Corrupção na Igreja

Um amigo, meu conterrâneo lá da Bahia, leitor assíduo dos meus artigos, enviou-me dias atrás uma mensagem sugerindo-me que escrevesse algo sobre a corrupção na Igreja. Na opinião dele, os cristãos, especialmente os católicos romanos, falam com facilidade da corrupção na política e na sociedade, mas sentem dificuldade de falar e de denunciar a corrupção no interior da Igreja. Aceitei o desafio e resolvi escrever este texto falando do assunto.

Para começar é indispensável entender bem o que é a Igreja. Infelizmente ainda existe a tendência de identificar a Igreja com a hierarquia, como se ela pudesse ser reduzida aos eclesiásticos, ou seja, aos ministros ordenados.

Mas na perspectiva bíblica, resgatada pelo Concílio Vaticano II, a Igreja é muito mais do que isso. Ela é a comunidade do Povo de Deus, a assembleia daqueles e daquelas que foram convocados e reunidos pelo Pai, mediante o Filho e na unidade do Espírito Santo (LG, 2-4). Assim sendo, todas as pessoas batizadas formam a Igreja e dela fazem parte. Todos os homens e todas as mulheres do mundo são vocacionados a participar da Igreja (LG, 13).

Considerando esse aspecto podemos dizer, sem medo de errar, que a maioria absoluta daqueles e daquelas que fazem parte da Igreja, ou são a ela destinados, é composta de pessoas honestas e sérias que procuram viver a sua vocação com simplicidade e pureza. São homens e mulheres, casados ou solteiros, ministros ordenados ou não, lideranças cristãs, pessoas cristãs que diariamente dão testemunho de transparência e de ética. Neste sentido, importa destacar que a maioria absoluta do povo cristão vive com muita seriedade a sua fé e não se deixa corromper.

Porém, essa constatação não exclui a necessidade de admitirmos que existam casos de corrupção na Igreja que terminam por obstaculizar a sua missão, que é a evangelização ou anúncio da Boa Notícia de Jesus. Os recentes escândalos de pedofilia dos padres, as operações financeiras ilícitas que envolveram o Banco do Vaticano, a evidente disputa de poder em algumas instâncias eclesiásticas não nos permitem “tapar o sol com a peneira”.

Os papas Bento XVI e Francisco têm admitido publicamente a existência da corrupção no interior da
Igreja
, falando inclusive de verdadeiro lobby de alguns grupos específicos e tomando algumas providências sérias. Ao que tudo indica a corrupção maior dentro da Igreja é praticada por eclesiásticos que estão à frente da Igreja, no seu comando. Tal fato torna a situação ainda mais grave. Geralmente os atos de corrupção têm a ver com a questão do poder, do dinheiro e do sexo.

Cabe lembrar que a corrupção na Igreja existe desde os seus primórdios. Os evangelistas não tiveram receio de registrar alguns episódios de corrupção no grupo de Jesus. Os evangelhos sinóticos lembram o episódio dos irmãos Zebedeu que pretendiam ocupar os primeiros lugares no grupo dos apóstolos e chegaram até a envolver a mãe na tentativa de corromper Jesus (Mt 20,20-28).

Também os sinóticos registram o caso de Pedro que tenta corromper o Mestre para que ele desista de enfrentar o poder religioso e tente fazer um pacto que não levasse à cruz e à morte (Mc 8,31-33). O próprio Pedro, logo no início da missão de Jesus, tenta corrompê-lo, instigando-o a aproveitar-se bem de sua popularidade para fazer muito sucesso, ganhar fama e, lógico, muito dinheiro (Mc 1,36-39).

Como fazem hoje certos padres cantores e curandeiros. O evangelista João deixou registrado o fato de que o “tesoureiro” do grupo de Jesus desviava o dinheiro destinado aos pobres (Jo 12,1-11), “enfiando-o na cueca”. E os evangelistas registram que este mesmo tesoureiro deixou-se subornar pelo Sinédrio e recebeu dinheiro para trair Jesus.

Nas primeiras comunidades cristãs também aconteceram casos de corrupção. Conhecemos o famoso episódio de Ananias e Safira que tentaram enganar os apóstolos (At 5,1-12). Na Samaria Simão oferece dinheiro aos apóstolos, tentando obter com isso certos poderes (At 8,18-24). Foi desse episódio que nasceu o termo “simonia”, usado depois para indicar a compra de cargos e títulos por parte de eclesiásticos.

Paulo denuncia com veemência o comportamento de lideranças religiosas que pregam “outro evangelho” para “agradar aos homens” (Gl 1,6-10). Também Paulo grita contra aqueles que se apresentam “junto aos irmãos” como “inimigos da cruz de Cristo”, tendo como “seu deus, o ventre” (Fl 3,17-21). Deixa assim transparecer certa disputa interna pelo poder. Na mesma direção segue o autor da terceira carta de João que fala de certo Diótrefes, “que pretende mandar em tudo” (v. 9).

Porém, foi na Idade Média que a corrupção na Igreja conheceu o seu auge. Historiadores sérios registram episódios escabrosos como o caso de papas totalmente corruptos, amantes do dinheiro, que viviam em concubinato, tinham filhos e nomeavam seus filhos e parentes adolescentes como cardeais. João, filho de Lourenço de Médici, neto do papa Inocêncio VIII, foi feito cardeal aos treze anos de idade. Depois se tornou papa com o nome de Leão X.

Bispos que compravam dioceses e recebiam depois somas enormes de dinheiro destas dioceses e nunca se apresentavam para pastorear o povo. Igrejas e mosteiros que se tornaram verdadeiros feudos, com muito luxo, ostentação e riqueza, enquanto as pessoas que trabalhavam em suas terras viviam na miséria. Ordens religiosas que transformaram o voto de pobreza numa verdadeira piada, uma vez que viviam nadando na riqueza.

Frei Hugo Fragoso, franciscano, meu professor de história da Igreja no Brasil nos apresentou certa vez um estudo sobre as riquezas do convento São Francisco em Salvador no período da colonização. Nesta riqueza estavam incluídos dezenas de escravos. O próprio São Francisco morreu desgostoso ao ver que seus frades tomavam um caminho bem diferente daquele sonhado por ele.

O jesuíta Giacomo Martina, meu professor de história da Igreja na Universidade Gregoriana de Roma, deixou escrito no primeiro volume de seu livro (História da Igreja de Lutero a nossos dias, Loyola, 2008, 3ª edição) que, na época da Reforma, a Cúria Romana “vivia num faustoso luxo”. Segundo Martina, “cada cardeal tinha sua suntuosa corte, com palácios e casas de campo dentro e fora de Roma. Esse nível de vida exigia muitas despesas, às quais se fazia frente por meios variados” (p. 89).
Em seguida ele menciona os meios: acúmulo de benefícios, venda de cargos, aumento de impostos do Estado Pontifício, nepotismo, concessões de indulgências com fins lucrativos, vendas de bulas, falsificação de documentos etc. “Na cúria, acrescenta Martina, se respirava um ar totalmente mundano, entre festas, bailes e banquetes que, às vezes, se transformavam em verdadeiras orgias” (p. 94).

A coisa era tão grave, diz Martina, que em Roma corria a seguinte anedota: “O Senhor não quer a morte do pecador, mas que viva e pague”. Embora de forma muito mais mitigada, sabe-se que certos ambientes atuais da Cúria Romana, não estão muito longe desse “ar poluído”. Existem documentos e depoimentos mostrando isso.

Embora, após o Concílio de Trento, essas situações fossem sendo corrigidas, a corrupção não foi totalmente eliminada da Igreja. Atravessou os séculos e chegou até nós. Hoje ela está mais disfarçada e só em algumas ocasiões estoura em forma de escândalos. Foi o que aconteceu recentemente com os casos de pedofilia e com o caso do Banco Vaticano.

  • Mas há corrupção quando o sacristão não abre logo as portas da Igreja, deixando as pessoas expostas à chuva e ao frio, apenas para mostrar que tem poder.
  • Há corrupção quando o padre privilegia as pessoas do seu círculo íntimo e trata com indiferença os demais membros da comunidade.
  • Há corrupção quando o bispo permite que em sua diocese somente alguns padres tenham determinados privilégios, como, por exemplo, o acesso a paróquias ricas.
  • Há corrupção quando o presbitério da diocese permite que os padres sejam tratados com desigualdade, sem isonomia.
  • Há corrupção quando o pároco ou o conselho de assuntos econômicos não presta contas ao povo do dinheiro da comunidade.
  • Há corrupção quando o dinheiro da comunidade é desviado para pagar as contas de familiares do padre. E os exemplos podem ser multiplicados.

Temos, portanto, que combater a corrupção no interior da Igreja, uma vez que isso é um obstáculo sério para a evangelização. Embora exista a obrigação de analisar cada caso e de cuidar para que não se cometam injustiças e não se alimente as fofocas, não podemos silenciar diante de certas situações.

Estou convencido da atualidade da afirmação de Jesus que disse: “conhecereis a verdade e a verdade fará de vós homens livres” (Jo 8,32). Não se evangeliza mentindo ou camuflando a realidade, mas admitindo com humildade os erros e os pecados.

A dissimulação e o fingimento são os piores inimigos do anúncio do Evangelho. O viver fazendo de conta que tudo está bem, que estamos seguindo fielmente a mensagem de Jesus, tentando esconder o óbvio, contradiz o próprio espírito do cristianismo (Gl 2,11-15).

 

José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo, teólogo, escritor, conferencista, gestor do Centro de Reflexão e Estudos sobre Ética e Antropologia da Religião (Crear) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor

 

Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=77441

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