DA IGREJA QUE TEMOS PARA UMA IGREJA À LUZ DO CONCÍLIO VATICANO II NA AMÉRICA LATINA

(Texto n.º 4 para reflexão em preparação para o encontro nacional de MFPC de 2012)

QUEM ESTÁ COM A VERDADE?

O Evangelho vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não tem fundada uma religião, nem ritos, nem tem ensinado doutrinas, não tem organizado um sistema de governo, nada disso. Ele se dedicou exclusivamente ao anúncio e à promoção do Reino de Deus, o que significa dizer que propôs uma mudança radical de toda a humanidade em todos os aspectos, mudança esta, da qual os pobres são os atores, porque somente eles são capazes de atuar com sinceridade e autenticidade para promover um mundo novo. Esta é uma meta política, porque é uma orientação dada a toda a humanidade.

E a religião? Em primeiro lugar, observamos que os discípulos de Jesus têm criada uma religião a partir d’Ele, porque a religião é indispensável ao ser humano. Não se pode viver sem religião (nos Estados Unidos há 38.000 religiões registradas!). A religião é uma criação humana, é uma mitologia, indispensável à humanidade. Em segundo lugar: religião é composta de ritos para conter as ameaças e assegurar-se de benefícios. As religiões têm pessoas separadas para administrar os ritos e ensinar a mitologia.

Como começou a religião? Quando Jesus foi transformado em objeto de culto. O culto a Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Ele nunca pediu a seus discípulos um ato de culto, mas queria o seguimento. Essa dualidade começa a aparecer uns 40 anos após a morte de Jesus, precisamente a partir de pessoas que já não tinham convivido com Ele! (texto transcrito de parte da palestra de Padre José Comblin em 18-03-2010 em San Salvador).

Continuemos esta reflexão com ajuda de um texto da teóloga Ivone Gebara:

A Igreja hierárquica institucional sempre acreditou e acredita numa verdade hierárquica, ou seja, numa verdade que emana das hierarquias, de cima para baixo. Acredita que há uma verdade sobre os seres humanos e sobre a vida da Igreja que é revelada por Deus, sobretudo às autoridades que governam a Igreja. São elas que se apresentam como as fiéis cumpridoras dos desígnios divinos e responsáveis por sua execução na comunidade dos fiéis.

Nessa cosmovisão imagina-se que exista o mundo de Deus (mundo espiritual) que se contrapõe ao mundo humano (material), de forma a ouvirmos com freqüência a frase que contrapõe “os desígnios de Deus e os desígnios humanos”. Esta contraposição muitas vezes é tirada de seu contexto original profético e é afirmada como uma contraposição entre uma realidade desconhecida e uma realidade conhecida. A realidade desconhecida é considerada de Deus e é a mais perfeita. A Igreja tem aparentemente domínio sobre esta realidade que não se vê, realidade chamada de espiritual. A partir dessa consideração a Igreja hierárquica se afirma como a Mestra que convida à obediência às leis da Igreja considerada como obediência aos desígnios divinos. Mas, estes desígnios apesar de chamados espirituais incidem sobre a materialidade da vida humana e por isso mesmo revelam toda a sua contradição. Estas ordens ditas do espírito incidem sobre nossa materialidade, nossos corpos como única e complexa realidade que nos constitui. Esta visão dominante no passado continua presente ainda hoje.

Entretanto, sabemos que desde sempre, na história da Igreja houve movimentos que representavam outra concepção da verdade. Identificavam a verdade ao amor real ao próximo, aos irmãos e irmãs caídos nas estradas da vida, aquelas e aqueles marcados pelo sofrimento e oprimidos pelas injustiças sociais de diferentes tipos. A verdade para eles era a busca da vida digna, a verdade era a afirmação dos direitos à dignidade humana representada pelo acesso às coisas mais básicas que nos permitem viver: comer, beber, vestir, trabalhar, ter moradia digna, ter saúde, ter direitos garantidos, ter acesso aos conhecimentos, viver em paz pareciam ser expressões da verdade humana, ou seja, expressões das coisas das quais necessitamos para viver. A verdade da vida não é abstrata, mas é relacional, se afirma através de nossas relações fraternas e sororais.

Esta verdade concreta que pessoas como São Francisco de Assis, Santa Clara, São Vicente de Paulo. Sóror Joana Inês de La Cruz, Dom Helder, Dorothy Stang, Chico Mendes, Madre Tereza de Calcutá liam na tradição de Jesus, se contrapunha às verdades dogmáticas e, sobretudo à afirmação do poder religioso sobre os fiéis. O poder religioso, quase sempre cúmplice dos poderes políticos e econômicos dominantes, não pode suportar qualquer afronta ao que julga desobediência à sã doutrina. Para eles na sã doutrina estava a verdade e estava a vontade de Deus e o seguimento de Jesus Cristo. Mas, para o outro lado a verdade não estava na sã doutrina emanada das querelas reológicas ou dos interesses de minorias privilegiados. A sã doutrina era a vida sã, a vida sadia vivida na liberdade e no respeito, na partilha do pão e do vinho, da terra e de seus frutos. Desde os Padres da Igreja se afirmava que a glória de Deus é “o homem de pé”, ou seja, o homem e a mulher vivendo no respeito e na dignidade uns dos outros. A esta afirmação de fé houve críticas e esforços reiterados para que ela não fosse considerada como ensinamento fundamental da vida cristã. Ela podia ser perigosa e ameaçar o poder dos privilegiados. A tendência dominante sempre espiritualizou a verdade assim com o corpo. Enfatizou que o corpo era chamado à corrupção, à morte e que apenas as almas seriam salvas na eternidade. Entretanto, para o outro lado, o ser humano é uma realidade única, indivisível. A verdade, por sua vez, não é uma firmação abstrata, uma idéia na qual somos obrigados a crer, um ensinamento que nos disseram ser a verdade revelada sobre Deus ou sobre nossa vida. Mas, a verdade é o irmão caído na estrada, a irmã violentada em seu corpo, os povos expulsos de suas terras, as crianças com fome de pão e de amor, a terra devastada e destruída pela ganância de poucos. A verdade é o outro que me interpela. A verdade sou eu na minha fragilidade capaz de ser interpelação para os outros.

A verdade é a palavra que ouço nos limites de minha história, uma palavra que me vem dos muitos injustiçados e sofredores de nosso mundo. É esta palavra que é carne e se faz continuamente carne para que nossos ouvidos de carne possam ouvi-la e entende-la. É esta palavra histórica próxima de mim a única capaz de me mover para amar o meu próximo. É a palavra criadora de novas relações entre os seres humanos e toda a criação. Esta palavra é Deus na carne humana, seguindo o Prólogo do Evangelho de João. É ela a única capaz de penetrar os nossos ouvidos e nos tirar dos excessos de individualismo e da fuga de nossa responsabilidade comum.
A verdade institucional muitas vezes se debateu com a verdade dos corpos feridos e sofridos. Era a luta do chamado espírito contra a chamada carne. A Igreja hierárquica sentiu-se ameaçada pelos representantes desta tendência visto que eles contrariavam a excelência das doutrinas e a riqueza vergonhosa das instituições religiosas de poder. Nesse sentido todas denúncias provindas não apenas através das palavras, mas dos atos que significavam uma recusa ao estado de injustiça estabelecida foram consideradas ameaças à são doutrina, desobediência aos representantes de Deus e finalmente grave desobediência a Deus. Foram até certo ponto considerados desvios ou quase mentiras em relação à fé pura pregada pelas instituições.

Comissão temática do MFPC – CE
Encontro nacional do MFPC de 2012

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