Não vote em mercenários da fé

Os Mercenários da fé – IDEIAS EM BLOG

Frei Gilvander Moreira – 22 Setembro 2022 – Imagem: “Pastores”  milionários / Reprodução

“O Estado Brasileiro é laico, pois a Constituição Federal de 1988 garante a liberdade religiosa, mas isso não pode recair em libertinagem religiosa, que é usar em vão o nome de Deus para projetos de poder. Abuso de poder econômico e político já são considerados crimes eleitorais que levam à cassação da candidatura ou do/a candidato/a eleito/a.

abuso do nome de Deus e da fé das pessoas também precisa ser considerado crime eleitoral e levar à cassação do/a candidato/a ou do eleito/a que se aproveitou da dimensão de fé das pessoas iludindo-as”, escreve Frei Gilvander Moreira.

Gilvander Moreira é frei e padre da ordem dos carmelitas, doutor em Educação pela FAE/UFMG, licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo ITESP/SP, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em RomaItália. Também é agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas, além de professor de Teologia bíblica no Serviço de Animação Bíblica – SAB, em Belo Horizonte-MG.

 

Eis o artigo.

 

Na atual legislatura do Congresso Nacional, na Câmara Federal e no Senado,

  • existem mais de 100 deputados ou senadores que são pastores, a maioria dos quais integram a chamada Bancada Evangélica (da Bíblia)
  • com 203 deputados, que está associada às Bancadas do Boi
  • com 210 deputados (Agronegócio) e da Bala (do armamentismo).

 

A maioria dos deputados e senadores pastores participam do Centrão, maioria ultraconservadora do Congresso Nacional que sustenta o pior presidente que o Brasil já teve,

  • se negando inclusive a tramitar mais de 160 pedidos de impeachment apontando uma série muito grande de crimes de responsabilidade do atual presidente e praticando,
  • com a cumplicidade do poder Judiciário e do antipresidente, um crime gravíssimo, que é o orçamento secreto:
  • distribuição de 5 bilhões de reais do orçamento do Governo Federal sem transparência, alimentando currais eleitorais.

 

Nas eleições de 2022, o número de pastores candidatos aumentou em mais de 15%.

Ultimamente, eleição após eleição está crescendo o número de pastores eleitos.

  • Isto não tem melhorado a vida do povo. Aliás, tem piorado muito,
  • pois assistimos a um predominante abuso do nome de Deus e da dimensão espiritual das pessoas
  • enquanto os religiosos eleitos apoiam políticas de morte
  •  como o agronegócio brutalmente devastador do meio ambiente e gerador de 33 milhões de famintos e a necropolítica do atual antipresidente.

 

Na Bíblia e na fina flor de todas as religiões há um rechaço veemente à idolatria, que é adorar ídolos.

  • A pior idolatria é tentar domesticar o Deus verdadeiro, amordaçá-lo
  • e usar linguagem religiosa com objetivo escuso de manipular a fé das pessoas
  • para fins de obter poder político e enriquecer-se.

Os profetas e profetisas bradam contra a idolatria.

 

Segundo a profecia de Oseias, os sacerdotes são os grandes culpados pela violência reinante.

  • O povo percebe que os sacerdotes haviam se transformado em assassinos e se comportavam como bandidos em emboscada (Os 5,9).
  • Diante dessa dramática máfia religiosa e política, o povo, passando por um processo sofrido de conversão, conclui, voltando-se para o Deus Javé:

“é em Ti que o órfão encontra misericórdia” (Os 14,4).

A hipocrisia e o cinismo dos sacerdotes na condução do culto

  • fazem o povo descobrir que o caminho para a libertação não passa pelos sacrifícios, mas pela misericórdia.
  • A conclusão é: “Misericórdia, sim; sacrifício, não!” (Os 6,6).

 

A mais cruel idolatria é a do mercado idolatrado, que faz em nome do ídolo mercado ir “passando a boiada”,

  • os gigantes tratores devastando os ecossistemas para extrair minérios ou produzir commodities para auferir acumulação de lucro e capital
  • e deixando nos territórios terra arrasada: desertificação, contaminação e crimes socioambientais premeditados.
  • E com isso jogando nas agruras da fome mais de 33 milhões de pessoas.

 

Ai de quem usa em vão o nome de Deus e abusa de versículos bíblicos citando-os para tentar legitimar posturas que geram discriminaçãoopressãoinjustiça, violência e morte de muitas formas!

Sendo um camponês indignado diante da injustiça agrária, social e urbana, o profeta bíblico Amós brada:

“Escutem exploradores dos vulneráveis, opressores dos pobres do país! Vocês ficam maquinando:

  • ‘Quando vai passar a festa da lua nova para podermos pôr à venda o nosso trigo?
  • Quando vai passar o sábado para abrirmos o armazém para diminuir as medidas, aumentar o peso e viciar a balança,
  • para comprar os fracos por dinheiro, o necessitado por um par de sandálias, e vender o refugo do trigo?’” (Am 8,4-6).

Esta veemente profecia

  • se encaixa perfeitamente em uma legião de pastores e padres que usam e abusam do poder religioso que tem
  • para se enriquecer, curtir vida luxuosa, enquanto vira as costas para o povo injustiçado.

 

Seja por ignorância, por mediocridade ou por propósitos não confessados, o que acontece atualmente em muitas igrejas é um descarado comércio,

  • ou seja, uso e abuso do nome de Deus, invocado em vão,
  • e a citação de versículos da Bíblia retirados dos seus contextos para justificar posturas discriminatórias, moralistas, absurdas
  • e cumprir um objetivo não confessado, que é ajuntar e acumular cada vez mais dízimo, ofertas, muitas vezes induzindo “viúvas e órfãos” a doar o pouco que tem em busca de bênção, cura e conforto.

 

É cretinice alardear “Deus acima de tudo”,

  • mas fomentar o armamentismo, a devastação ambiental, a perseguição aos povos indígenas, quilombolas, LGBTQIA+,
  • reforçar a cultura machista e patriarcal e amputar cada vez mais o braço social do Estado.

Dizer de forma abstrata que é “contra o aborto

  • e na prática amputar direitos trabalhistas, previdenciários, retirar dinheiro do SUS [1] e da farmácia popular
  • é na prática “abortar” milhões de famílias empurrando-as para a fome, a doença e a morte lenta.

 

O Estado Brasileiro é laico, pois a Constituição Federal de 1988 garante a liberdade religiosa, mas isso não pode recair em libertinagem religiosa, que é usar em vão o nome de Deus para projetos de poder.

Abuso de poder econômico e político já são considerados crimes eleitorais que levam à cassação da candidatura ou do/a candidato/a eleito/a.

 

abuso do nome de Deus e da fé das pessoas também precisa ser considerado crime eleitoral e levar à cassação do/a candidato/a ou do eleito/a que se aproveitou da dimensão de fé das pessoas iludindo-as.

Procure saber

  • se aos pastores e líderes religiosos candidatos/as doam a vida na defesa do povo empobrecido ou se eles/elas se servem da fé das pessoas humildes?
  • O que eles/elas estão fazendo para superar a fome de 33 milhões de brasileiros?
  • Eles/elas apoiam as teses do Bolsonaro?

E não esqueçam de observar em quais partidos estão filiados.

  • Se estão filiados em partidos do centrão, da direita ou de extrema direita (PL, PSC, União, Patriota, Republicanos, PP, PROS, AVANTE, NOVO, PODEMOS, DEM, PSL, PTB, PMDB etc.),
  • não vote neles,  pois com certeza são lobos em peles de ovelhas: representam os interesses das grandes empresas e do grande capital.

 

A palavra/princípio básico do Decálogo Bíblico é: “Não matarás!” (Êxodo 20,3).

Não merece o voto de uma pessoa que busca ser humana – respeitosa, justa e solidária –

  • um candidato que faz propaganda, fazendo alusão ao uso de armas e coloca um fuzil nas mãos de uma criança, dizendo que é melhor do que feijão,
  • de fato, pisoteia na fina flor da Bíblia que nos exorta a construirmos uma sociedade com Justiça e Paz, com vida em abundância para todos/as (Jo 10,10).

 

As pessoas cristãs, sejam católicas ou evangélicas,

  • não devem votar em candidatos que seguem a idolatria do dinheiro,  nem seguir os pastores empresários da fé, que são traidores do Evangelho de Jesus Cristo,
  • que viveu ensinando e testemunhando que ético é viver se doando aos outros na luta pelo bem comum e pela construção do reino de Deus a partir do aqui e do agora,
  • o que passa necessariamente pela construção de condições objetivas que garantam vida e liberdade para todos e todas, sem discriminação.

 

Voto tem consequência.

Vote em candidatos de partidos da esquerda,

  • pois a esquerda não é perfeita, mas é mil vezes melhor para o povo e para o meio ambiente do que a direita, que defende via de regra o status quo opressor.
  • Vote em quem está comprometido com a luta por direitos humanos fundamentais – lutas por terra, moradia, preservação ambiental, agricultura familiar, agroecologia, saúde e educação pública etc.
  • Priorize eleger mulheres de luta pelo bem comum, negros que lutam pela superação do racismo e indígenas que estão comprometidos com as lutas pelo resgate dos territórios indígenas e pela abolição da famigerada tese do marco temporal.

 

Foto: enviada por Gilvander Moreira | Reprodução.

julho 2007 – Site do frei Gilvander Moreira

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Frei Gilvander Moreira

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/622341-nao-vote-em-mercenarios-da-fe

 

 

 

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