Celibato Sacerdotal Obrigatório: no ínicio não foi assim

 

(Do livro “O direito de amar”, de Benjamim Bossa)

“A Igreja,  na sua caminhada, foi aos poucos introduzindo o celibato.  No início não foi assim.  Cristo no Evangelho não se preocupou com este assunto. Ao contrário, participa da vida de família e refere-se à família e ao casamento muito frequentemente e às vezes com solenidade.

Em primeiro lugar, Cristo exalta e defende a dignidade do casamento.  Isto sim.  E a mesma passagem de Mt é reportada por Mc 10,1-12.  E estas passagens refletem Gênesis:  “Deus os abençoou e lhes disse:  Sede fecundos, multiplicai-vos…”(1,28a)  e “Deus disse:  Não é bom que o homem esteja só… modelou uma mulher e a trouxe ao homem…  Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, e  se une a sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (2,18-24).    Esta é a primeira bênção que Deus deu aos homens.”

 

O seu primeiro milagre foi realizado numa festa de casamento em favor dos esposos, Jo 2, 1-11.  E, apenas para citar alguns exemplos:  refere-se às dez virgens que esperam pelo esposo, Mt 25,1-13;  o banquete nupcial, Mt 22,1-14      e Ele mesmo é o esposo,  Mc 2,18-22;   Apocalipse 19,7-9;   não tem preconceitos contra as mulheres:  Maria e Marta,  Lc 10,38-42;  a pecadora perdoada na casa de Simeão, Lc 7,36-50;  a adúltera, Jo 8,1-11.

Observe-se que as mulheres acompanhavam e serviam a Jesus e aos Apóstolos. “Acompanhavam-no … algumas mulheres que tinham sido curadas… e outras muitas que os serviam com seus bens”  Lc 8,1-3. Depois de ressuscitado, aparece por primeiro às mulheres  Lc 3,49;   Mc 15,40-41.

Defende de maneira solene e categórica a dignidade do casamento, como veremos a seguir.

E quanto ao celibato? – Praticamente nada.  A única passagem que nos leva a pensar nisto é Mt 19,3-12: “Alguns fariseus se aproximaram dele, querendo pô-lo à prova.   E perguntaram;  `é lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?`

Ele respondeu;

`Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher e que disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne?  De modo que já não são dois, mas uma só carne.  Portanto, que o homem não separe o que Deus uniu!  Eles, porém, objetaram;  Por que, então, ordenou Moisés que se desse carta de divórcio e depois se repudiasse?

Ele disse;

“Moisés,  por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar as vossas mulheres,  mas desde o princípio não era assim.  Eu vos digo que todo aquele que repudiar a sua mulher – exceto por motivo de fornicação – e desposar uma outra, comete adultério. Os discípulos disseram-lhe;  “Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se.

Ele acrescentou;

“Nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem é concedido.  Com efeito, há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens.  E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda”.

Analisando o Texto:

1. Em primeiro lugar, Cristo exalta e defende a dignidade do casamento.  Isto sim.  E a mesma passagem de Mt é reportada por Mc 10,1-12.  E estas passagens refletem Gênesis:  “Deus os abençoou e lhes disse:  Sede fecundos, multiplicai-vos…”(1,28a)  e “Deus disse:  Não é bom que o homem esteja só… modelou uma mulher e a trouxe ao homem…  Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, e  se une a sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (2,18-24).    Esta é a primeira bênção que Deus deu aos homens.

2. No versículo 10 aparece um desabafo, uma decepção dos discípulos: “Se é assim a condição do homem com a mulher, é preferível não casar”.       Lendo com atenção o texto que precede, vemos que os discípulos não tinham nenhum ideal celibatário ao proferirem este desabafo;  antes, representa uma desilusão de sua mentalidade liberal em face às restrições que Jesus fez a essa mentalidade.    Os discípulos não pensavam em celibato.  No entanto, a expressão de Jesus: “Eunucos por amor do reino dos céus” nos leva a pensar nisto.

3. Esta, porém, é a ÚNICA passagem que existe a respeito.

4. Mateus é o ÚNICO evangelista a reportá-la.  Os demais evangelistas ignoram totalmente o assunto.

5. É um referência que acontece, assim, muito de PASSAGEM, provocada pelo desabafo dos discípulos. E por isso aparece como um assunto totalmente periférico.  Cristo não se preocupava com isto. Aliás, nota-se o clima de total liberdade que deixa:  “Quem puder entender que entenda”.

6. Esta passagem, porém, tornou-se objeto de interpretações sanfonadas (puxadas, espichadas) ao sabor de ideologias estranhas ao evangelho, e ainda o continua sendo pelos defensores protetores do celibato;  forçando, inclusive, uma relação com outras passagens evangélicas.

7. Se o celibato fosse essencial para a vida cristã ou para o ministério sacerdotal, teria sido um ponto crucial para a vida dos Apóstolos, quase todos casados, especialmente se se leva em conta a mentalidade dos Judeus na época.   Se assim fosse, Cristo teria cultivado o assunto com carinho.  Ter-se-ia referido a ele repetidamente.  No entanto, nada disso acontece.  Muito pelo contrário: Pedro, que foi o primeiro papa estabelecido por Cristo, era casado;  tinha sogra.

Ao passo que, em relação a outros temas, Cristo referiu-se com insistência impressionante, como por exemplo a Eucaristia (Jo 6),  a justiça, o amor, a oração, a verdade, o próprio matrimônio; desencadeou muito sua ira sobre a hipocrisia, falsidade, duplicidade (Mt 23).

8. Se quisermos aplicar o texto ao celibato, como de fato Cristo parece referir-se, podemos concluir o seguinte: o celibatário, nas condições “sine qua non” ao sacerdócio, É FEITO TAL PELOS HOMENS. Quando o celibato for opcional e livre, isto é, se a pessoa quer e até quando quer, então o celibatário SE FEZ TAL A SI MESMO

9. Diante de tudo isto nos perguntamos: Como é que chegou a se desenvolver na Igreja uma mentalidade hostil ao sexo, à mulher e ao casamento, e, em contraposição, uma exaltação e institucionalização da continência?

Cristo não exigiu isto dos seus.  E os apóstolos empregavam suas energias em anunciar o evangelho (não o celibato);  formavam comunidades de fiéis e estabeleciam para elas presbíteros e bispos, homens da própria comunidade, pais de família de boa reputação.  E São Paulo recomendava que o bispo fosse homem de uma só mulher e tivesse conduta digna.  Vejamos as próprias palavras do apóstolo.

Na sua  1 Tim3,2-5 diz: “É preciso, porém, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma única mulher, sóbrio, cheio de bom senso, simples no vestir, hospitaleiro, competente no ensino, nem dado ao vinho, nem briguento, mas indulgente, pacífico, desinteresseiro.  Que ele saiba governar bem a sua própria casa, mantendo os seus filhos na submissão, com toda dignidade.

Pois se alguém não sabe governar bem a sua própria casa,  como cuidará da Igreja de Deus? “E na sua carta a Tito (1,5-9): “Eu te deixei em Creta para cuidares da organização e ao mesmo tempo para que constituas presbíteros em cada cidade, cada qual   devendo ser, como te prescrevi, homem irrepreensível, esposo de uma única mulher,cujos filhos tenham fé e não possam ser acusados de dissolução nem de insubordinação.

Porque é preciso que,sendo ecônomo das coisas de Deus,o bispo seja irrepreensível, não presunçoso, nem irascível, nem beberrão ou violento, nem ávido de lucro desonesto, mas seja hospitaleiro, bondoso, ponderado, justo, piedoso, disciplinado, de tal modo fiel na exposição da palavra que seja capaz de ensinar a sã doutrina como também de refutar os que a contradizem”.

Isto era pacífico. E durante muitos anos a Igreja de Deus caminhou assim,  sem deixar de ser Igreja de Deus.

E, no entanto, o celibato foi imposto e institucionalizado no Séc. 12, no II Concílio de Latrão (1139) sob o Papa Alexandre II (“o ministério eclesiástico é acessível somente àqueles que aceitam voluntariamente (!) o celibato `por amor do Reino de Deus`).

3 comments to Celibato Sacerdotal Obrigatório: no ínicio não foi assim

  • Rogério Mendes

    No começo dos anos 70, estive no apartamento do padre Benjamim Bossa, na Rua Osvaldo Cochrane, em Santos, e comprei dele o livro “O direito de amar”, que ele autografou. Li, gostei e tenho até hoje. Estava estudando Comunicação Social, na Universidade Católica naquela época. Nunca mais o ví. Apreciaria saber se ele ainda é vivo e se posso entrar em contato com ele, pois o admiro muito.

  • Jennei

    Quando padre Benjamin Bossa era muito respeitado e amado por toda comunidade de Vicente de Carvalho, eu era criança e sempre o admirei, depois de adulta assisti uma palestra sua sobre parapsicologia, fiquei encantada. Gostaria de ter notícias se é vivo e onde o encontrar.

  • Michael

    Jennei, o padre Benjamin Bossa é vivo sim e reside em São Bernardo do Campo.

    Abs

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