A Mulher na Igreja

Por Luís Guerreiro

A partir do Iluminismo, as sociedades civis foram reconhecendo à mulher direitos iguais, muito embora, na prática, ela continue sujeita a grandes discriminações. Na Igreja é o inverso: embora não goze de direitos iguais, a mulher acha-se inserida em todos os setores, tanto do ministério da Palavra como do serviço pastoral.

Em muitos países, há mulheres que são as responsáveis por toda a vida da comunidade cristã. Mesmo assim, continuam subalternas, por estarem impedidas de receber a ordenação. Os ministérios ordenados – episcopado, presbiterado e diaconato – só podem ser exercidos por homens, segundo o direito eclesiástico (cânon 1024).

Não obstante, em países do Leste europeu, durante os regimes comunistas, foram ordenados na clandestinidade não só homens casados como também mulheres. Hoje os homens poderão continuar a exercer o ministério; as mulheres, não.

No princípio era assim

No princípio, as mulheres incorporaram-se, sem mais, ao Movimento de Jesus. É o que constatam os Evangelhos das comunidades de Marcos, Mateus, Lucas e João. O Movimento suscitado por Jesus não se identificou com nenhum grupo da época. O Reino de Deus que vinha inaugurar era algo novo. E Ele afirmou-se mais como profeta, como homem inspirado, clarividente e exemplar, do que como organizador. Não excluiu ninguém. Reuniu um grupo de discípulos – homens e mulheres – no qual, quem quisesse ser o maior, tinha de se fazer servo dos outros: um grupo de iguais, com os mesmos direitos e os mesmos deveres. Dirigiu-Se aos homens como às mulheres. Elas, no entanto, não aparecem muito nos Evangelhos. Mulheres não contavam nas estatísticas do tempo, como se deduz literalmente do Evangelho de Mateus, quando da primeira multiplicação dos pães: estavam presentes «cinco mil, não incluindo as mulheres e as crianças» (14,21). Quando a mulher aparece nos Evangelhos é porque fez algo particularmente significativo.

Foi Isabel, mulher de um sacerdote da linhagem de Aarão, a primeira a proclamar o Cristo, sentindo-O profeticamente escondido no seio de Maria (Lc 1,42).

Foi uma mulher, Marta, cuja casa em Betânia se tornou o segundo lar de Jesus, quem fez uma confissão de fé comparável à de Pedro, o líder dos doze: «Creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que veio ao mundo» (Jo 11,27).

Foi Maria de Betânia quem reconheceu o «Cristo», o «Ungido», derramando sobre Ele o óleo, num gesto profético e simbólico (Mc 14,3-9; Mt 26,6-13; Jo 30,30), tal como fez Moisés, ungindo Aarão para o sacerdócio (Ex 30,30), Elias, ungindo Eliseu como profeta (lRs 19,16), Samuel, ungindo Davi para ser rei (IRs 16,12-13). Foi Maria de Nazaré, que os cristãos sempre reconheceram como a maior dos discípulos de Jesus, quem mudou todo o rumo da teologia cristã, ao transmitir as experiências que conservava e repassou em Seu coração (Lc 2,19.51). Foi também Ela que recebeu a missão de acolher a Igreja, a nova família de Jesus (Jo 19,26-27).

Foi uma mulher, marginalizada por ser cinco vezes divorciada, a samaritana, quem, por ser mulher e uma estrangeira desprezada, ouviu da boca de Jesus o que ninguém mais ouvira. Jesus nunca disse ao povo que era o Messias. Disse-o a esta mulher. «Quando o Messias vier – disse ela – Ele nos ensinará tudo». Resposta de Jesus, fazendo eco ao famoso nome de Javé: «Sou Eu, o que fala contigo» (Jo 4,25-26). E nem sequer lhe impôs segredo. Destarte, ela se tornou o primeiro apóstolo, a primeira pessoa a partir e a contar a boa nova de Jesus como Messias.

Na hora da traição e fuga dos discípulos, foram as mulheres que ficaram como testemunhas da Sua Paixão (Mt 27,55-56; Mc 15,40-41; Jo 19,25-27).

E foi Maria de Magdala, um nome sempre em destaque entre os discípulos de Jesus, a primeira testemunha da Páscoa, a «apóstola dos apóstolos», como foi chamada, a enviada por Cristo a espalhar a boa nova da Sua Ressurreição (Jo 20,17).

Desta presença feminina no Movimento de Jesus, podemos destacar um caso especialmente significativo, narrado por Lucas 10,38-42. É o de Marta e Maria, muito citado a propósito da vida ativa e contemplativa, numa interpretação anacrônica. Não é disso que se tratava, mas de outra coisa: de tarefas então específicas do homem e da mulher. Os rabinos ensinavam que era preferível queimar a Torá (Lei) a confiá-Ia aos cuidados de uma mulher. Jesus não faz caso, ensina mulheres. É o que nos diz o texto. Maria está sentada aos pés de Jesus, a ouvir a Sua palavra, na atitude típica do discípulo. Marta indigna-se por ver a irmã a assumir o lugar próprio do homem, sem se importar das tarefas próprias da mulher. Jesus louva Maria. No Reino que vem estabelecer, não há tarefas próprias do homem ou da mulher. É feliz quem for capaz de romper as barreiras culturais para buscar o que deveras é importante.

Entre os seguidores de Jesus, tanto havia homens como mulheres (Mc 15,41; Mt 27,55; Lc 8,1-3 e 23,55; Jo 19,25-28). Isto representava uma ruptura em relação aos padrões sociais e culturais do Seu tempo. Resulta, por isso estranho, e até contraditório, que não haja incluído nenhuma das Suas seguidoras entre os doze, número que, para além do seu significado simbólico (as doze tribos de Israel, expressão da comunidade escatológica do Povo de Deus), parece expressar também um valor matemático. Isso torna-se claro na eleição de Matias (At 1,15-26).

Os doze eram testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse. Eram, por isso, a autoridade capaz de conduzir, sustentar e dar continuidade ao Movimento por Ele suscitado. Todavia, ao agregar-lhes outros como apóstolos – Paulo, por exemplo – as primeiras comunidades cristãs pensavam, ao parecer, mais no seu significado simbólico do que na sua realidade numérica.

A Igreja do tempo dos Apóstolos

É o tempo em que a Igreja começa a organizar-se em «Igrejas domésticas», tendo por modelo as associações livres do mundo greco-romano, com seus patronos, homens e mulheres a dirigi-Ias (1Cor 16,15-18 e.l,l1; Rom 16,1-15). Reuniam-se nas casas para a pregação da Palavra, para o culto e para a partilha da mesa social e eucarística. Continuando o Movimento de Jesus, esta Igreja era ainda uma Igreja de iguais, predominantemente profética e carismática. É a época que os Evangelhos refletem. O único que tem poder na comunidade é o Espírito vivificador. Todos os crentes são apenas irmãos (Mt 23,8). Segundo os Atos, realiza-se na comunidade dos crentes a profecia de Joel: «Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne. Vossos filhos e vossas filhas hão de profetizar» (Act 2,17-21). Tanto as Cartas como os Atos dizem que as mulheres presidiam nas comunidades cristãs (At 16,13-15 e 18,26; CoI 4,15; l Cor 16,19); que houve mulheres apóstolas (Rom 16,7) e diaconisas (Rom 16,1-2); que algumas foram colaboradoras de Paulo na pregação (Rom 16,3.6.12; At 16,1 e 18,26).

O que Paulo afirma em GaI 3,28, traduz bem a experiência da comunidade primitiva. Fazia parte do.credo batismal: «Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus». Esta fórmula invalida todos os privilégios decorrentes de religião, raça, nacionalidade, classe ou sexo. Igualando todos os batizados, homens e mulheres, incorporados a Cristo por um único e mesmo baptismo, ela apresenta uma realidade nova: a eliminação de todas as diferenças socialmente impostas. Na Antiga Aliança não era assim: só os homens traziam o sinal da pertença ao Povo de Deus, a circuncisão (1Cor 12,13; CoI 3,ll).

A diversificação dos ministérios nas diferentes Igrejas (de Jerusalém, comunidades paulinas, etc.) era muito grande. Há os «doze», os «apóstolos», os «profetas», os «doutores» (At 13,1-4; l Cor 12-28), os «pastores» e «evangelistas» (Ef 4,11-12), os «sete» (At 6,3-6), aqueles a quem Paulo chamava «colaboradores» (Rom 16,13; Tes 3,2; Cor 8,23) e os responsáveis pelas comunidades locais (1Tes 1,1; l Cor 1,1; 2 Cor 1,1; Fil l,l; l Cor 16,19-20; Rom 16,3; Fil 4,21). Os ministérios mais importantes eram, na época, os dos «apóstolos», «profetas» e «doutores» (1Cor 12,28 e 14,6).

A terceira geração de cristãos

É a época pós-apostólica, de que testemunham as Cartas não pertencentes a Paulo mas a ele atribuídas, os Atos dosApóstolos e oApocalipse. O cristianismo passa da fase inicial de movimento a instituição.Um salto na evolução normal, mas que trouxe consigo, inevitavelmente, notáveis perdas. Ao institucionalizar-se, o Movimento suscitado por Jesus perdeu muito da sua força e do seu espírito carismático. As «Igrejas domésticas» são agora «Casa de Deus», onde o «episkopos/presbítero» é o «paterfamilias» (l Tim 3,2.15; Tit 1,7 s.), uma estrutura de poder, mais que de serviço. Tal como ocorreria depois, noutros momentos históricos, o cristianismo foi buscar à sociedade patriarcal de então os modelos da sua organização.

É nessa época que a mulher começa a ser posta à margem. Há textos que a consideram inferior ao homem e que hão de ser depois aproveitados para o seu progressivo afastamento. O mais duro é, sem dúvida, o da 1.Carta aTimóteo, 2, 11-15: «Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com inteira submissão. Não permito que a mulher ensine ou tenha domínio sobre o homem, mas deve permanecer calada. Pois Adão foi criado primeiro e Eva depois. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em pecado. Poderá contudo salvar-se pela procriação de filhos, se perseverar na fé, no amor e na santidade, com modéstia»

As primeiras normas canônicas

A abundância de ministérios dos primeiros séculos começou a diminuir no fim do século II. No século III, surge o primeiro documento normativo, a «Didaskalia», onde só aparecem como ministros ordenados: o Bispo, administrador da Palavra e mediador, que deve ser honrado como Deus; o Diácono, protótipo de Cristo; a Diaconisa, que há de ser honrada como protótipo do Espírito Santo; o Presbítero, protótipo dos Apóstolos. Há também ministérios não ordenados: o das viúvas e dos órfãos que deviam ser honrados como protótipos do altar.

Como vemos, a mulher recebia ainda um ministério ordenado que, pela honra a ser-lhe tributada, parece mais importante que o dos presbíteros.

No século IV, graças ao édito de Constantino, no ano de 314, o cristianismo pôde expandir-se com liberdade. Em 380, o imperador Teodoro reconheceu-o como religião oficial do Império. Apareceu então o primeiro direito canônico, as «Constituições Apostólicas», que estabeleciam normas para toda a Igreja. Aí-se dizia explicitamente que a mulher não está destinada ao ministério sagrado, nomeadamente ao ministério episcopal e presbiteral. Razão: o varão é a cabeça da mulher; impor as mãos às mulheres é um erro da impiedade dos gregos; não é disposição de Cristo. Uma argumentação que se manteria até aos nossos dias. Proíbe-se à mulher ensinar, porque ela não sabe e a catequese se desprestigiaria, se feita por mulheres; sendo o varão cabeça da mulher, não convém que o corpo comande a cabeça, contra a ordem natural; Jesus prescindiu delas, não as enviando a ensinar, embora com Ele estivessem Sua mãe e outras mulheres. Proíbe-se igualmente à mulher batizar, por ser ilegítimo e perigoso, tanto para o batizando como para o batizante; porque o varão é a cabeça da mulher; porque Jesus foi batizado, não por Sua mãe, mas por João; porque, se a mulher não pode ensinar, muito menos batizar.

Nas origens da Tradição

É também então, no século IV, que grandes pensadores do mundo greco-romano aderem ao cristianismo. São os chamados Padres da Igreja. Ao se converterem, trazem consigo os mitos da própria cultura, de que não abdicarão totalmente ao interpretar as Escrituras. O pior é que, ao longo da história da Igreja, eles serão tidos como referência indispensável da Tradição. É neles que se buscará a ortodoxia, mais que nas Sagradas Escrituras. A Bíblia será lida através dos comentários dos Padres da Igreja.

Para eles, a mulher é a filha de Eva que introduziu o pecado no mundo (mito de Pandora) e que atrai os homens à perdição (mito de Ulisses). Não a veem como imagem de Deus, tal como veem o homem. Ela é um ser inferior.

Quanto à presença da mulher nos ministérios, diz, por exemplo, S. João Crisóstomo: «Quando se trata da presidência da Igreja e do cuidado de tantas almas, que se aparte o sexo feminino da magnitude desta empresa». E Santo Agostinho não duvida da sua inferioridade: «É da ordem natural entre os humanos que as mulheres estejam submetidas aos homens e os filhos aos pais, porque é questão de justiça que a razão mais fraca se submeta à mais forte. A mulher é destinada a viver submissa ao homem e não tem de seu chefe nenhuma autoridade».
Não obstante, em meados do século V, no ano de 451, o Concílio Ecumênico de Ca1cedônia ainda .aceitava a ordenação de mulheres como diaconisas, sob certas condições: não deviam ser ordenadas antes dos 40 anos e se, recebida a imposição das mãos, se entregassem em matrimônio, ultrajando a graça de Deus, seriam anatematizadas juntamente com o cônjuge (Decreto 94).

Na Idade Média

A referência ao diaconato de mulheres vai-se fazendo cada vez mais rara. E, no século XII, as diaconisas tinham desaparecido como instituição, tanto no Ocidente como no Oriente.

Nesta época, século XII, inicia-se, com os escolásticos, uma nova etapa na Igreja. Aprofunda-se o conceito desigual e inferior da mulher.Ela não é perfeito membro da Igreja, só o varão.
Vejamo-lo na lógica do pensamento de então. A imagem de Deus está no varão como criação única, origem dos demais seres humanos; ele recebeu de Deus o poder de governar, como Seu substituto, porque é imagem de um Deus único. Por esta razão, a mulher não foi feita à imagem de Deus (Decreto de Graciano). A mulher necessita do varão, não apenas para engendrar, como o fazem os animais, mas também para governar, porquanto o homem é mais perfeito, por sua razão, e mais forte, por sua virtude.

A mulher é um homem falhado. Não é a mãe que faz nascer o que se chama seu filho; ela não é senão alimentadora do gérmen lançado no seu seio. Quem faz nascer é o pai (SantoTomás deAquino). Amulher não pode ensinar nem dominar o varão, não pode ser potestade espiritual. As ordens orientam-se ao episcopado. O bispo é esposo da Igreja. A mulher não pode ser esposo (S. Boaventura). Próprio do sacerdote é ensinar. A mulher não pode fazê-Io, tanto por sua debilidade intelectual, como por suas mudanças de afeto. A mãe de Cristo era digníssima e não foi ordenada. A Ordem é grau eminente na Igreja e não pode ser desempenhada pela mulher, que está em estado de sujeição (Duns Scoto). A mulher não pode ordenar-se. A razão é que a Ordem é própria dos membros perfeitos da Igreja, já que se dá para conferir a graça a outros. Porém, a mulher não é perfeito membro da Igreja, mas o varão (Guido de Baysio ).

Eclipse da mulher na Igreja

Com o Concílío de Trento, século XVI, a mulher e as suas funções na Igreja desapareceram por completo. Não há normas, não há proibições a seu respeito. Progressivamente rebaixada da posição a que Jesus a elevou, a mulher caiu, por fim, no anonimato.

Foi João XXIII que a tirou desta situação; ao escrever na Pacem in Terris: «Uma consideração se impõe a todo o observador… o ingresso da mulher na vida pública, mais acentuado talvez em povos de civilização cristã, mais tardio, mas em.escala considerável, em povos de outras tradições e culturas. Torna-se a mulher cada vez mais cônscia da própria dignidade humana, não sofre mais o ser tratada como um objecto ou instrumento, reivindica direitos e deveres consentâneos com a sua dignidade de pessoa, tanto na vida familiar, como na vida social… Portanto, em nosso tempo, estão superadas seculares opiniões que admitem classes inferiores de homens e classes superiores, derivadas da situação económico-social, sexo ou posição política» (n. 41 e 43).

É por aí que caminha também o Concílio Vaticano II:«Qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa deve ser superada e eliminada, porque contrária ao plano de Deus» (GS 29).
A Igreja reconheceu-o afinal, mas muito depois da sociedade civil. Todavia, a mulher continua discriminada na Igreja e parece dificil inverter o processo que a rebaixou, aparentemente contrário à vontade de Jesus. Vimo-Io na agitada polêmica travada em torno da ordenação sacerdotal de mulheres, a que o Papa João Paulo II quis pôr ponto final com a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis de 22 de Maio de 1994. Nega-se à mulher a possibilidade de acesso ao sacerdócio.

Coisas que hoje parecem claras

Parece claro que a comunidade do Novo Testamento era a comunidade do amor serviçal. Toda a comunidade dos crentes era ministerial: todos ao serviço de todos, usando cada qual os carismas ou dons que recebera.

Foi no seio desta comunidade, toda ela carismática, toda ela servidora ou ministerial, que se destacaram algumas pessoas, especialmente dotadas, para realizar determinadas tarefas ou funções que, em si, pertenciam a toda a comunidade. Foi assim que surgiram os ministérios, fossem eles ordenados ou não, ocasionais ou duradouros, instituídos ou não instituídos. O principal era sempre a comunidade, não o ministério. O mistério existia, pura e exclusivamente, em função do serviço à comunidade. Só.muito mais tarde é que o ministério seria entendido mais como poder sagrado, pessoal, do que como serviço comunitário.

A Igreja continuava assim nas pegadas de Jesus que «tampouco veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos… pela humanidade» (Mc 10,45; Mt 20,28).

Parece também claro terem existido, desde as origens, ministérios vinculados a tarefas ou funções de direção e governo das comunidades cristãs.

Os ministérios são dons ou carismas concedidos por Deus para a edificação da Igreja. É absolutamente necessário que eles existam; são essenciais à estrutura esclesial. Mas não o são as múltiplas formas que assumiram no decorrer dos séculos. Isso pertence à organização da Igreja, histórica, mutável como tudo o que é humano. Nas primeiras comunidades, os ministérios eram abundantes e diversos, conforme as necessidades estruturais ou conjunturais do momento. O que se observa é uma grande criatividade, guiada pela acção do Espírito Santo e estimulada por necessidades novas. Os «doze» são, ao mesmo tempo, paradigma e ponto de partida para a estrutura ministerial da Igreja.

O ministério essencial do Novo Testamento é o da transmissão da Palavra, do anúncio do Evangelho vivo. A Palavra anunciada congrega os que a recebem numa comunidade de salvação. E isto desemboca, naturalmente, no ministério do «presidente», «guia», «vigilante» ou «pastor» da comunidade. É um ministério necessário para a animação e coordenação da comunidade em vista da sua unidade.

Com o andar do tempo, os ministérios, que pertenciam à comunidade, foram-se separando e distanciando dela. Aquele a quem se impunham as mãos para o ministério passou a dizer-se «ordenado», e a imposição das mãos, «ordenação». Daí, Ordem, referência à ordenação social do império romano: o «ordenado» situava-se acima da comunidade, assemelhando-se aos notáveis da sociedade. Com a sua sacerdotalização e sacralização, conceitos estranhos
aos ministérios das primeiras comunidades cristãs, os ministros ordenados passaram a se autocompreenderem como uma realidade em si, um «status», uma «dignidade», uma «honra», uma «potestade».

Diz-se que a apostolocidade ou identificação fundamental com a Igreja dos Apóstolos é essencial, pertence à estrutura da Igreja. Compreende, antes de mais, a transmissão ininterrupta do conteúdo dos Evangelhos e o seguimento de Jesus; em segundo lugar, a sucessão ininterrupta à frente das comunidades eclesiais a partir dos Apóstolos. Esta sucessão deu-se sempre. Mas, nos dois primeiros séculos, não se pode afirmar que fosse intermediada por bispos. O episcopado é uma forma histórica de sucessão apostólica desde o século III. Não seria, portanto, essencial à Igreja; pertence à sua organização.

O episcopado, o presbiterado e o diaconato não são mais que concretizações históricas do ministério da Igreja. Não se pode dizer que foram instituídos por Cristo. Tal como existem hoje, começaram a aparecer na segunda metade do século II. Podiam, podem, portanto, mudar, se as circunstâncias o pedirem.

Com o andar do tempo, o presbítero «sacerdotalizou-se», «clericalizou-se», vinculando-se prioritariamente à ação cultual e tornando-se «pessoa sagrada», separado do resto dos crentes e do mundo. Sobretudo depois do Concílio deTrento, o seu ministério ficou adstrito ao «sacerdotal», ao poder de santificar, perdoar, consagrar, interceder, sacrificar. É a concepção que o Novo Testamento evitou. Jamais usa a terminologia sacerdotal, ao falar dos ministros da Nova Aliança. A intenção parece bem clara: era a de acentuar a sua novidade em confronto com os sacerdotes judaicos e pagãos.
A Eucaristia primitiva baseava-se no modelo de oração dos judeus à mesa, onde a presidência não era deixada a qualquer.Temos de presumir que eram também os presidentes da comunidade que presidiam à Eucaristia.

A mulher e os ministérios

Com a sua inserção no mundo de então, o cristianismo primitivo depressa assimilou formas de pensamento e de organização das sociedades onde encarnava, todas elas de cunho patriarcal, onde a mulher era tida como inferior e relegada a um lugar secundário. Foi assim que ela foi perdendo o espaço que inicialmente ocupou na Igreja, até ao ponto de se apagar.

A organização patriarcal da Igreja, fundamentada em razões teológicas, foi considerada como a mais consentânea com os desígnios de Deus. Nela, o domínio estava reservado ao homem, imagem perfeita de Deus, o único capaz de representar cabalmente a Cristo, por possuir a plenitude da humanidade. Embora igual ao homem no plano da salvação, a mulher era-lhe inferior na natureza: era um ser falhado, defeituoso.

Quando o modelo da sociedade arcaica e feudal desmoronou para ceder lugar às sociedades democráticas e participativas, a Igreja perdeu as referências e foi incapaz de assimilar este novo modelo, como assimilou e justificou o primeiro. Mais: opôs resistência. A proclamação do dogma da infalibilidade, em 1870, é prova disso: é tentativa de consagrar como definitivo o passado. Não podendo já arguir que as suas instituições derivam da «ordem natural», como defenderam os escolásticos do século XIII, a Igreja sacramentalizou o seu sistema social patriarcal e monárquico arcaico, apresentando-o como expressão especial do ordenamento divino.

Este modelo de Igreja autocentrado e dogmático está muito longe do ideal de Jesus que quis uma comunidade de iguais, serviçal, portanto participativa. Os ideais democráticos do mundo atual estão muito mais perto do Evangelho que os das monarquias ou dos regimes autoritários. O que a mulher hoje reivindica na Igreja – uma participação e responsabilidade em nível igual, tanto nos ministérios ordenados como nos não ordenados – fazendo-o, não raro, com surpreendente competência e seriedade teológica, fez parte da experiência das primeiras comunidades cristãs, aquelas que melhor souberam interpretar e viver o ideal de Jesus. É sob essa ótica que convém ver a sua reivindicação do próprio sacerdócio ordenado. Mas este, como concretização histórica do ministério ou serviço, afastou-se tanto das suas origens que não há-de ser reivindicado sem mais. O que importa é voltar a uma Igreja toda ela de iguais, toda ela comunidade de serviços, toda ela ministerial, como era no princípio, para daí surgirem novos ministérios, ordenados ou não, ajustados à realidade do mundo de hoje, que não é o do império romano, nem da Idade Média, nem dos monarcas absolutos, mas o dos ideais de co-responsabilidade e participação.

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