Holodomor não está distante no tempo nem no espaço

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Foto: Monumento em Kiev faz memória das vítimas da Grande Fome, o Holodomor. Foto: Adam Jones | Flickr CC 

IHU – 26 Novembro 2022

Todo ano, no último sábado de novembro, faz-se memória da Grande Fome, o Holodomor, que matou de 4 a 7 milhões de ucranianos entre 1932 e 1933.

O pesadelo de Holodomorse faz presente e atual com a fome  mundial e com o ódio sobre os povos.

 

A tragédia da fome voltou a assolar o mundo. As explicações para a fome do século XXI são muitas, mas todas vão residir sob o grande guarda-chuva da política econômica. Não é como se a produção de alimentos hoje não fosse suficiente para as 8 bilhões de pessoas do planeta.

Se hoje parece utópico que haja pão em todas as mesas, a distopia das mortes por inanição não está distante no tempo nem espaço.

Todo ano, no último sábado de novembro, faz-se memória da Grande Fome, o Holodomor, que matou de 4 a 7 milhões de ucranianos entre 1932 e 1933.

Em 2022, quando os ucranianos voltam a sofrer com outro massacre pela invasão russa,

  • o resto do mundo sofre seus reflexos com a falta de logística de exportação de grãos, a crise energética, o temor nuclear
  • e, ao que se indica, sem prognóstico de melhoras para o próximo ano, independente de quando a guerra acabará.
  • O pesadelo de Holodomor se faz presente e atual com a fome mundial e com o ódio sobre os povos.

 


Vítima de Holodomor, em Kharkiv, 1933
Foto: Alexander Wienerberger |
Arquivo Diocesano de Viena, Áustria

Não há consenso na comunidade acadêmica internacional se as mortes de Holodomor configuram-se como um genocídio direcionado e planejado pelo regime stalinista da União Soviética.

  • O governo soviético negou as primeiras acusações relatadas pelo jornalista galês Gareth Jones, do The Times, que viajou duas vezes para o país entre 1930 e 1931.
  • Jones foi banido da URSS após publicar seus relatos que envergonhavam  a estrutura socialista soviética perante o caos que Ocidente vivia na Grande Depresão de 1929.

Anos depois, em viagem à Manchúria, ele é sequestrado e morto, sendo o governo soviético o principal acusado.

  • No entanto, outras evidências e registros históricos da Grande Fome sobreviveram com o tempo,
  • como as imagens registradas pelo fotógrafo Alexander Wienerberger,
  • e outras seguem sendo analisadas por historiadores.

A mensagem do Papa Bento XVI no Angelus de 23 de novembro de 2008, no dia de memória do massacre, frisa aquela que é a causa inconteste:

  • Celebra-se nestes dias o 75º aniversário da Holodomor a ‘grande carestia’ que nos anos de 1932-33 causou milhões de mortos na Ucrânia e noutras regiões da União Soviética durante o regime comunista.
  • Ao desejar vivamente que nunca mais ordenamento político algum possa, em nome de uma ideologia, negar os direitos da pessoa humana, a sua liberdade e dignidade“.

 


Vítimas de Holodomor, em Kharkiv, 1933
Foto: Alexander Wienerberger |
Arquivo Diocesano de Viena, Áustria

dominação soviética sobre o território ucraniano já vivia uma década de violência, de revoluções e contra-revoluções.

  • Ucrânia era um território em conflito à parte de toda instituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
  • Concomitante ao declínio do Império Russo, os ucranianos lutaram pela construção de um Estado Nacional próprio.

 

Fome Vermelha», de Anne Applebaum: como a Rússia forçou a Ucrânia a passar fome - Bertrand Editora

Foto: Reprodução

Não obstante, como a autora Anne Applebaum escreve em seu livro “A fome vermelha” (Ed. Record, 2017),

  • para os partidos russos de então, inclusive os revolucionários bolcheviques,
  • Ucrânia nunca existiu, e aquele território era a Rus’ Kievana. “

Além de seu preconceito nacional, os bolcheviques tinham motivos políticos específicos para desgostar da ideia de independência ucraniana.

“A Ucrânia ainda era essencialmente uma nação agrícola”,

escreve Applebaum. Segundo a autora,

  • os líderes da Revolução Soviética tinham uma relação ambígua para com os ucranianos,
  • apoiando no conflito contra o czar, mas combatendo o nacionalismo.

Ainda, no estabelecimento do novo governo, e a acentuação da guerra civil, Stalin via a Ucrânia como o principal estoque de grãos para os russos, o que fica mais evidente nesta mensagem de Lenin ao front ucraniano, citada pela autora:

  • “Empreguem toda a energia e todas as medidas revolucionárias para enviar grãos, grãos e mais grãos!!
  • Caso contrário, Petrogrado poderá morrer de fome.
  • Usem trens especiais e destacamentos especiais. Coletem e armazenem. Escoltem as composições ferroviárias. Nos informem diariamente.

Pelo amor de Deus!”.

 


Mapa da Ucrânia em 1922
Fonte: APPLEBAUM, A. “A fome vermelha”.
Ed. Record, 2017.

 

Uma nova política econômica precisava ser administrada para abastecer a maior nação do mundo.

  • Essa foi a política de coletivização das terras instaurada ao final da década de 1920 e que resultou em um completo desastre humanitário.
  • Quando os bolcheviques conseguem assumir o controle do território por meio do Partido Comunista Ucraniano, a partir de 1925, faz-se a dekulakização da Ucrânia,
  • isto é a desapropriação das terras dos pequenos agricultores para o Estado.

Os historiadores Robert William Davies e Stephen G. Wheatcroft

  • apontam em “The Years of Hunger: Soviet agriculture, 1931-1933” (Ed. Palgrave Mcmillan, 2004) que,
  • coletivização foi confusa,
  • resultou em uma semeadura tardia do trigo e do centeio no outono gelado da Ucrânia,
  • o que prejudicou a germinação dos grãos e, logo, uma colheita produtiva.

 

coletivização das terras era um estágio avançado da expropriação das indústrias agrícolas privadas, que serviria como base de industrialização conforme o I Plano Quinquenal.

Como apontam Davies e Wheatcroft,

  • política stalinista não conseguiu ser célere o suficiente para respeitar a produção da safra de 1930,
  • por conseguinte, os camponeses ucranianos, já massacrados pela violência da última década,
  • perderam o controle dos seus territórios, a liberdade ou a certeza da semeadura em suas áreas.

A pequena colheita nas estepes ocidentais da URSS era escoada para alimentar Moscou, sob ordem, repressão e perseguição do Politburo.

 


Mapa físico da Ucrânia em 1932
Fonte: APPLEBAUM, A. “A fome vermelha”. Ed. Record, 2017.

 

regime stalinista escondeu da comunidade internacional a grande fome vivida na Ucrânia.

  • A história de Holodomor até hoje é tratada com desconfiança
  • pelo uso político que tanto o regime nazista de Hitler quanto a democracia liberal dos EUA
  • fizeram para atacar o Estado soviético.

 

Não obstante, a obscuridade das informações foi superada

  • primeiro com as fotografias vazadas de Wienerberger,
  • mas em conjunto com o desenvolvimento de robustas pesquisas a partir da queda da URSS na década de 1990, com destaque especial à Universidade de Harvard,
  • associando dados geográficos, demográficos, econômicos e ecológicos pode se mensurar o que aconteceu nos primeiros anos do stalinismo.

 

Great Famine Project, coordenado hoje pelo professores Serhii PlokhiiKostyantyn Bondarenko e Nataliia Levchuk, em Harvard, está há décadas construindo análises sobre as perdas populacionais no período de Holodomor.

  • Conforme o cruzamento de dados de três censos da União Soviética, considerando as taxas de migração e de natalidade que ali constam,
  • e com dados do Instituto de Demografia e Estudos Sociais de Kiev,
  • os pesquisadores estimam que em 1933 o número de mortos nas regiões de Kiev e Kharkiv excederam em mais de 900 mil comparado com os anos anteriores e posteriores.

 

Embora as demais regiões ucranianas tenham sofrido grandes perdas populacionais nesse período, em nenhuma outra houve elevação que chegasse perto destes números. Destaca-se, é claro, que essas eram as regiões mais populosas. No entanto, na fronteira da Ucrânia com a Rússia, região conhecida como Stalino à época, as perdas populacionais foram as menores registradas.

 


Mapa calcula o número aproximados de mortos no território ucraniano nos anos de 1932, 1933 e 1934
Fonte: Great Famine Project | Harvard University

Mapa calcula o número aproximados de mortos no território ucraniano entre 1932 e 1934
Fonte: APPLEBAUM, A. “A fome vermelha”. Ed. Record, 2017.

 

Esses dados cruzados com os conflitos históricos e a composição étnica do território criam o principal argumento para identificar Holodomor  como um genocídio.

 

Em outra análise censitária, considerando o censo de 1926, os pesquisadores constatam semelhanças entre essas áreas de maior perda populacional com as de maior ocupação por população de etnia ucraniana. As áreas com o menor número de mortos tinham predominância étnica de germânicos (Odessa) e russos (Stalino, hoje as áreas ocupadas pelo exército russo, principalmente Luhansk).

 


Mapa étnico da Ucrânia
Fonte: Great Famine Project | Harvard University | Dados do Censo soviético de 1926.

 

É importante sublinhar que embora não haja comprovações de uma política deliberada por parte de Joseph Stalin para exterminar a população e ocupar o território ucraniano,

  • 16 países reconhecem Holodomor como genocídio, entre eles estão a UcrâniaEstados UnidosArgentinaBrasil (por projeto de lei aprovado em 2022) e Vaticano.
  • Na última Audiência Geral, de 23 de novembro, o Papa Francisco recordou de Holodomor e reafirmou que as mortes foram causadas “artificialmente por Stalin”.

Para Francisco, o povo ucraniano sofre hoje o martírio de 1930, sob as mãos de Putin.

 


Valas coletivas para enterrar os corpos em Kharkiv, 1933
Foto: Alexander Wienerberger | Arquivo Diocesano de Viena, Áustria

“Proibido enterrar corpos aqui”. Placa escrita em russo demonstrava a preocupação do Politburo com o número de mortos em Kharkiv, 1933
Foto: Alexander Wienerberger |
Arquivo Diocesano de Viena, Áustria

 

Desta vez, a guerra mata com armas, bombas, drones e as imagens das atrocidades circulam abertamente pela internet. Enquanto isso,

  • a destruição dos campos e a paralisação da produção de alimentos no Leste Europeu, que até 2021 representava 1/3 da produção mundial de grãos,
  • disparou o preço dos alimentos e da energia, criando uma epidemia de fome que ataca sobretudo o continente africano,
  • que tem 378 milhões de pessoas em insegurança alimentar severa em 2022.

Como no passado, a fome é direcionada e é uma escolha política.

 

O filme “A Sombra de Stalin“, de Agnieszka Holland (2019), retrata a história de Gareth Jones, sua chegada na União Soviética, seu relato sobre Holodomor e a perseguição que sofreu do governo soviético.

 

IHU

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/624289-holodomor-nao-esta-distante-no-tempo-nem-espaco

 

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