Ministérios da mulher: poderão eles contribuir para uma Igreja renovada?

Foi a pergunta que pôs e a que tentou responder Alice Gombault, por longos anos professora do Instituto Católico de Paris, no Congresso da Federação Internacional dos Padres Católicos Casados, realizado em Wiesbaden, Alemanha, de 16 a 19 de setembro de 2005.

Aqui um resumo da palestra, feito por Irene Ortlieb Guerreiro Cacais.

Poderão os ministérios da mulher contribuir para a renovação da Igreja ou, pelo contrário, correrão o risco de consolidar ainda mais o sistema clerical e hierárquico? Uma mudança nas práticas discriminativas da Igreja não atingiria só a ela, mas também à sociedade. Entre tais práticas, a não-ordenação de mulheres constitui um verdadeiro “apartheid antropológico” (Martine Millet). Na Igreja, só a palavra do homem ensina, santifica e governa.

Uma discussão já antiga, com argumentos sólidos

Que eu saiba, já no século 17, um feminista extemporâneo, Poullain de la Barre, reclamava o sacerdócio para a mulher, num livro sobre a igualdade dos sexos. Desde então, a posição das mulheres mudou muito. Acompanhando a evolução, o Direito reconheceu-lhes a plena capacidade jurídica e, com isso, plena estatura humana. Na Igreja, porém, a atitude discriminadora permaneceu, não só na prática, mas também na lei (v. o cânon 1024: “Só um varão batizado recebe validamente a ordenação sagrada”).

Há 40 anos que mulheres e homens, teólogas e teólogos de renome, se dedicam a esta questão do ministério da mulher.

A Sagrada Escritura

É bom saber que, em 1977, antes de escrever Inter insigniores sobre a questão da admissão de mulheres ao sacerdócio, Paulo VI quis saber a opinião da Comissão Bíblica Pontifícia a esse respeito. A Comissão chegou à conclusão de que o Novo Testamento, por si só, não permitia dar uma resposta inequívoca sobre a questão. Mas a grande maioria era de parecer de que se podia confiar às mulheres os ministérios da Reconciliação e da Eucaristia, sem com isso contrariar a vontade original de Cristo. Mas Paulo VI não seguiu esta opinião.

Os textos oficiais do Vaticano realçam a grande liberdade de Jesus no seu relacionamento com as mulheres, em contrraste com os costumes da época. Por isso afirmam que, se Ele quisesse mulheres apóstolas, as teria escolhido.

Mas que é que constitui o apóstolo? O chamamento, o seguimento de Jesus e o ser enviado por Ele. Ora, seguiram-no tanto homens como mulheres; e mulheres também foram por Ele enviadas, como Maria Madalena (Jo 20,17), que, por isso, foi por vezes chamada apóstola dos apóstolos.

A escolha dos 12 simbolizava os 12 chefes das 12 tribos de Israel e significava que a salvação era para todo o Povo de Deus. Ora, numa sociedade patriarcal, dificilmente uma mulher representaria um chefe de tribo.

O apóstolo devia ser também testemunha da Ressurreição, mas o testemunho de uma mulher não merecia nenhum crédito.

Para mais, não vale pedir a Jesus que se pronunciasse sobre um problema não levantado na sua época. Não se falava nem da ordenação de homens nem de mulheres.

A tradição

A Igreja nunca ordenou mulheres, é o argumento da tradição.

Mas ela teve de fazer muitas coisas que antes não fizera. A Igreja primitiva teve de tomar decisões e organizar-se, mesmo não sabendo qual era a vontade expressa de Jesus sobre questões graves como a admissão dos gentios na Igreja. Mudou o número e forma dos sacramentos. Mudou de opinião sobre empréstimo de dinheiro a juros, sobre a escravidão, sobre a pena de morte, etc.

O clero que ela constituiu, inspirou-se no modelo judaico e, a partir do século II, a hierarquia eclesiástica seguiu os moldes do poder romano. Contudo, Jesus, que não foi sacerdote, mas apenas leigo, não instituiu sacerdotes, isto é, individos sagrados, separados do profano, sacrificadores, intermediários entre Deus e os homens. Se é chamado sacerdote na Carta aos Hebreus, é porque pôs termo, uma vez por todas, aos sacrifícios. O rompimento do véu do Templo no momento da sua morte era o símbolo do fim da separação entre o sagrado e o profano. O sacerdócio não é evangélico.

O argumento “in persona Christi”

Cristo era homem e, por isso, só pode ser representado por um homem que atuará in persona Christi.

Mas será que a pessoa de Cristo se define absolutamente pela sua masculinidade ou carregará toda a humanidade consigo, isto é, a humanidade de ambos os sexos? Será ele só varão (vir, aner) ou homem (homo, anthropos)? A Teologia diz que Cristo só salvou o que assumiu. Se Ele assumiu só a masculinidade, só salvou os homens, não as mulheres. Se assumiu toda a humanidade, assumiu também a feminilidade e, portanto, a mulher também pode atuar in persona Christi.

Não esqueçamos ainda que o sacerdote também atua in persona Ecclesiae e a Igreja é a “Esposa de Cristo”. Um símbolo feminino, portanto. Nesta lógica, também só as mulheres poderiam representar a Igreja!

A imagem da mulher

A imagem da mulher que persistiu na Igreja e ainda influi nas sociedades laicas, é que torna difícil sua plena integração nos ministérios.

A inferioridade das mulheres

É um argumento oficialmente abandonado, mas que foi usado durante séculos. Só uns exemplos. Gregório de Niza dizia no século IV: “Só os homens são capazes de deduzir as consequências do saber, ao passo que a fraqueza de espírito das mulheres não as faz aptas para o estudo, como Eva já o demonstrou”. E Santo Agostinho: “Segundo a ordem da natureza, a mulher deve servir ao homem, porque o menos dotado deve servir ao mais dotado”. E São Tomás de Aquino, século XIII: “O sexo feminino não pode representar nenhuma condição de superioridade, porque a mulher ocupa um estado de submissão. Por isso, ela não pode receber o sacramento da Ordem”.

Novas afirmações

É na carta apostólica “Mulieris dignitatem” (1988) que se encontra pela primeira vez, saídas da pena de um Papa, afirmações novas sobre as relações entre mulheres e homens. João Paulo II fala da igualdade essencial e da reciprocidade entre eles. Esta nova visão, qualificada como feminista, foi reafirmada em 1995, antes da conferência da ONU em Pequim, na carta que escreveu às mulheres de todo o mundo. Nela o Papa expressa o seu pesar pelo papel da Igreja na desfiguração da mulher e proclama a responsabilidade igual do homem e da mulher na construção da História.

Não obstante, são claras as assimetrias que ressaltam das palavras do Papa. Para ele o mistério da mulher é de ser “virgem, mãe e esposa”; é “o esposo quem ama, a esposa é amada, ela é quem recebe o amor, para depois ser capaz de amar também”.

Nessa carta às mulheres de todo o mundo, o Papa descreve a imagem da mulher, da mulher em si, não na sua relação com o homem; a imagem da mulher universal e eterna, não das mulheres nas situações concretas.

Torna-se difícil para a Igreja deixar a ideia de que a natureza humana do homem e da mulher são diferentes. Os textos oficiais falam longamente da natureza da mulher, não da do homem. O homem continua a ser visto como o protótipo da humanidade. A mulher continua sendo a outra, a diferente, a misteriosa, sobre a qual não se pára de falar, sobretudo se se é homem celibatário.

Os ministérios femininos efetivos

Nas Igrejas, as mulheres estão exercendo de fato ministérios. Realizam serviços, provocam por vezes surpresa, raras vezes hostilidade e, rapidamente, aceitação e reconhecimento nas comunidades. Portanto, não é verdade o que frequentamente se diz: que a mentalidade do povo ainda não está preparada.

Para algumas destas mulheres trata-se da fidelidade a uma vocação sentida porventura desde a infância ou surgida diante das necessidades do povo.

Existe, por vezes, um chamamento da Igreja. O bispo confia às mulheres certas atividades, reconhecendo como eclesiais os seus serviços. Investidas de responsabilidade na Igreja, elas sentem-se e são vistas como fazendo oficialmente parte dela.

Muitas julgam que, para cumprir a sua missão, deviam ser ordenadas.
De tudo isso se há de concluir que o que existe não é uma crise de vocações, mas uma crise de ordenações. O Espírito não pára de chamar, mas Ele sopra onde quer e, muitas vezes, o chamamento é feito a pessoas que, dadas as regras eclesiásticas vigentes, não podem ser ordenadas. Dá-se preferência à tradição, não às necessidades do Povo de Deus.

O bloqueio de Roma

São três os textos principais que impedem o acesso das mulheres à ordenação.

O primeiro é de Paulo VI, Inter insigniores, de 1977. O único argumento que ali se invoca para negar o sacerdócio à mulher é este: “A Igreja nunca o fez”.

Em 1994, era publicada a Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis de João Paulo II, que declara a ordenação sacerdotal reservada exclusivamente aos homens, dando a questão por definitivamente encerrada.

Alguns meses depois, em 1995, surge uma nota da Congregação para a Doutrina da Fé, assinada pelo cardeal Ratzinger, a esclarecer a natureza da Ordinatio sacerdotalis. Tratava-se de uma doutrina que implicava a infalibilidade do magistério e exigia, por conseguinte, um assentimento definitivo. De uma regra que se acreditava apenas disciplinar e histórica, fazia-se uma doutrina de fé.

Mas houve outros textos menores: em 1997, uma instrução sobre questões de cooperação entre leigos e sacerdotes; em 1998, uma carta apostólica para a defesa da fé, Ad tuendam fidem; e, em 2001, Liturgiam authenticam. Uma verdadeira escalada no bloqueio, o que levou um porta-voz do episcopado francês a afirmar: “Quando não se obtém a concordância dos espíritos pela via intectual, bloqueia-se pela via jurídica… Uma constante na história da Igreja”.

Na última encíclica de João Paulo II sobre a Eucaristia, Ecclesia de Eucharistia, de 2003, é fortemente sublinhado o seu sentido sacrificial e, consequentemente, a sua incompatibilidade com a vocação da mulher, que é dar a vida e não derramar o sangue. E a encíclica define, com mais precisão o significado da expressão in persona Christi: ela significa mais que “em nome” e “em lugar de Cristo”; significa identificação, uma identificação específica. E Cristo é homem, não poderia ser reconhecido numa mulher.

Dois grandes desafios

Em 1992, a Igreja anglicana introduziu a ordenação de mulheres. As conclusões teológicas a que chegaram os estudos anglicanos divergiam das conclusões da Igreja católica. Já havia mulheres ordenadas, primeiro de diaconisas, depois de sacerdotisas e até de bispas na comunhão anglicana. Na Nova Zelândia, por exemplo. A reação da Igreja católica foi violenta, acusando os anglicanos de estarem a sabotar os avanços ecumênicos. O inverso também poderia ser dito.
O acesso da mulher ao episcopado foi tema do sínodo anglicano em fevereiro de 2005. Em princípio, foi aceito. A questão posta foi a seguinte: “Que Igreja queremos ser? Uma Igreja em sintonia com o mundo moderno para lhe dar uma nova credibilidade”.

Em 2002, foram as mulheres católicas, na maioria alemãs e austríacas, que começaram a agir. Eram mulheres de alto nível humano e teológico. Seus diplomas de doutorado e suas responsabilidades na Igreja falavam a seu favor.

Elas cansaram-se de tantos bloqueios. A pedido seu, um bispo em ruptura com Roma (talvez vários) ordenou 7 delas, no dia 29 de junho de 2002, num barco, no Danúbio. Outras ordenações se sucederam. Três delas foram sagradas bispas. Em junho de 2004, 6 mulheres (2 americanas, 1 canadense, 1 suíça, 1 lituana e 1 francesa foram ordenadas diaconisas perante 120 convidados. Este ano, 2005, 10 mulheres receberam o diaconato e o sacerdócio. No dia 2 de julho, numa viagem de barco pelo Saona e o Ródano, recebeu a ordenação sacerdotal a francesa Geneviève Benez; o caso teve grande repercussão na mídia. Neste momento, são 60 as mulheres que se preparam para o sacerdócio; seguem um curso ministrado pela doutora em Teologia Patricia Fresen que, durante muitos anos, se consagrou, como freira dominicana, à formação de sacerdotes na África do Sul.

A reação da Igreja católica não se fez esperar. Em 5 de agosto de 2002, cinco semanas após a sua ordenação, as 7 primeiras ordenadas foram excomungadas. Os argumentos de Roma não foram nem bíblicos, nem teológicos, nem pastorais; foram unicamente argumentos de autoridade a impor uma tradição que não é viva.

As mulheres vêem o cânon 1024 (só o homem pode receber validamente a ordenação) como uma lei eclesial imoral. Está em contradição com a declaração dos direitos humanos e com os textos do Vaticano II (GS 29).

Diversas estratégias e suas implicações

Uma estratégia pascal

Por onde começar? Renovação da Igreja ou renovação dos ministérios? Uma coisa não caminha sem a outra. Tal como se entende hoje, hierárquico e clerical, o ministério ordenado bloqueia a renovação da Igreja. É por isso que há quem se alegre com a diminuição de sacerdotes. Devemos deixar piorar a situação, dizem alguns. É uma estratégia bastante passiva: espera-se a morte para que venha a ressurreição.

Primeiro renovar a Igreja

A crise do ministério não é senão um reflexo da crise da Igreja. A hierarquia minimiza-a, limitando-a ao mundo ocidental. Mas a gente se apercebe de que, quando um país atinge um certo nível de vida, a prática religiosa e a obediência aos preceitos diminuem. A Igreja precisa de um novo discurso, tem de voltar às fontes, ao Evangelho, para se fazer entender dos nossos contemporâneos. Há formulações dogmáticas antigas e textos romanos atuais que usam uma linguagem sem sentido. Mas o mais grave são comportamentos eclesiásticos resultantes da organização hierárquica e autoritária da Igreja. A mensagem não está só nas palavras e nos escritos; todo o comportamento é mensagem. Todos os cristãos e cristãs têm de fazer um grande esforço de reforma.

Observa-se o surgir de novas comunidades e práticas alternativas. Será que temos de esperar a renovação da Igreja para podermos pensar na ordenação de mulheres?

Uma estratégia emanada da prática

Muitas mulheres já exercem um ministério, tanto quanto leigos varões. Pode esperar-se daí uma mudança de mentalidades. Roma já o notou e proibiu que se falasse de “ministério”, quando se trata de leigos, homens e mulheres. Só que, sendo as mulheres que se encontram em maior número nessa situação, a medida atinge-as principalmente a elas.

Começar pelo diaconato

Mais que reivindicar o sacerdócio para as mulheres, não seria melhor pedir a legalização do seu ministério pelo acesso ao diaconato? O diaconato está-lhes historicamente garantido. Esta seria uma via suave e foi a escolhida pela Conferência Mundial para a Ordenação de Mulheres, em Dublin, em 2001. Mas logo uma nota do Vaticano viria recomendar aos bispos que pusessem termo à preparação “direta ou indireta” de mulheres para a ordenação diaconal. Claro, é que, onde as mulheres tiveram acesso ao diaconato, como na Igreja anglicana, logo lhes foi permitido o acesso ao sacerdócio e, depois, até mesmo ao episcopado.

A transgressão

É esta a estratégia atual, tomada a palavra transgressão no seu sentido fundamental de “ir mais além”. Trata-se, não tanto de transgredir limites, mas de criar um novo caminho onde não havia ainda nenhum. Trata-se de um passo fora de uma lei injusta que priva da liberdade. Que fazer, se a vocação não pode ser ignorada? Não é melhor obedecer a Deus do que aos homens?

O fato de Roma logo ter excomungado tais mulheres mostra a importância do caminho escolhido e o perigo que ele representa para o sistema. Não será esse o único caminho, mas tavez seja um caminho sem retorno. Sacrilégio ou ato profético? Só o futuro o dirá.

A Igreja oficial devia recordar as palavras de Gamaliel nos Atos dos Apóstolos: “Homens (da Igreja), considerai bem o que fazeis com (estas mulheres)… Por isso vos digo: não vos metais com (elas) e deixai-as em paz. Caso se trate de empreendimento ou obra humana, será destruída por si mesma; mas, se provém de Deus, não a podereis destruir. Não corrais o risco de fazer o papel de adversários de Deus!” (At 5,35-39).

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