Ano novo, vida nova?

1Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo2
Vivemos um momento histórico em que tudo parece desabar, o que pode nos levar ao chamado “delírio de ruína”, como chamam os psiquiatras. No entanto, 2013 foi um ano didático e creio que as deficiências seculares de nossa formação estão vindo à tona. Assim, estamos evoluindo de costas, aprendendo com os horrores.

Dos porões do atraso já surgem luzes, em nossa ‘jornada de imbecis até o entendimento’. Isso. O título de uma peça de Plínio Marcos serve bem para descrever o caminho que trilhamos em 2013. Temos razões até para um desconfiado otimismo. Qual será a lista de nossas esperanças?

Por exemplo, finalmente a família Sarney está servindo para alguma coisa: o horror do Estado (que possuem há 50 anos) está vindo a furo, como um tumor. O povo do Maranhão está menos iludido em sua desgraça. A prisão dos mensaleiros já tinha alertado sobre o estado de nossas penitenciárias. O medo máximo dos ‘dirceus’ era cair perto da ‘boca do boi’, nas celas que matam milhares de desespero e de faca, estilete, decapitação.

Em seguida, estourou Pedrinhas, abrindo finalmente as cortinas de gente intocável, aliada com sua ‘cordialidade’ criminosa. Sarney sumiu e Dilma também, pois não pode perder o aliado para a reeleição. Mas, já sabemos mais sobre isso. Didático: Sarney pauta a Dilma. Será que ela vai ficar ofendida?

Aprendemos que detalhes explicam muito. Já sabemos que os cardápios de Roseana e Cid Gomes são parecidos. Cid gosta de escargot, caviar, salmão e outras iguarias, custando 3 milhões para o Ceará; Roseana já prefere grandes quantidades: 850 quilos de filé ‘mignon’, duas toneladas e meia de camarão, 200 quilos de salmão e 80 de lagostas. Dois menus que são uma aula de ciência política brasileira.

Já aprendemos que, além de ‘esquerda’ e ‘direita’, temos de pensar na qualidade da vida e do interesse público. Como dizia Marco Aurélio (não o Garcia nem o de Mello, claro, mas o imperador): “O que é bom para a abelha tem de ser bom para a colmeia”.

Muitos já entendem que o Estado não é a ‘solução’, mas é o ‘problema’. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.

Entrou em nosso entendimento (ao menos para os que sabem ler e não são o ‘estrume’ das oligarquias) que a corrupção não é um pecado moral, mas uma forma de governo. Já aprendemos que não há um contrato sem aditamento superfaturado, já sabemos que ladrões e bolcheviques se unem por um mesmo fim: pilhar o Estado, em nome de uma ideologia oportunista.

Alguns (ou muitos?) intelectuais com má consciência já devem ter entendido que substituir o possível pelo imaginário, o presente por um ‘futuro’, o singular pelo geral destroem a administração da vida real. Somos um país sob anestesia, mas sem cirurgia, como dizia Simonsen.

Hoje, temos de aceitar a impossibilidade de uma harmonia final. Não há solução -, mas, ‘processo’. Nunca teremos um país perfeito, resolvido, nunca chegaremos “lá”. Devemos abandonar uma política “central, geral, total”, como nos planos quinquenais da URSS ou nos “saltos para a frente” da China de Mao. Somente uma política econômica indutiva, imaginosa, descentrada e pragmática pode ir formando um tecido de parcialidades que acabem por mudar o conjunto.

Ao menos estamos mais no presente. A importância da internet, dos celulares, a interdependência com o vasto planeta nos livrou um pouco da alma de tupiniquim, de vira-latas paranoicos.

Já começamos também a entender a diferença entre causas e consequências. Miséria é consequência. A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabilizou até agora uma real ‘luta de classes’. Os excluídos já nasceram derrotados “desde Cabral”.

Como dizem as avós: “Há males que vêm para o bem” – a ditadura nos trouxe a “fome de democracia”; a piração oligárquica e corrupta de Collor nos trouxe uma “fome de República”, de modernização do País. O julgamento do STF e a dificuldade de sua realização durante oito anos nos mostrou a evidência de que o Judiciário tem de ser reformado urgentemente.

A falência fiscal do Estado nos deu uma espécie de “orfandade” diante do gigante quebrado, mas criou mais autonomia nos empreendedores.

Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é hoje.

Aprendemos que a tal “mão invisível do mercado” pode nos dar bananas, claro. No entanto, o conceito de “mercado” dinamiza a autorregulação da vida social e econômica do País, sim. Mercado é um termômetro, um sensor dos desejos sociais, mercado relativiza certezas burras e poderes autoritários. Talvez já tenhamos aprendido que a culpa de nosso atraso não é de imperialistas e canalhas de fora. Mudar o País tem de ser uma luta contra os canalhas de dentro. Não precisamos de invasores e inimigos, com esta multidão de saúvas que nos corroem.

Infelizmente, muita gente hoje ainda acredita que um governo de estatizações e tardio desenvolvimentismo, governo que ainda trabalha em cima de categorias velhas como ‘democracia burguesa’, ‘moralidade pequeno-burguesa’, ‘patrimônio nacional’ e o novo sujo “bolivarianismo” esteja no caminho certo. Não conseguem aceitar o óbvio: o Brasil estava preparado pelo Plano Real e o governo de FHC para decolar. Veio o Lula e jogou tudo para trás, aliado principal de Sarney e até do Severino, lembram? Ele levava macarrão como propina no restaurante do Congresso. A continuar assim (se a Dilma vencer), teremos uma brutal recessão em 2014/15, e o aparelhamento descarado do Estado talvez impeça um retorno à racionalidade perdida. Aí, 2014 será um “ano interessante”, como dizem os chineses: um ano de desgraças, erros crassos e teimosia burra.

E estará provada a maldição, a famosa praga chinesa: “Tomara que você viva em tempos interessantes”. Só nos resta desejar ano novo, vida nova.

Mas, que vida?

14 de janeiro de 2014 – Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo

1 comment to Ano novo, vida nova?

  • Ilson

    Esse irmão fala tudo isso, mas o que ele diz dos meios de comunicação dos quais ele pertence. Será que ele não poderia também fazer uma auto-crítica. Acho que não é imparcial olhar somente para fora e não falar da falta de democratização dos meios de comunicação que não abrem mão de sua hegemonia. É interessante dizer que até 1996, apenas seis (6) famílias controlavam oque o povo brasileiro via nos jornais, assistiam na TV ou lia nas revistas. Acho que um profissional sério precisa abordar este assunto, também, em seus comentários.

    Outra coisa: no Brasil, são os meios de comunicação quem escolhe os candidatos e partidos que eles vão dar destaque para entrevistas. Os candidatos que não lhes interessam ou são malhados durantes as entrevistas pelos jornalistas ou simplesmente não encontram espaços nos canais de TV de maior expressão no pais. Isso também é tema para esse nosso irmão abordar, mas ele se mantem de bico calado. Será por que?
    Sou o Ilson

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