“Bicentenário da Independência chega sem projeto de nação”, diz historiador

 

Wilson Tosta –  05 Setembro 2022 – Foto: Reprodução

José Murilo de Carvalho fala sobre como os brasileiros destruíram seu paraíso terrestre e a urgência de mudanças. A entrevista é de Wilson Tosta, publicada por O Estado de S. Paulo, 03-09-2022.

 

Brasil celebra 200 anos de vida independente em 2022 sem projeto de nação e longe da grandeza anunciada em 1500 pela natureza exuberante e sonhada no século 19 pelos que lutaram por sua Independência.

Rede Globo > globo universidade - Entrevista: José Murilo de Carvalho aborda a cidadania política na história

A constatação é do historiador e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) José Murilo de Carvalho, (Na Foto: Globo) que avalia com desânimo o panorama nacional hoje.

Para ele, os brasileiros destruíram o seu paraíso terrestre. Poluíram ares, águas e praias e levam às terras, inclusive a Amazônia, à desertificação, sob o impulso do desmatamento e da mineração predatória.

  • “O sonho de grandeza desvaneceu, não se transformou em política de Estado a ser implementada independentemente da mudança de governo”, afirma, em entrevista ao Estadão.
  • “Vamos levando sem termos um projeto (de nação), um fim a atingir, algo como o Manifest Destiny (Manifesto do Destino) dos norte-americanos.”

O historiador diz que

  • Brasil é um “país sem revolução”,
  • no qual ocorreram movimentos apenas de “ajuste” entre as elites.

Foi assim, considera,

  • na Proclamação da República, para permitir a entrada dos cafeicultores na política;
  • na Revolução de 1930, para quebrar o monopólio das oligarquias rurais;
  • no golpe de 1964, para conter o trabalhismo criado por Getúlio Vargas.

As elites brasileiras, afirma, desde o Império, tiveram enorme capacidade de se reproduzir e, em conluio, barram as medidas que envolvam redistribuição de renda no Brasil.

“O Leopardo de Lampedusa concordaria: é preciso mudar para que nada mude”, diz.

Ele se refere ao romance Il Gattopardo, do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1857), sobre a decadência da nobreza siciliana durante o Risorgimento, movimento que buscou a reunificação italiana no século 19.

A frase (“É preciso mudar para que tudo permaneça como está”) é de um personagem do livro, o príncipe de Falconeri.

 

O acadêmico avalia que

  • o conservadorismo brasileiro é basicamente cultural, moral e de família, gênero e religião, não político,
  • como“provavelmente as urnas” mostrarão, diz.

O campo político, diz, é da elite econômica e financeira. O pesquisador afirma que os brasileiros deveriam seguir os chineses, que pensam seu país “para trás e para frente”.

  • “O que será do País quando completarmos 250 anos de independência?”,pergunta. Para ele,
  • “com a história que temos, com a magra herança desses 200 anos, não é fácil prever o que podemos esperar”.

 

Segundo ele,

“as elites brasileiras desde o Império tiveram enorme capacidade de se autorreproduzir. (…).

  • Basta um exemplo: milhões de pobres votam.
  • No entanto, os eleitos por eles, boa parte dos congressistas, no máximo dedicam-se a práticas clientelistas e populistas, sem promover reformas estruturais em favor da redução da desigualdade.
  • Não representam os interesses de milhões de eleitores que neles votaram.

A representação, vale dizer, a democracia, não funciona.

  • A insensibilidade à desigualdade é marca de nossas elites.
  • Veja-se o exemplo do Judiciário que abriga os marajás da República.
  • Em meio à dura crise causada pela covid, vemos o STF reivindicar aumento salarial de 18% para toda a magistratura.

Os juízes do STF que ganham R$ 39,2 mil, fora os penduricalhos, passariam a ganhar R$ 46 mil. Isto num país onde o salário mínimo é de R$ 1.212. É uma indecência que retrata a cara de nossa elite”.

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui

Quebra de sigilo de Flávio irrita o presidente e reaviva a pergunta: onde está Queiroz? - Política - Estadão

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Wilson Tosta

 

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