Entrevista de João Tavares a Edison Veiga, de “O Estado de S. Paulo”

Edison Veiga: O movimento tem números sobre a quantidade de sacerdotes brasileiros que constituíram família?

 

João Tavares: Números exatos, não temos. No nosso catálogo de 1989, foram catalogados 2.131 padres casados. No de 1998, feito um pouco à pressa, temos 1.378 nomes.Mas sabemos que somos muito mais. Calculamos na faixa de 7.000 no Brasil.

Há muitos que não foram encontrados e bastantes que não quiseram seu nome em nosso Catálogo.

No Maranhão, onde moro, por exemplo, ha mais de 20 que eu não conheço, mas sei que existem, por notícias esparsas. Um modo de procurar, seria nas cúrias diocesanas e na direção das Congregações e Ordens religiosas, mas não tem sido fácil. Muitos padres estão saindo sem nem avisarem o respectivo bispo.

A CNBB, por seus órgãos que cuidam de Estatística, que nós saibamos, nunca se interessou em pesquisar o número de padres que deixaram o ministério. Deve ser um assunto incômodo para ela…

Está em fase de elaboração um novo Catálogo Nacional do Movimento das Famílias dos Padres casados – MFPC

Edison Veiga: O movimento acredita que, no papado de Francisco, possa haver alguma mudança na Igreja que permita a atuação de padres casados? Por quê?

João Tavares: No Brasil não lhe foi perguntado nada sobre os padres casados. Em Roma, não tenho notícia. Tentamos fazer chegar uma carta à mãos dele, no Rio, através de um bispo muito conhecido que é nosso amigo. Ainda não sei se ele conseguiu entregar a dita carta.

Francisco tem falado muito de ir às periferias. E nós somos a periferia do clero no Brasil. Pior, a periferia dos leigos pois, por alguns documentos de João Paulo II (esse rasgou uma carta nossa que, através do card. Lorsheider, tentamos lhe entregar em Fortaleza, na sua primeira viagem ao Brasil: quando soube que era dos padres casados, não leu, rasgou e botou no chão – era muito malcriado!), nós padres casados temos menos direitos do que os leigos na Igreja.

Se você tiver oportunidade de ler o RESCRITO do Vaticano com que os padres eram/são liberados do celibato e das obrigações sacerdotais, vai ficar espantado com o estilo rude e a série de proibições e admoestações que lhe são impostas).

Voltando ao papa Francisco, estamos muito contentes com o espírito, as palavras e as atitudes humanas e cristãs dele. Mas ainda não dá para saber se e como ele vai enfrentar a realidade dos cerca de 150.000 padres casado no mundo (digo 150.000 porque o Anuário Pontifício fala de cerca de 65.000 dispensas concedidas. Juntando as muitas que ainda não foram concedidas e as mais ainda que sequer foram pedidas pelos padres que abandonaram o ministério, deve chegar a mais de 150.000).

Francisco ainda é um misto de abertura e conservadorismo. Pelo menos por enquanto, antes que consiga organizar a seu modo a dificílima Cúria Romana, fonte de grandes males na Igreja, pelo menos nos últimos 50 anos.

Quem sabe, depois Francisco não vai pensar também nos padres casados, gente bem preparada, séria e com grande possibilidade de ser úteis ao Povo de Deus…

A resposta que Francisco deu à pergunta sobre a ordenação das mulheres, na entrevista no avião, por exemplo, fez soar um sinal do alerta de possível conservadorismo em Francisco.

Edison Veiga:Vocês defendem o fim do celibato? Ou que ele se torne opcional? Por que?

João Tavares: Não defendemos o fim do celibato. Porque sabemos que, se bem vivido, com autenticidade e alegria, pode ser uma força muito grande e deixa o padre celibatário muito mais livre para uma doação total na e à Igreja, ao Povo de Deus, ao Reino.

Sabemos que é possível. Mas também sabemos que é muito difícil, porque inatural, diria mesmo anti-natural, pois tende a cercear forças legítimas e poderosas do ser humano: a sexualidade e, em boa parte, também a afetividade, impedindo ou dificultando uma sadia capacidade e necessidade de amar e ser amado.

O que somos claramente é contra os falsos celibatários, ambíguos, de vidas duplas e/ou triplas, que são hoje tão evidentes e já nem fazem tanta questão de esconder. Como também contra os rostos tensos, de tantos padres, religiosos e religiosas que, não tendo encontrado um bom e sadio equilíbrio na vivência de sua sexualidade e afetividade de maneira positiva e frutífera para eles e para o Povo de Deus, vivem por aí tensos, nervosos, neuróticos…. Com todos os perigos para eles e para os outros  que essa realidade pode provocar.

Somos a favor de uma boa formação humana, inclusive afetiva e sexual, nos seminários e nas casa religiosas. E, para os padres, somos a favor do celibato opcional. Mas sabemos que isso não vai ser fácil, pois iria mexer muito com a estrutura de poder na Hierarquia. E poder, sexo e dinheiro são, sempre, inclusive na Hierarquia, as três grandes forças motoras ou, como dizia S. João, as três grandes tentações ou concupiscências (1 Jo 2, 15-16) . Basta, para confirmar isso, ler o livro: O VATICANO CONTRA CRISTO – Casa das letras, Lisboa, 2005) – de um grupo de eclesiásticos (I Millenari) de dentro do Vaticano, escrito em 1999 e publicado na Itália com o título: VIA COL VENTO IN VATICANO – Kaos edizioni, 1999. Ou o mais recente SUA SANTIDADE – as cartas secretas de Bento XVI.

Edison Veiga: Vocês se consideram ex-padres ou ainda padres?
João Tavares: A grande maioria acreditamos que sim, que continuamos padres, sacerdotes. Assim nos foi ensinado no Catecismo e, depois, na Teologia: sacerdotes para sempre, porque o Sacramento da Ordem, como também o Batismo e a Crisma, imprime caráter, uma espécie de marcação a ferro quente em nossa alma. Com um sinal indelével.

Alguns não acreditam que continuam padres, que era só um serviço temporário. Alguns, poucos, perderam a fé, e também não acreditam mais em seu sacerdócio.

Nos nossos encontros nacionais, sempre concelebramos todos juntos. Alguns bispos permitiram ou pediram que padres casados celebrasse missa em paróquias. Vários de nós, celebram a missa de vez em quando, em família ou em pequenos grupos.

A Igreja sabe do nosso poder sacerdotal, suspenso, mas não suprimido. Tanto assim que, no direito Canônico, em alguns casos especiais nos obriga a, ou nos permite, usar esses poder  (cânones: 212, 290-293; 976; 986; 1335; 1752).

A imensa maioria de nós, se tivesse sido possível, teria pedido só a licença para casar, não para deixar o ministério. Pois se sentia e se sente sacerdote, vocacionado e bem capaz de exercer bem o ministério sacerdotal. Sem medo de comparação com os padres da ativa de hoje no Brasil.

João Tavares: tavaresj@elo.com.br

Edison Veiga: edison.veiga@estadao.com

(+55 11 3856-5906

 

5 comments to Entrevista de João Tavares a Edison Veiga, de “O Estado de S. Paulo”

  • Reinaldo Mingueti Bertoni

    Tudo que não canta a cantiga de vocês é conservadorismo. Vocês são o suprassumo da verdade. Não é?

    Reinaldo
    ________________________________

    RESPOSTA DE JOÃO TAVARES

    Reinaldo, em vez de sempre questionares as nossas verdades (são sempre relativas, naturalmente…, mas sãs as nossas verdades…), numa eterna atitude do romano Catão, o Censor, por que não apresentas as tuas para uma salutar troca de ideias?
    Explica-nos essa tua alergia aos Padres casados… já várias vezes manifestada em teus comentários sempre ácidos…

    Nós, quando perguntados, procuramos responder com verdade, o que vivemos e pensamos,na livre expressão de nossas ideias. Por que não tentas fazer o mesmo?
    O mundo se constroi pela positiva, não pela negativa, a não ser que a negativa seja para negar pseudo-valores, com argumentos sérios.
    Reinaldo, entra na roda de um diálogo sério… Com argumentos, com sujeito, predicado e complementos…
    Se queres dialogar de verdade, ENTRA NA RODA COM A GENTE…

  • José Lino de Araújo

    Peço autorização ao colega e amigo João Tavares para fazer minha sua inteligente resposta ao Sr. Reinaldo. Não posso, contudo, deixar de fazer um pequeno acréscimo: Só uma cabeça pequena e limitadíssima é capaz de gestar e parir idéias tão preconceituosas. Lucro maior ele teria se tivesse ficado calado!

  • Gilson Mendença

    Parabéns, J.Tavares. Sobretudo quando colocas algumas verdades sobre a Cúria e sobre a carta rasgada. Seria desprezo? seria arrogância? Bem disse o Francisco ¨quem somos nós para julgar¨? Esperemos que ele possa fazer as mudanças necessárias e faça renascer a força da Igreja católica exaurida em tantos segredos, escândalos e presa em tradições obsoletas. Um abraço.

  • luz

    Parabéns, João Tavares. Sua serenidade, confiança e sinceridade ao responder à entrevista por si já respondem ao Sr. Reinaldo. Talvez fosse o caso do Sr. Reinaldo reler a entrevista com mente e coração abertos e ficaria mais fácil para ele entender.Parabéns também pela coragem, pois sem dúvida existem muitos reinaldos e reinaldas nessa nossa sociedade tão discriminatória e tão propensa a jogar seus medos, frustações naqueles que ousam ser autênticos. Mas acredito que esse é o caminho : divulgar cada vez mais o Movimento dos Padres Casados.Porque, a despeito dos reinaldos e reinaldas cada vez mais pessoas se conscientizam que o celibato deve ser opcional uma vez que o fato de um padre ser casado não diminui em nada sua vocação sacerdotal e seu Amor á Jesus.

  • MAXIMILIANO ZAMBOM FILHO

    Parabéns ,João Tavares. Sou gaúcho ,participei dos primeiros movimentos dos Padres casados aquí em Porto Alegre até alguns anos atrás .Hoje, não tem havido encontros,que eu tenha sido informado. Algumas lideranças se afastaram ,por diversos motivos pessoais. Eu gostaria de
    assinar o jornal da Associação Rumos.Casei ,fui professor da PUC= PORTO ALEGRE .Estou aposentado ,auxilio no Hospital Conceição em POA e acabei de lançar um livro ,pela Editora BUQUI – VATICANO FÁBRICA DE CONTRADIÇÕES-

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