“50 milhões vivem como reféns”. Esse é o mundo dos escravos modernos

 

OIT lança plano contra trabalho escravo no setor têxtil brasileiro

.

Stefano Vecchia – 14 Setembro 2022 – Foto: DAQUI

 Está crescendo o número de escravos modernos. Um novo relatório resultante da colaboração entre a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização para as Migrações (OIM) e a Walk Free, organização australiana empenhada no combate à escravização de seres humanos, traça as coordenadas da série de abusos e exploração que definem o fenômeno.

O conteúdo do relatório Estimativas globais da escravidão moderna, apresentado ontem em Genebra, é alarmante: desde 2016, há dez milhões de “novos escravos” a mais, para um total de 49,6 milhões de “novos escravos”, 54 para cada cem são mulheres. Uma humanidade desesperada que se divide em dois grandes grupos: aquele obrigado ao trabalho forçado em um grande número de atividades desfavorecidas, perigosas e degradantes, incluindo a prostituição – 27,6 milhões; e aquele dos 22 milhões de mulheres obrigadas a casamentos forçados.

A reportagem é de Stefano Vecchia, publicada por Avvenire, 13-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Uma multidão que não tem um horizonte seguro para olhar, porque a nova escravidão está difundida em quase todos os países e afeta e sujeita sobretudo os mais fracos e indefesos: grupos minoritários ou marginalizados, mulheres, crianças.

  • Os menores são pelo menos 3,3% dos trabalhadores forçados, mais da metade levados a se submeter à exploração sexual.
  • Em um mundo onde as desigualdades estão se agravando, os “últimos” de cada realidade muitas vezes pagam o preço.

O paradigma, no entanto, está mudando.

 

O relatório destaca como 52% do trabalho forçado e 1/4 de todos os casamentos forçados são encontrados hoje em países de renda média alta e não por acaso – o documento especifica –

  • os trabalhadores migrantes têm três vezes mais probabilidades de serem escravizados em relação aos colegas de cidadania local.
  • A razão é óbvia: sem documentos, são facilmente chantageados, dada a condição de extrema necessidade. Os “escravos modernos” são, portanto, invisíveis.

E o fenômeno está se tornando cada vez mais transnacional. Também por isso, o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, ao apresentar o relatório, falou da escravidão moderna como “uma realidade chocante”, cuja persistência não pode ser justificada.

O seu homólogo do OIM, António Vitorino, confirmou que

  • “sabemos o que é preciso fazer e sabemos que pode ser feito.
  • Políticas e regulamentações nacionais eficazes são fundamentais, mas os governos não podem fazer isso sozinhos.
  • As normas internacionais fornecem uma base sólida e é necessário haver uma abordagem que envolva a todos”.

 

Trabalho escravo no Brasil

Polícia Federal no Brasil  tenta desbaratar trabalho escravo no Brasil  em fazendas, carvoarias, manufaturas de roupa, etc. Entre os escravagistas: deputados e senadores – Foto: DAQUI

 

Uma realidade global deve ser enfrentada com ferramentas globais e sem demora porque

“a urgência é garantir que todas as migrações sejam seguras, ordenadas e regulares”.

Para Grace Forrest, fundadora e diretora da Walk Free, os governos precisam fazer mais e de forma consistente porque

“em tempos de crises interconectadas, uma verdadeira vontade política é a chave para acabar com essas violações dos direitos humanos”.

 

Nas recomendações finais, o relatório insiste na aplicação das normas para a segurança e garantia do trabalho e no empenho para acabar com o trabalho forçado promovido pelo Estado onde esse persistir. Por fim, o documento pede que a proteção social seja estendida e que as garantias legais sejam fortalecidas, especialmente para as mulheres, para quem a fronteira entre trabalho forçado e casamento forçado é tênue.

Nesse sentido, a elevação universal da maioridade matrimonial para 18 anos continua sendo um compromisso a ser perseguido com firme determinação.

 

Stefano Vecchia - Italian reporter and writer based in Asia - Indipendent writer | LinkedIn

.

Stefano Vecchia

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/622163-50-milhoes-vivem-como-refens-esse-e-o-mundo-dos-escravos-modernos#

Leia mais:

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>