Comunhão aos que mantém união estável? A Igreja abre uma pequena porta

“Se recusou a entregar a eucaristia, mandando-os de volta aos seus lugares. Nenhuma explicação antes ou depois. O meu namorado ficou muito mal, chegou a chorar. Disse que deveria pelo menos nos ter dito duas palavras antes do ocorrido”.

Explicava a moça em questão, “eu e o meu namorado já moramos juntos”, mas buscamos aquilo que Marcos colocou no seu Evangelho, “o homem deixará seu padre e sua mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão apenas uma carne”.

Afinal somos bons cristãos, temos bons propósitos, somos fiéis um ao outro, vamos à missa e seguimos os ritos de preparação para o sagrado matrimônio como fala na Bíblia.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada por Il Foglio, 08-11-2014. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

E agora porque as portas são batidas na nossa face apesar de, há uma ano e meio, o vigário de Cristo na Terra,Francisco, diga nos jornais, nas homilias e discursos que aquelas portas sejam escancaradas porque todos podem entrar na igreja, hospital de campo?

Onde Jesus disse que os que moram juntos devam ser excluídos, excluídos a se confinar em um limbo de pecado? Todos são acolhidos, diz o Papa. Ninguém excluído. Especialmente os que tem feridas a curar depois da batalha.

Pragas para sanar “partindo de baixo”, advertiu há algum tempo Bergoglio, recomendando evitar permanecer em “provérbios pequenos” como o sábio e o zeloso, os escrupulosos e os cuidados por ele fraternamente repreendidos a conclusão do Sínodo sobre a família, há três semanas.

Não é questão de doutrina, salva por rajadas inovadoras que, interpretando-a como um magma em movimento lento, queriam modernizá-la e adequá-la aos tempos atuais para “fazê-la entender melhor” aos homens e mulheres do século XXI.

Aquilo que Cristo falou não se toca, explica um pouco cada um, e também no Sínodo – em uma rede de disputas apaixonadas e efervescentes entre os padres – ficou claro que o vínculo era indissolúvel e permanece indissolúvel, e que o homem não pode dividir aquilo que Deus uniu. Mas e os outros?

Existe uma diferença entre os divorciados recasados, entre aqueles que quebraram o vínculo sacramental de natureza divina contraindo um novo casamento civil – que para a igreja é inválido – e acabou antes, a um passo do sacramento, dando vida a um tipo de igreja doméstica construída com base no amor iluminado pela fé?

Tomamos por base o caso de duas pessoas que moram juntas, que estão juntas com amor recíproco há trinta anos, fiéis uns aos outros, com filhos e netos cristãos: onde está escrito que não podem ser convidados à Eucaristia?

O ponto é que – explicava o dominicano – não se pode dar a comunhão a quem “obstinadamente vivem em pecado grave”, e quem convive comportando-se como se fossem marido e mulher recaem neste caso. “A convivência tem também relações sexuais entre os seus componentes, e essa está fora do projeto de Deus e o tira do seu verdadeiro significado. Não existe nada a adicionar.

Os trabalhos pré-matrimoniais são falsos, uma mentira. Dizia então o Papa, há pouco canonizado, João Paulo II, protetor da família. E com ele uma série infinita de normas de códigos, parágrafos e parágrafos do código de direito canônico, citações de versos trazidos do Velho e do Novo Testamento.

Mas esta é uma logica totalmente estranha ao abraço evangelizador de Francisco, pronto a chegar a um acordo com o mundo para salvar os que estão nas periferias mais longínquas, observava a poucos dias no jornal La Croix Jean-François Chiron, professor da Universidade Católica de Lyon: “É preciso recordar daquilo que o Papa disse e escreveu”, e que “a eucaristia também constitui a plenitude da vida sacramental, não é um prêmio destinado aos perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos”.

“Clareemos de imediato, a questão é muito mais complicada”, disse o teólogo de vanguarda Andrea Grillo.

“O fato é que a igreja precisa repensar as próprias categorias.O matrimônio sacramental tem uma construção antiga e nobre, mas hoje não existe mais correspondência imediata na sociedade em que vivemos. Correto, o matrimônio sacramental é ainda hoje um ponto de chegada ideal e ordinário, mas hoje tudo é muito mais complicado.

É interessante notar como o debate sinodal também tem muitos posicionamentos que se refugiam naquilo que eu definiria como maximalismo, onde somente o máximo do bem é bem, enquanto todo o resto é mal. Mas São Tomé já sabia que existem níveis de realidade em que se pode bem perseguir também o mal menor, e penso que essa lógica será redescoberta”.

Ninguém coloca em dúvida que aquilo que Deus uniu não se pode separar, mas “Palavra de Deus não define detalhadamente o que devemos entender com ‘aquilo que Deus uniu’, relativo aquilo que o ‘homem não deve separar’.

Também quem foram um casal de fato se une em um vínculo, embora não sacramental. Somente no tempo de Cristo o fenômeno não existia: “De fato as categorias com que raciocinamos hoje são formadas na ausência destas experiências. Quando o modelo de família é modificado a vontade de vê-lo como fruto do pecado é muito forte e não quer dizer que hoje as coisas estão melhor”, acrescenta Grillo, para o qual “existe uma tentação de manter um modelo rígido de matrimônio sacramental, enquanto todo o resto, estranho a isso, deve ser condenado”.

Hoje, porém, “existem partes de bem que a igreja não pode não reconhecer. Se trata de todas aquelas experiências que rodam em torno do sacramento, que estão nos limites dele. Constituem para sempre uma identidade eclesial.

Não é mais admissível registrar como pecado aquilo que não corresponde ao modelo que contruímos; um modelo de derivação medieval que entrou em crise com o século XIX”. O problema não está na Palavra de Deus, que é aquela transmitida pelo Evangelho, mas sim “da sua transcrição e tradução medieval”.

Alguém, há alguns anos, tentou abrir o hospital de campanha para os não casados. Era o ano de 2005, o pontificado de João Paulo estava no crepúsculo, e o Sínodo diocesano de Verona discute a possibilidade de fazer da convivência pré-matrimonial uma espécie de pré-sacramento, um tipo de fase final legal antes da celebração do casamento na igreja, na frente de Cristo.

“Teologicamente absurdo”, falou então o Pe. Ivo Cisar, histórico juiz do Tribunal eclesiástico regional do Vêneto
hoje extinto: “Pastoralmente a igreja não pode desclassificar (nem o faz tacitamente) o pecado dos não casados. Para o que serviria? A um puro proselitismo?

A igreja não pode dobrar a lei divina para os pecados e abusos de fato; dado este passo se aprovam todos os pecados. Cristo ao invés nos ordenou “Ensinem a todos a observar tudo aquilo que os mandei”.

A substância, acrescia o sacerdote juiz, é que “as transgressões não justificam as pessoas, mesmo que fossem muitas, talvez a maioria, nem autorizam a abolir a lei, não a fazem cair, muito mais que essa é a divina”.

A água sob as pontes passa sempre da mesma forma. O Bispo de Roma hoje é um homem que antes era bispo em Buenos Aires, cidade das vilas miseráveis, a enorme favela que envolve o coração da capital argentina, onde a comunhão se dá a todos, sem se ater no currículo de que se aproxima do altar para receber a hóstia.

“Nós respeitamos as pessoas. Se as pessoas procuram a comunhão, damos a elas a comunhão. Não somos juízes que decidem quem deve e quem não deve se comungar, diz o padre Pepe di Paola, que trabalha nas periferias e é amigo e discípulo de Bergoglio há uns vinte anos:

“Procuramos ter uma linguagem mais propositiva, falar dos sacramentos, explicamos que os sacramentos são para todos”. Também para quem vive junto: “Quando nos encontramos na frente das pessoas que moram juntas sem estarem casadas na igreja não levantamos barricadas, nem no caso dos sacramentos e da comunhão. Nos opomos àqueles que tem apenas preceitos”.

Aqui, entre os barracos e ruas que quando chove se transformam em grandes córregos, “a maior parte dos casais vai viver junto diretamente, sem se casar. Aqui o casamento religioso não está no pensamento de muitas pessoas”, e então é necessário se adaptar, olhar a realidade, que não é mais aquela de cem, duzentos, trezentos anos atrás, e escolher o mal menor:

“Aproximar e não rejeitar, incluir, tornar os casais participantes de um projeto, de uma comunidade, de uma casa comum. Estas pessoas seguidamente estão fora da igreja porque fazem escolhas diferentes das nossas, e se você se opuser, de maneira particular aos sacramentos, não obterá nada, simplesmente ficará de fora”.

 

 

Matteo Matzuzzi

 

 

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/537251-hostia-aos-que-mantem-uniao-estavel-a-igreja-abre-uma-pequena-porta

1 comment to Comunhão aos que mantém união estável? A Igreja abre uma pequena porta

  • Aos poucos vamos chegar lá onde a Verdade e o bom censo andam de mãos dadas! Sabemos que não existe matrimônio onde o Amor está ausente, pois é o Amor que torna o Casamento indissolúvel! Tenhamos coragem para sermos autênticos nesta área!

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