Uma alternativa para a “cracolândia”

Cracolândia - pint
Em reviravolta humanitária, São Paulo lança projeto que oferece apoio e ocupação a usuários de drogas, em vez de reprimi-los. A direita vai pirar?

Por Bruno Torturra em seu facebook | Imagem: Enio Sergio / Museu do Inconsciente

Hoje representei a Rede Pense Livre em uma reunião na prefeitura. Era a apresentação do “Braços Abertos”, o novo programa da gestão Haddad para lidar com a cracolândia.

Na mesa, além do prefeito e secretários envolvidos no plano, estavam organizações e indivíduos que trabalham com o tema. Gente que admiro há tempos. Que vive em campo, ajudando de forma autônoma os frequentadores da cracolândia.

Só pelas premissas que orientaram os meses de preparação, o projeto já dividiu águas. Mas se bem executado – e bem compreendido – pode se tornar um farol para uma outra abordagem da questão no Brasil todo.

Por seis meses, uma ação coordenada de secretárias de saúde, direitos humanos, trabalho e segurança conversou, procurou e, mais importante, pactuou com os usuários que montaram barracas na região uma nova política.

  • Hoje, finalmente, esses moradores já estão, voluntariamente, desmontando seus tetos e se instalando em abrigos que a prefeitura ofereceu.
  • Famílias ficam com famílias.
  • Acolhimento e creche para os filhos dos residentes. Amigos e indivíduos com mais afinidade dividem quartos.
  • Há chuveiros e kits de higiene.
  • Há a oferta de algumas horas de trabalho por dia, remunerado, na limpeza pública.
  • Um posto para segunda via de documentos.
  • Assistência e tratamento para dependência não compulsórios.

É claro que isso não “resolve”, não dá conta. E vai gerar, sem dúvida, trocentos episódios não previstos, não desejados. Mas o primeiro efeito colateral é bem conhecido: uma reação furiosa de uma opinião pública – e de uma mídia especialmente alérgica a Haddad – que vai acusar o prefeito de ser mole, ou conivente, ou pior… de sustentar os “zumbis”, “crackudos”, “nóias”.

Que vai simplificar e jogar a questão na vala comum do moralismo e do cínico discurso de que essa gente, enfim, não é gente. A mesma turma que apoiou ou, pior, fingiu que não viu a ação de Geraldo Alckmin para lidar com o tema. Lembra? A barbárie da PM na operação “Dor e Sofrimento”…

Por isso, quero pedir, preventivamente, sensibilidade a todo mundo. E, quem concordar, que proteja com suas próprias palavras nas redes e nas conversas com amigos e família essa tentativa da prefeitura. Peço inteligência e responsabilidade aos colegas jornalistas, que não caiam na manchete fácil e boçal em torno dos tais 15 reais que serão ofertados a alguns usuários.

Uma ação como essa, uma tentativa de desfazer a cracolândia pela via do acordo com os usuários, e de uma visão mais humanista e compassiva, também é politicamente arriscada. Assume a redução de danos. Vai contra, inclusive, o tipo de abordagem que o governo federal costura para o plano nacional contra o crack.

Embrionário, no fundo, ainda é cedo para saber se o plano terá sucesso.

Ou melhor, o que é sucesso nesse caso?

O fim do uso de drogas em vias públicas? O fim do abuso e a recuperação de todos os dependentes? Uma cidade livre da droga? Não mesmo… esses, no fundo, são falsos desafios que respondem muito mais a uma cobrança moral do que ao verdadeiro problema: a difícil balança entre a miséria (econômica ou existencial) e a felicidade humana.

E me parece que é nessa questão que a prefeitura está buscado incidir. Tem todo meu apoio e torcida.

Amanhã farei meu rolezinho à cracolândia para acompanhar o processo e tentar conversar com gestores, assistentes e usuários. E mandar notícias depois.

Bruno TorturraBruno Torturra

 

 

Fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/uma-alternativa-para-a-cracolandia/

 

 

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