A beleza interior

88És pó e ao pó tornarás”, diz a Bíblia (Gênesis 3:19). Disso todos temos consciência. Mas cada civilização tem diferentes maneiras de lidar com a vida e a morte. Alguns povos, por suas crenças em outra vida, mumificaram os mortos e, graças a essa técnica, muito se aprendeu sobre sociedades que nos precederam há milhares de anos. Mexicanos costumam celebrar com alegria, música, bebidas e comidas o Dia dos Mortos. Também os japoneses têm uma visão mais serena desse evento tão natural quanto nascer e crescer.

Faço essa introdução para dizer que fui visitar a exposição O Fantástico Corpo Humano, que permaneceu dois meses num shopping da Capital. No maior templo de consumo da sociedade, uma oportunidade rara para refletir sobre o significado da vida. Não sei quantos dos 70 mil que passaram por ali pensaram mais filosoficamente sobre a existência.

A exposição provocou polêmica em alguns lugares por onde passou (já foi vista por mais de 20 milhões em todo o mundo), pois são corpos verdadeiros de seres humanos – chineses, no caso – submetidos 89a uma técnica de desidratação dos tecidos, um processo de polimerização – ou plastinação, como ficou mais conhecido. Tentando simplificar: embora os corpos e vários órgãos sejam reais, parecem plastificados. O processo foi criado em 1975 pelo alemão Gunther von Hagens. Até então, corpos humanos e seus órgãos internos só eram objeto de estudos em escolas de Medicina.

Mas não foram só médicos que se interessaram em conhecer o corpo humano profundamente. Gênios da pintura como Leonardo da Vinci desafiaram as proibições de sua época para conhecer visceralmente os músculos, vasos, ligamentos, cada parte do corpo.

A técnica de Hagens trouxe mais um dilema: afinal, isso é arte ou ciência? Pode ser as duas coisas, tamanho o esplendor e sofisticação. As veias pulmonares e do coração, a árvore bronquial, as artérias da parede torácica mais parecem algas ou coloridos corais. Como não admirar a vasta rede de artérias, veias e vasos capilares de inacreditáveis 145 mil quilômetros dentro de nós? Ou um coração que bate aproximadamente 100 mil vezes e impulsiona 7.975 litros diariamente?

Costuma-se dizer que o mais importante, num ser humano, é a beleza interior, referindo-se, obviamente, às virtudes espirituais. Mas, depois de ver a exposição, é possível concordar que essa beleza também está presente na matéria que nos constitui. “Somos feitos de matéria estelar”, disse o astrônomo Carl Sagan. Tudo o que somos um dia foi estrela. Átomos de carbono, nitrogênio e oxigênio, além de outros elementos pesados gerados há 4,5 bilhões de anos. Por isso, não há dúvida: somos seres de intensa beleza, feitos para brilhar.

Autor: Celso Vicenzi

Fonte: www.adital.com.br

Jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa
Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Assessora uma cooperativa de crédito, publica artigos em vários portais e escreve humor no Jornal de Barreiros e no twitter

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