Maomé, vida de profeta, sem perder a misericórdia

Entre os 99 nomes de Deus, entre os apelativos que definem Alá, não há o de “pai”. Mas é Maomé, o Profeta do Islã, quem serve de “papai” para os muçulmanos, aos quais ensina tudo, até como fazer xixi. 

 

 

A reportagem é de Pietrangelo Buttafuoco, publicada no jornal La Repubblica, 25-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 “É sério”, pergunta um incrédulo, “o Profeta de vocês lhes ensinou cuidadosamente sobre como fazer as necessidades?” A resposta, como relata Ignaz Goldziehr em Études sur la tradition islamique (Paris, 1952), é de Muhammad: “Eu sou para vocês o que o pai é para os filhos. Devo instruir-lhes sobre tudo”.

Deve-se se limpar das impurezas com a mão esquerda, enquanto a direita é bênção. Imagine, então, se Maomé, com o seu exemplo (todas as notícias recolhidas pelo relato da sua vida e dos “ditos” atribuídos a ele), não deu instruções precisas: cumprimentar por primeiro, olhar sempre nos olhos, combater com valor, pechinchar com habilidade, brincar à vontade, praticar a arte do humor.

Uma velhinha se aproxima de Muhammad e lhe pergunta se encontrará lugar no Paraíso: “Não”, responde o Profeta, com tom áspero, “no Céu de Alá as velhas não entram”. A mulher permanece congelada pela resposta, mas Muhammad sorri, entrega-lhe uma rosa e sussurra: “Quando estiver no Paraíso, voltará a ser a moça bela e sadia que você foi”.

MulheresMuhammad ama os perfumes, as orações e as mulheres. E é o Profeta mais radicalmente humano, é o exemplo para aqueles que “esperam em Deus e no último dia”. Daí deriva a necessidade para todo muçulmano de conhecer a sua vida, de se adaptar aos seus gestos, à sua mesma postura e de reunir, entre as anedotas, as suas frases.

Vite e Detti di Maometto (Meridiani Mondadori, projeto editorial de Alberto Ventura, com artigos de Michael Lecker e Rainer Brunner) se dirige ao leitor de uma forma que não envolve um conhecimento especializado nem, muito menos, se revela como um dossiê de uso das polícias internacionais.

“Ufa” é uma palavra árabe. Uff, de fato, é a primeira palavra negativa na língua árabe e nunca se deve dizê-la aos pais, nem ao próximo, mesmo que fosse um inimigo. Cada gesto do Profeta, para o crente, é um fato pródigo de ensinamentos: Anas bin Malik viu Muhammad curvar os joelhos para que a esposa, Safiyya, apoiando sobre eles os pés, tivesse um cômodo apoio para montar o camelo.

Não existe criatura no cosmos que não tenha uma centelha de Misericórdia. E, de fato, seremos recompensados por como cada um tratou os animais. Muhammad conta a história de um homem sedento que, tendo chegado a um poço, percebeu um cão esgotado pelo calor, mas impossibilitado de chegar até a água. Movido por piedade, recolheu água com o sapato e saciou o cão, comovendo Alá que o elevou de todos os pecados anteriores.

O conjunto dos Ditos e das Vidas, além do contexto fideísta dos muçulmanos, é algo semelhante ao que o corpus dos fragmentos pré-socráticos – o primeiro depósito da sabedoria grega – representa na história da cultura universal.

Permanece como um dos pilares do Ocidente, embora coletando as fontes diretamente no alvorecer do Islã, o capítulo que Thomas Carlyle dedicou a Maomé entre os Heróis, mas, ao serem memória, escrita e, portanto, cânone, as Vidas e os Ditos (os hadith) – como fontes de uma religião fragmentada entre os fluxos das diversas interpretações –, fora da ótica “historicista”, tornam-se “sunna” e encontram a dimensão cotidiana.

Essa dupla raiz de biografia do Profeta e de “falado”, relatado por testemunhas e certificada por sábios, torna-se matéria viva no crente. Ainda hoje, os hadith e os fatos de Muhammad são aprendidos mais pelo conto do que pelo estudo.

O conjunto dos hadith e a unicidade da vida de Muhammad não são doutrina, são experiência. “Se chegar a Hora” – ou seja, o fim do mundo – “e alguém tiver nas mãos uma semente com a intenção de plantá-la, que o faça”. É ainda Muhammad que fala, e o cânone é práxis, diz respeito a cada momento do dia – até mesmo a sugestão de não exceder com a água durante as refeições –, sem nunca se enrijecer na esterilidade das normas.

E é um tema “santo” o fato de se conformar com aquilo que foi dito e com aquilo que foi feito, a ponto de se tornar guia lá onde o Alcorão – voz e palavra de Deus – se torna para o crente um irredutível e “sagrado” pacto a dois.

Muhammad é o melhor entre os descendentes de Adão e é, na cadeia da Revelação, aquele que colocou o Selo da religião universal. Ao contrário de Jesus, que para os muçulmanos é o “Espírito de Alá”, Muhammad não morreu na Cruz e vai voltar como guerreiro no fim dos tempos.

Ele faz amor, seduz, é um combatente e, portanto, mata – é um líder político, é o fundador de uma comunidade que se espalha para além do seu tempo histórico até chegar aos nossos dias –, e o seu túmulo é visível porque os seus dias sobre a terra se concluíram à espera do Dia do Julgamento.

Na sua morte, em 632, Abu Bakr, o primeiro califa do Islã, assim fala à comunidade dos crentes: “Quem adorava Muhammad, pois bem, saiba que Muhammad morreu, e só Deus não morre”.

Antes de Dante Alighieri, que fez essa viagem em virtude de poesia, é Muhammad quem faz experiência da viagem que o leva para o além, onde pode ver os infernos e, depois, na ascensão, encontrar a luz de Deus. Ao lado dos preceitos, estas são as provas “da profecia de Muhammad”.

“Quando caminhava”, escreve Michael Lecker na introdução ao Meridiano – “parecia que ele estava descendo uma ladeira.”

Muhammad é como um pai que sabe como encontrar uma resposta para todo porquê. Progenitor de uma humanidade redimida da ignorância, o Profeta oferece as chaves da lealdade e da piedade, como quando, entrando na Kaaba, o templo erguido por Abrão, hoje meta da peregrinação santa, varrendo para longe os ídolos, diz: “Nenhum outro terá estas chaves, exceto vocês, família”.

A quem educa uma ou mais filhas cabe o Paraíso, e essa sentença do Profeta soa como subversiva para os seus contemporâneos árabes, acostumados a enterrar vivas as recém-nascidas. At-Tirmiti narra sobre um homem que, por três vezes, perguntou a Muhammad: “Quem merece ser tratado melhor?”. A resposta do Profeta é sempre: “A sua mãe”.

Quando, por fim, o homem repete pela quarta vez a pergunta, eis a resposta: “O seu pai”. Pater, portanto. Na acepção de uma realeza que deve ser socorrida ao ponto de ceder à ternura: “Um pai que não sabe beijar o próprio filho”, diz Muhammad em um hadith, “não conhece misericórdia no próprio coração”.

E o pai, relata o hadith, chega como quarto depois de que, por três vezes, a semente do amor plantado no coração dos homens é confirmada como sendo a da mãe, a mulher a cujos pés – e são inúmeras as inscrições e as caligrafias que o atestam – “é sempre Paraíso”.

Pietrangelo Buttafuoco

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/537949-maome-vida-de-profeta-sem-perder-a-misericordia 

  • Vite e Detti di Maometto. Meridiani Mondadori, 1.248 páginas.

 

 

 

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