A ciência e o divino

A ciência e o divino 1

Anselmo Borges ri
por ANSELMO BORGES, 13 setembro de 2014
Pensa-se, por vezes, que todos os cientistas são ateus. Não é verdade. Há cientistas ateus, cientistas agnósticos e cientistas crentes. A questão fundamental consiste em saber se se crê num deus pessoal ou se se está mais na linha do divino impessoal. De qualquer modo, ficam aí alguns textos de cientistas eminentes sobre o tema, voltando à questão no próximo sábado.

Galileu Galilei, que se manteve sempre crente: “Gostaria de dizer aqui uma coisa que se ouviu de um eclesiástico do mais eminente grau: “A intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o Céu e não como são os céus.

Newton: “Deus criou tudo com conta, peso e medida.” “Deus governa todas as coisas e sabe tudo o que é ou pode ser feito.”Niels Bohr: “A ideia de um deus pessoal é estranha para mim…, mas devemos lembrar-nos de que a religião usa a língua de uma forma bastante diferente da ciência.

Ela está mais intimamente ligada à linguagem da poesia. É verdade que nos inclinamos a pensar que a ciência lida com informações sobre factos objectivos e a poesia com sentimentos subjectivos. Assim, podemos concluir que, se a religião, de facto, lidasse com verdades objectivas, deveria adoptar os mesmos critérios de verdade que a ciência.

Mas eu acho a divisão do mundo num lado objectivo e noutro subjectivo demasiado arbitrária. O facto de as religiões através dos tempos terem falado por imagens, parábolas e paradoxos significa simplesmente que não há outras formas de compreender a realidade a que se referem.

Mas isso não significa que esta não seja uma realidade genuína. E dividir essa realidade em lado objectivo e lado subjectivo não nos levará muito longe. É por isso que, no meu entender, os desenvolvimentos em física nas últimas décadas, que têm mostrado os problemas de concepções como “objectivo” e “subjectivo”, constituem uma grande libertação do pensamento

Schroedinger: “Espanta-me muito a deficiência do quadro científico do mundo à nossa volta. Ele fornece um monte de informações factuais, coloca toda a nossa experiência numa ordem magnificamente consistente, mas não nos dá mais do que um medonho silêncio sobre as pessoas que estão perto do nosso coração, que são o que realmente nos importa.

Ele não nos diz uma palavra a respeito do amargo e do doce, do vermelho e do azul, da dor e do prazer físico, do belo e do feio, do bem e do mal, de Deus e da eternidade. A ciência às vezes finge que responde a perguntas nestes domínios, mas as respostas são muitas vezes tão idiotas que não estamos dispostos a levá-las a sério.”

Carlos Fiolhais, a quem devo, em parte, as citações que aí ficam: “A ciência e a religião são domínios distintos do homem. Embora o sujeito seja o mesmo, as dimensões a que essas duas actividades se referem são diferentes. O diálogo entre elas nem sempre foi tão pacífico como hoje. Actualmente, o diálogo está mais fluido.

E, na minha opinião, é necessário ter esse diálogo, pois o sujeito é o mesmo e há características que são comuns, sendo a mais imediata o ambas tentarem, cada uma à sua maneira, penetrar o mistério. A ciência procura o mistério do mundo, a religião procura o mistério do outro mundo.

Sejam os cientistas crentes, ateus ou agnósticos, reconhecem que há dimensões para lá da ciência: por exemplo, a dimensão da arte, da beleza, do amor, do sentido último. Podem encontrar respostas como seres humanos, mas não com o seu método científico.”

Fonte: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4122277&seccao=Anselmo+Borges&tag=Opini%EF%BF%BDo+-+Em+Foco&page=-1

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A ciência e o divino 2
por ANSELMO BORGES20 setembro 2014
 

É difícil, se não impossível, determinar qual a maior revolução da história da humanidade. Mas estaremos de acordo em conceder que a revolução científica no sentido moderno da palavra,se não foi a maior, está entre as maiores e decisivas.

A ciência exerce fascínio fundamentalmente por dois motivos.

Um deve-se ao seu método empírico-matemático, de verificação experimental, que faz que seja verdadeiramente universal, não havendo, portanto, uma ciência para crentes e outra para ateus ou agnósticos. O outro: todos acabam por ser beneficiados pelas suas aplicações técnicas.

O que devemos à ciência é incomensurável. Ela satisfaz a curiosidade natural do homem por saber, como bem viu Aristóteles, e também as suas outras necessidades: de saúde, bem-estar, locomoção, comunicação. Hoje, até se fala, mais propriamente, de tecnociência, pois a própria investigação científica precisa de tecnologia. Acrescente-se apenas que é preciso estar consciente dos perigos das tecnologias, como mostram as ameaças ecológicas.

 É tal a dívida para com a ciência que se corre mesmo um risco e tentação: pensar que ela detém o monopólio da razão. De facto, não detém, pois a razão é multidimensional e há necessidades humanas a que a ciência não responde: por exemplo, a estética, a ética, a religião. O homem será sempre religioso, porque não deixará de colocar a questão do fundamento e sentido últimos.

Na continuação da semana passada, cito outros físicos eminentes na sua relação com o divino.

Max Planck: “Toda a matéria origina e existe apenas em virtude de uma força que leva a partícula do átomo a vibrar e mantém coeso este sistema solar muito diminuto do átomo. Devemos supor por trás dessa força a existência de uma mente consciente e inteligente.”

Heisenberg: “Na história da ciência, desde o famoso julgamento de Galileu, tem sido repetidamente afirmado que a verdade científica não pode ser conciliada com uma interpretação religiosa do mundo.

Embora eu esteja hoje convencido de que a verdade científica é inatacável no seu domínio próprio, nunca achei possível descartar simplesmente o conteúdo do pensamento religioso como parte de uma fase ultrapassada na consciência da humanidade, uma parte de que teríamos de desistir agora.

Assim, no decurso da minha vida, tenho sido repetidamente obrigado a reflectir sobre a relação entre estas duas áreas do pensamento, uma vez que eu nunca consegui duvidar da realidade daquilo para que as duas apontam.”

De Broglie: “Mesmo supondo a mais favorável das expectativas, que o amanhã sai do hoje de acordo com o jogo implacável de um determinismo estrito, a previsão de eventos futuros nas suas imensas densidade e complexidade vai infinitamente além de todos os esforços de que a mente humana é capaz e só seria possível a uma inteligência infinitamente superior à nossa. Portanto, mesmo que uma necessidade inexorável ligasse o futuro ao presente, poder-se-ia dizer que o futuro é um segredo de Deus.”

Einstein respondeu à pergunta sobre se era uma pessoa religiosa: “Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da natureza, e descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso.”

 

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