FIDELIDADE, OBEDIÊNCIA E LIBERDADE DE SER E PENSAR

 

Nesse contexto, a Igreja sente necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. É preciso partir da convicção de que o homem vem de Deus e, por isso, uma reflexão capaz de propor as grandes perguntas, sobre o significado de ser homem, possa encontrar terreno fértil nas expectativas mais profundas da humanidade.”(n.º 11)

Surpreendeu-me a notícia, veiculada num jornal local do dia 17 de novembro último, a respeito da excomunhão do Padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como Padre Beto, da cidade de Bauru (SP).

O processo de excomunhão foi iniciado no mês de abril de 2013. Acusação: postura e artigos publicados por parte de Padre Beto, favoráveis à possibilidade de amor entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, Padre Beto chamaria atenção por um estilo de vida que não combinaria com a dignidade de um sacerdote.

Após ter refletido sobre esta questão, e as suas consequências, não me é mais possível, em consciência, permanecer em silêncio, e desejo manifestar o que sinto, penso e o que me preocupa. Farei meu comentário em apoio ao Padre Beto. Procurarei fazer abordagens mais amplas, abrindo condições para perguntas decorrentes. Sinto-me na obrigação de ajudar a nós todos a refletirmos com mais profundidade sobre assuntos desta importância, antes de nos tornarmos coniventes com julgamentos ou posturas excludentes.

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“O diálogo como forma de encontro” (Papa Francisco)

Na exortação apostólica “Alegria do Evangelho” (24-11-2013), o Papa Francisco dedica muitos artigos à importância do diálogo. Com base no diálogo de Jesus com a Samaritana (cf. João 4, 7-26), ele faz considerações como, por exemplo:

“Um diálogo é muito mais do que a comunicação de uma verdade. Realiza-se pelo gosto de falar e pelo bem concreto que se comunica através das palavras entre aqueles que se amam. É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias pessoas que mutuamente se dão no diálogo.”(142). O Papa discorre: “É hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos, mas sem separá-la da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões” (239), a fim de assumirmos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada” (87).

    Pergunto:

  • porque a arma usada pela hierarquia eclesiástica está sendo a do Direito Canônico, ou seja, porque as leis, feitas pelos homens em determinadas épocas, vem sendo colocadas, novamente, de forma normativa para nossas vidas e acima da mensagem libertadora do Evangelho?
  • Será que, ao usar este mecanismo medieval de exclusão, não se coloca à mostra a sua própria falta de argumentos, o decorrente medo pelo diálogo e o prazer de sustentar uma igreja piramidal, portanto não-dialogal?
  • Será que nós todos, desejosos para seguirmos ao nosso irmão Jesus, não precisamos ser fiéis e obedientes, a priori, a Ele, porém não como ovelhas que O seguem cegamente e sim como seguidores que, em pleno uso da liberdade, criada em nós pelo Pai, sabem a Quem seguir e porque e como segui-Lo?

       Pergunto-me se não se torna urgente refletir, de forma serena, a respeito da mão estendida pelo Papa Francisco quando este disse aos repórteres, em sua viagem de volta a Roma, após o encontro com os jovens no Rio de Janeiro:

Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos.”.

E ainda: terminou, no mês passado, em Roma, o sínodo sobre a família. Foi um momento no qual emergiu a idéia de uma Igreja “que ‘escuta’ o presente e as suas feridas” (arcebispo argentino Víctor Manuel Fernández, 16-10-2014). Todos nós sabemos que o próprio sínodo não chegou a conclusões definitivas, o que significa que há a necessidade de promover mais diálogo (sínodo do próximo ano sobre a mesma temática), a fim de construir novos consensos a respeito de assuntos tão delicados e essenciais à vida.

Refletindo, por exemplo, sobre a relevância da vida afetiva, o texto final do sínodo diz:

 Nesse contexto, a Igreja sente necessidade de dizer uma palavra de verdade e de esperança. É preciso partir da convicção de que o homem vem de Deus e, por isso, uma reflexão capaz de propor as grandes perguntas, sobre o significado de ser homem, possa encontrar terreno fértil nas expectativas mais profundas da humanidade.”(n.º 11)

 Pergunto se não é exatamente isso que Padre Beto deseja. E mais: como ele já havia pedido afastamento temporário de suas funções (por certo ele sabia que jamais ganharia a sua causa), porque tanta pressa em aplicar esta medida drástica da excomunhão, em português claro, expulsão da “comunidade” dos “fiéis”?

Enfim, uma lição do nosso profeta, Dom Helder, que dizia: “Se discordas de mim, tu me enriqueces.”. Que bela lição que, caso fosse aplicada, faria todos nós respirarmos profundamente a nossa liberdade de opinião e opção de vida, comunicando-nos como irmãos e irmãs em Jesus.

“Desejo uma Igreja pobre e para os pobres”(Papa Francisco)

Aproveito deste ensejo para abordar outra questão, a meu ver, profundamente ligada ao exposto acima.

Pergunto: porque tanta preocupação com clérigos que apresentam opiniões divergentes e “problemáticas”, quando de ordem “moral” e, especialmente, “afetivo-sexual”? E porque, ao mesmo tempo, autoridades eclesiásticas não se pronunciam – ao menos até onde eu sei – a respeito de clérigos, quando estes apresentam atitudes que não estão em concordância com a “pobreza evangélica” e a caridade cristã?

Quero entender a pobreza evangélica como a atitude daqueles que não pretendem dominar os outros pelo poder (material ou espiritual) e a riqueza, mas que desejam construir o reino de amor, justiça e paz, tornando-se, eles mesmos, pobres, colocando-se do lado dos pobres. Para isso precisa assumir atitudes características do Reino, que são a pobreza no espírito e no coração, a sensibilidade pela justiça e a paz como consequência.

Considero, portanto, de difícil entendimento clérigos se moverem em carrões de luxo e de uso privativo, visitarem salões de beleza, gastarem muito dinheiro em vestimentas litúrgicas etc. . Isso combina com a dignidade de um sacerdote? Ouçamos o Papa Francisco:

“Penso que temos que dar testemunho de certa simplicidade – eu diria, inclusive, de pobreza. Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes. Exige no bom sentido, não pede isso. O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, estamos apegadas ao dinheiro. Isso é ruim. E realmente não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro último tipo, de marca. Acredito que… Isso, digo aos párocos, em Buenos Aires dizia sempre: é necessário que o padre tenha um carro, é necessário. Porque na paróquia há mil coisas a fazer, deslocamentos são necessários. Mas tem que ser um carro modesto.”(29-07-2013)

 Não dá mais para aguentar vendo paróquias gastarem dinheiro com embelezamento do seus templos e demais dependências, instalando inclusive ar-condicionado – enquanto o bairro respira pobreza -, ao mesmo tempo que não desenvolvem tipo algum de pastoral social junto aos “preferidos de Deus”. Quando falo em pastoral social, não me refiro a mecanismos assistencialistas, e sim penso em promoção humana e em processos de conscientização.

Porque não incomoda à Igreja o distanciamento de muitos dos seus clérigos da proposta de Jesus quanto a vivencia do Evangelho junto aos pobres?

 

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As observações que acabo de partilhar resultam, por um lado, de uma preocupação que me entristece, e, do outro, por não conseguir mais entender muito bem para onde a nossa igreja está caminhando.

Sinto-me perdido, porque percebo que a Igreja, em grande parte, se encontra em um momento de mostrar e viver uma preocupação demasiada com sua própria sobrevivência (como se ela tivesse sentido algum em si e para si mesma!), tentando colocar ordem na sua casa através de preocupações com questões nem tão relevantes e isoladas da vida real das pessoas.

Nego-me a morrer de saudades de Dom Aloísio, de Dom Helder, Irmã Dorothy e de outros e outras mais. Não é este sacrifício que eles pedem, porque seria inútil. Mas sei que o legado que deixaram os supera, e deve ultrapassar o tempo curto em que estiveram conosco.

E o legado deles é claro, e nele hei de inspirar-me para os tempos de hoje, para meu tempo: a preocupação com o ser humano, o sentido último de suas vidas.

Eles nos ensinaram que somos chamados a preocupar-nos com esta vida e a nos interrogar se ela é, verdadeiramente, a antecipação do Reinado definitivo do Espírito, que nos inspira e dá coragem a fim de buscarmos sempre o outro, de Jesus, nosso irmão, que nos envia para sermos “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt. 5, 13-16) e com Deus, nosso Pai, que nos quer ver misericordiosos uns com os outros.

“UM POUCO DE MISERICÓRDIA FARÁ O MUNDO MENOS FRIO E MAIS JUSTO”

(Papa Francisco)

 

Fortaleza, 24-11-2014,

 

Geraldo Frencken, (geraldof73@yahoo.com.br)

padre casado,

preocupado com a Igreja que aí está.

 

FONTE: http://padrescasadosceara.blogspot.com.br/2014/11/fidelidade-obediencia-e-liberdade-de.html#more

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