Contar sobre a ditadura até que a história crave nos ossos dos mais jovens

Ditadura - Vídeo
 “Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente. Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca”, escreve Leonardo Sakamoto *, em artigo publicado em seu blog, 01-04-2014.

Eis o artigo.

Um aluno me perguntou se eu não achava exagero estar aparecendo tanta coisa sobre o golpe militar de 1964 na mídia. Em sua opinião (“Já deu, né?”), o assunto é chato e ele e seus amigos não aguentam mais esse assunto.

Ainda bem que era só um futuro jornalista. Nada com o qual devemos nos preocupar.

É claro que a história pode ser contada e analisada de uma maneira mais interessante do que é feito hoje, tanto pelas escolas quanto pela mídia. Nisso, podemos melhorar e muito, tornando o aprendizado tão viciante quanto jogar Candy Crush.

Ou se isso não for possível que, pelo menos, crianças e adolescentes sejam levadas a compreender qual a utilidade de se conhecer os caminhos já trilhados pelos que vieram antes deles para não repetir os mesmos erros. Perceber que o mundo não começa com seu nascimento, nem vai se exaurir com a sua morte.

golpe e a ditadura cívico-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente.

Aliás, deveríamos transformar o dia do golpe militar de 1964 em feriado nacional. Talvez assim possamos garantir que esse dia nunca seja encarado por nós e, principalmente, pelas gerações que virão como um grande  Primeiro de Abril, como se o golpe de 1964 nunca tivesse existido.

Ditadura Brasil - ISTOÉ 2

Cicatriz que não deveria ser escondida mas permanecer como algo incômodo, à vista de todos, funcionando como um lembrete. Não vivemos três décadas de piada, apesar da elite militar e parte da elite econômica do país terem rido muito às custas de quem pedia liberdade e democracia nos Anos de Chumbo.

Pouco me importa o que pensam os verde-oliva da reserva que tomam seu uísque nos Clubes Militares enquanto, saudosos, lançam confetes ao Dia da Revolução (sic). Demonstrações de afeto a um período autoritário são peça de museu, então que fiquem, democraticamente, com quem faz parte do passado.

Mas eles precisam saber – ainda em vida – que, desta vez, a História não vai ficar com a versão dos golpistas. E que o mundo que eles ajudaram a construir, mais cedo ou mais tarde, vai embora com eles. Não por vingança, mas por Justiça.

Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido permanece nos assombrando. Seja através de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a esperar o marido que jaz no fundo do mar, lançado de helicóptero. Seja adotando os métodos desenvolvidos por eles para garantir a ordem e o progresso.

Durante a ditadura, os militares armaram uma farsa para encobrir o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. A explicação trazida a úblico, de suicídio na cela, não convenceu e a morte de Vlado tornou-se símbolo na luta contra o regime. Mas fez escola.

Em São Paulo, um homem de 39 anos foi encontrado enforcado pouco mais de duas horas depois de ter sido preso.

  • Supostamente, era traficante e transportava cocaína.
  • Supostamente, teria se enforcado usando um cadarço de sapato.
  • Questionado por jornalistas se não é praxe da polícia retirar os cadarços de sapatos de presos, um policial afirmou que o acusado usou um pedaço de papelão para arrastar um cadarço que estava fora da cela.

Ditadura D. Paulo Arns

Seria cômica se não fosse ofensiva uma justificativa dessas.

Como aqui já disse, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando ou reprimindo parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

A verdade é que não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje.

Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente.

Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca.

Que a história dos assassinatos sob responsabilidade da ditadura seja conhecida e contada nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada.Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

 

Leonardo Sakamoto 3Leonardo Sakamoto

é jornalista graduado pela Universidade de São Paulo – USP, mestre e doutor em Ciência Política.  Coordenador da ONG Repórter Brasil e representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo – Conatrae. Também escreveu Trabalho escravo no Brasil do Século XXI (Brasília: Organização Internacional do Trabalho, 2006).

 Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/04/01/contar-sobre-a-ditadura-ate-que-a-historia-crave-nos-ossos-dos-mais-jovens/

 

1 comment to Contar sobre a ditadura até que a história crave nos ossos dos mais jovens

  • Paulo Roberto

    Senhores, bom dia.
    Eu não posso concordar com o termo DITADURA. E explico: DITADURA é o que ocorre em CUBA, onde NÃO HÁ ELEIÇÕES.
    Aqui no Brasil, o que ocorreu foi um CONTRAGOLPE, pois todos sabemos que os comunistas não desistiram de tomar o poder. Mesmo com a Intentona tendo falhado, não desistiram. E não mediram esforços.
    Antes de se falar em DITADURA, observemos que o Brasil, ano passado, bateu RECORDES DE LATROCÍNIO, ESTUPRO E USO DE COCAÍNA. Antes de se falar em DITADURA, lembremo-nos de que O BRASIL FINANCIA, COM NOSSOS IMPOSTOS, A DITADURA DA ILHA-PRISÃO DE FIDEL CASTRO.
    Isso, senhores, eu não vejo o nobre Sakamoto discutir.
    É sempre uma boa idéia ser comunista – com o VIL METAL GANHO COM O SUOR ALHEIO. E, claro, defendem FIDEL, mas não largam as férias em PARIS.
    E, vamos falar sério: a IGREJA CATÓLICA, com suas idéias de proteger o “oprimido, o pobre, o desassistido” tem sua parcela ao criar os movimentos que deram origem ao MST.
    Apoiava a “ditadura” escondendo TERRORISTAS no interior das igrejas.
    Que se abram os arquivos da DILMA ROUSSEFF. O que há nesses arquivos que o povo não pode ficar sabendo?
    Estamos vivendo, sim, o final dos tempos. A própria Igreja Católica está dividida neste assunto. Mas a prova está aí: a igreja já não sabe mais o que fazer para se manter fiel às palavras de Cristo.
    Aguardem para breve a colheita do que os senhores mesmos plantaram, pois ELE VEM.

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