”A tragédia dos abusos podia ter sido evitada”, afirma Dom Charles Scicluna

Promotor de Justiça da Doutrina da Fé durante o pontificado de Bento XVICharles Scicluna é agora bispo auxiliar em Malta. Poucos como ele conhecem os dossiês do Vaticano sobre os chamados delicta graviora, entre eles “os atos impuros” cometidos por um padre com um menor.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 19-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Promotor de Justiça da Doutrina da Fé durante o pontificado de Bento XVICharles Scicluna é agora bispo auxiliar emMalta. Poucos como ele conhecem os dossiês do Vaticano sobre os chamados delicta graviora, entre eles “os atos impuros” cometidos por um padre com um menor.

Eis a entrevista.

Comecemos pelos números: o papa, na conversa com Eugenio Scalfari, disse que 2% do total dos pedófilos no mundo são padres. As indicações que chegaram ao ex-Santo Ofício nos últimos anos parecem ser menores. É possível esclarecer a situação?

Fui promotor de Justiça na Congregação para a Doutrina da Fé de 2002 até 2012. Estudamos e decidimos centenas de casos, mas nunca fizemos estudos de natureza estatística. Os bispos dos Estados Unidos encomendaram um estudo científico publicado em 2004 [conhecido como Relatório John Jay]. Dos 109.604 padres que trabalharam nos EUA entre 1950 e 2002, 4.392 foram denunciados por abusos sexuais de vários tipos contra pessoas com idade inferior aos 18 anos.

O cálculo, portanto, é de 4% do total dos padres denunciados. Fala-se de denúncias, simplesmente. Não conheço outras fontes confiáveis. Infelizmente, os percentuais para o clero católico parecem estar no mesmo nível de outras profissões e categorias. O condicional aqui é obrigatório, porque faltam estudos científicos abrangentes.

Recentemente, o Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos da Infância, divulgou um relatório em que se pede que sejam “imediatamente removidos” e entregues às autoridades civis todos os prelados que estão envolvidas em abusos de menores ou que sejam suspeitos de estar. Por que a denúncia não é obrigatória na Igreja?

A indicação clara que sempre se deu é que é preciso seguir a legislação local [no jargão internacional, domestic law]. Se o legislador obriga a denúncia, é preciso seguir a lei. Se a denúncia é deixada pelo legislador à escolha livre da vítima, é preciso respeitar a escolha da vítima ou do seu tutor e ajudá-la no livre exercício dos seus direitos. Mas não se deve, de forma alguma, tentar dissuadir a vítima do exercício livre da denúncia.

Francisco, voltando da viagem à Terra Santa, disse que os padres pedófilos cometem atos semelhantes a uma“missa negra”. O que mudou dentro da Igreja em relação à pedofilia nos últimos meses?

Um estudo mais aprofundado sobre o significado teológico do pecado de abuso sexual de menores por parte dos clérigos. Na verdade, o magistério de Francisco considera tal abuso como uma profanação: a corrupção de uma pessoa inocente é semelhante à profanação do corpo de Jesus na Eucaristia. A criança inocente é ícone límpido do discípulo de Jesus: corrompê-lo é como profanar o corpo de Jesus.

O senhor já trabalhou na Doutrina da Fé nos anos em que João Paulo II e o então cardeal Joseph Ratzinger, que depois se tornou papa, eram acusados de encobrir os abusos. O Vaticano respondeu que os responsáveis eram os bispos locais.

JP II - orde. Mulheres

Bento XVI saiÉ princípio teológico e prático que o bispo diocesano é responsável pelo governo pastoral da diocese. Podiam-se evitar muitas tragédias se tivessem sido seguidas as indicações do Código de Direito Canônico. A Santa Sé oferece o seu próprio serviço jurisdicional para facilitar o ministério de governo nas Igrejas locais. A decisão de reservar algumas causas para a Santa Sé, como no caso dos abusos sexuais cometidos por clérigos, é indicativo da gravidade do caso e da vontade de facilitar uma resposta adequada nos casos individuais.

O papa instituiu recentemente uma Comissão para a Proteção dos Menores, em que também há uma vítima. Que resultados essa comissão pode obter?

A comissão é uma ocasião propícia que permite que a Santa Sé aproveite a experiência e a competência de diversos especialistas na avaliação das suas próprias políticas de formação, de prevenção e de proteção, além do ministério humilde de compartilhar a própria sabedoria.

Em 2010, enquanto se enfureciam as acusações na mídia contra a Igreja, o senhor fez uma homilia na basílica vaticana em que disse que, para aqueles que cometem abusos, “o inferno será mais duro”. Por causa dessas palavras, o senhor recebeu críticas, mas Francisco usou palavras semelhantes várias vezes. Retrospectivamente, o senhor diria novamente essas coisas? Realmente o inferno será mais duro para os pedófilos?

Naquela meditação, eu citei um comentário de São Gregório Magno, que usava as categorias teológicas da sua época. Não cabe a mim mandar alguém para o inferno. Eu rezo para que todos possamos nos deixar abraçar pela misericórdia de Deus. Mas é preciso se arrepender do mal que se faz. Jesus fala da pedra de moinho e do mar. Fala também da necessidade de cortar pé, mão e de cavar o olho para não se perder. Cromácio de Aquileia comenta as palavras de Jesus e diz que os pés da Igreja são os diáconos, as mãos são os padres, os olhos são os bispos. Eis um critério teológico para a demissão do estado clerical de quem pode causar escândalo aos pequenos inocentes.

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