Por trás do discurso anticorrupção

OUTRASPALAVRAS – DIREITA ASSANHADA

 

Por 02/12/2022 – Foto: DAQUI

Não há vontade real de combater crimes porque movimentos têm como origem o ódio de classe. O ressentimento foi recalcado durante anos e vem à tona sob os “ideais nobres” de fim da roubalheira. Assim todo rancor e violência são justificados

 

Em 4 de março de 2016, Lula foi conduzido coercitivamente a prestar depoimento na 24ª fase da Operação Lava Jato.

Uma das principais questões levantadas por esse episódio foi a seguinte: a condução coercitiva de Lula era legal?

Diversos juristas responderam taxativamente que não.

  • A condução coercitiva deveria ocorrer somente se Lula já tivesse se recusado a depor após uma intimação.
  • Outros ainda vão além: acusam o Judiciário brasileiro de parcialidade ao adotar critérios e medidas jurídicas distintas para políticos de partidos distintos.

Depois de muita peripécia, a condenação de Lula na Lava Jato foi anulada.

  • Lula não foi descondenado, e sim inocentado.
  • No entanto, sua vitória em 2022 levou os eleitores de seu adversário a se queixarem de que o Brasil havia eleito um presidiário, um corrupto.

Em uma sociedade corrupta, a corrupção se tornou o principal mote da ladainha golpista.

Nada mais hipócrita, mas nada mais eficaz.

  • Por que no Brasil o combate à corrupção se tornou um argumento tão valiosos,
  • ao mesmo tempo em que um argumento tão sem valor?

Vamos caminhar passo a passo.

A indignação com a corrupção é legítima e deve ser dirigida igualmente contra todos aqueles que a praticaram. No entanto, criticar o caráter seletivo das investigações sobre corrupção, afirmando que não são adotados os mesmos critérios para julgar políticos petistas e políticos de outros partidos, é um argumento muito, mas muito fraco.

Afirmo isso com base na seguinte tese: não há nem vontade política nem vontade social de se acabar com a corrupção.

  • Há indivíduos isolados que preservam um comportamento ético irrepreensível,
  • mas sua indignação com a corrupção não é suficientemente forte para promover uma transformação estrutural no Brasil.

Dito de outro modo: a maior parte da sociedade brasileira está interessada na preservação da corrupção.

 

Parte da mídia e milhares de brasileiros, no entanto, vêm se movimentando a favor das investigações sobre corrupção do PT.

Essa movimentação não seria um indício de que existe uma vontade social e política firme para eliminar de uma vez por todas a corrupção em nosso país?

Não, não seria.

Como afirmei,

  • indignação com a corrupção é necessária e legítima,
  • mas não é suficientemente forte em nosso país.

Visto que a corrupção de outros partidos é francamente tolerada pela grande mídia e por milhares de brasileiros, resta saber qual é a origem da força da indignação contra a corrupção do PT.

O antipetismo é a principal fonte que alimenta os atuais movimentos golpistas.

A origem do antipetismo, contudo, é primitiva:

  • ódio de classe,
  • desgosto por ter sido governado por um operário sindicalista e por uma mulher.

No entanto, sabemos que um regime republicano abomina qualquer discriminação política baseada em classe social ou em gênero.

  • Por esse motivo, aquele ressentimento de alguns brasileiros teve que ser recalcado durante alguns anos.
  • Com as acusações de corrupção contra o PT, esses brasileiros perceberam, finalmente, que poderiam dar vazão ao seu ódio,
  • mas que deveria ser travestido por uma indignação justa e legítima: a indignação contra a corrupção.

 

Concluirei com um excesso de didatismo.

  • A acusação de corrupção não é suficientemente forte para promover grandes movimentos sociais,
  • mas é suficientemente legítima para permitir o extravasamento de um ressentimento que, em sua origem, não tem nenhuma nobreza.

Esse ressentimento, sim, é forte o bastante para mobilizar os movimentos golpistas.

  • Na verdade, não existe qualquer vontade e interesse em combater a corrupção.
  • Entretanto, é justamente o discurso do combate à corrupção que tem permitido que milhares de brasileiros possam, finalmente, extravasar seu ódio mais violento e excludente.

A fina e frágil seda dos ideais mais nobres abriga a monstruosidade mais demoníaca do ódio e do ressentimento.

 

Eduardo Guimarães | Brasil 247 Eduardo Guimarães | Brasil 247

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