publicitário e estudante de jornalismo. Colabora com ADITAL.

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