Salman Rushdie e o diálogo inter-religioso

Exigência intrínseca da religião na sua verdade é a ética e o compromisso com os direitos humanos, a realização plena de todas as pessoas, a salvaguarda da Terra.

1- Em 2006, realizou-se, em Santa Maria da Feira, o V Simpósio “Sete Sóis Sete Luas”, que teve como tema “Qual é o Deus do Mediterrâneo?”

Foram conferencistas Salman Rushdie, Cláudio Torres e eu próprio. O debate, moderado por Carlos Magno, durou quatro horas, com uma assistência atenta, que esgotou todos os lugares disponíveis da auditório da Biblioteca Municipal.

Evidentemente, a figura central era Salman Rushdie (Foto ao lado: Reprodução) contra quem tinha sido lançada em 1989 pelo ayatollah Khomeini uma fatwa, isto é, um decreto religioso, condenando-o à morte por blasfémia.

Trinta e três anos depois, no passado dia 12 de Agosto, Rushdie foi esfaqueado, quando se preparava para uma palestra em Nova Iorque.

O atacante é Hadi Matar, um homem de 24 anos, de origem libanesa. A fatwa nunca foi levantada e havia até um prémio de mais de 3 milhões de dólares para quem assassinasse o acusado de blasfémia por causa do livro Os Versículos Satânicos.

Quais são esses famosos versículos? Dois que não figuram nas versões ortodoxas do Alcorão.

Lê-se, de facto, na sura (capítulo) 53, versículos 19 e 20, da Vulgata:

“E que vos parecem al-Lat, Al-Uzz e a outra, Manat, a terceira?”

A estes versículos, na tradução francesa de Régis Blanchère, que sigo, acrescentam-se mais dois (20bis e 20ter), os “satânicos”:

“Elas são as Deusas Sublimes e a sua intercessão é certamente desejada.”

Tratava-se de divindades do politeísmo pré-islâmico, representando, portanto, aquilo que Maomé mais fustigou por causa do seu monoteísmo puro, “sem associados”.

Se a negação do monoteísmo é o único pecado sem perdão, pergunta-se:

  • como pôde o Profeta declarar sublimes aquelas deusas?
  • A explicação está em que estes versículos foram transmitidos ao Profeta por Satanás,
  • e o modo usado por Deus para acabar com eles, versículos ímpios, consiste em “abrogá-los”, de tal modo que não figuram na Vulgata.

Mas então surge uma nova pergunta, segundo Quentin Ludwig:

  • “Porque é que Deus não esteve à altura de ditar imediatamente o versículo perfeito?
  • Porque é que Deus deixou Satanás exprimir-se?
  • E se Maomé se deixou levar por Satanás uma vez, quem pode dizer que não existem outros versículos satânicos no Alcorão?”

 

2 – Aqui chegados, é fundamental relembrar Hans Küng:

  • “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.
  • Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões.
  • Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais.
  • Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos (atitude ética) global, um ethos mundial.”

E impõe-se, em ordem a um debate sem confusões, uma distinção essencial.

Há a religiosidade, que,

  • no movimento de transcendimento que pergunta pelo fundamento último, sentido último, procurando salvação,
  • se defronta com o Sagrado, o Mistério.

Crente é aquele que se entrega confiadamente a esse Mistério-Sagrado, do qual espera precisamente sentido último, salvação.

Depois, neste enquadramento,

  • entende-se que apareçam as religiões institucionais, que são construções humanas enquanto mediações entre o Mistério ou Sagrado, Deus,
  • e os homens e as mulheres e entre estes e o Mistério, Deus.

Assim, as religiões têm de tudo: do melhor e do pior, como se constata através da História.

Nesta distinção entre religiosidade, religiões, e Sagrado-Mistério, entende-se que

  • as religiões estão referidas ao Sagrado, ao Mistério, Deus,
  • mas não são Deus, o Sagrado, o Mistério, que todas tentam dizer, mas a todas transcende.

A partir destes pressupostos, percebe-se que o diálogo inter-religioso, essencial para o futuro da Humanidade, tem de assentar nalguns pilares fundamentais.

Todas as religiões, desde que não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o dignifiquem e promovam, têm verdade.

Outro pilar diz que todas são relativas (do verbo irregular latino refero, relatum), num duplo sentido:

  • nasceram e situam-se num determinado contexto histórico e social e, por outro lado, estão relacionadas, referidas ao Sagrado, ao Absoluto, Deus.
  • Estão referidas ao Absoluto, Deus, mas nenhuma o possui, pois Deus enquanto Mistério último está sempre para lá de tudo quanto possamos pensar ou dizer dEle.

Precisamente por isso,

  • uma vez que nenhuma o possui na sua plenitude, devem dialogar
  • para, todas juntas, tentarem dizer menos mal o Mistério, Deus, que a todos convoca.

Por isso, por paradoxal que pareça,

  • do diálogo fazem parte também os ateus,
  • porque, estando de fora, mais facilmente podem ajudar os crentes a ver a superstição e a inumanidade que tantas vezes envenenam as religiões.

Exigência intrínseca da religião na sua verdade é a ética e o compromisso com os direitos humanos, a realização plena de todas as pessoas, a salvaguarda da Terra.

  • A violência em nome da religião contradiz a sua essência, que é a salvação.
  • Aliás, antes de sermos crentes ou não, o que a todos nos une é a humanidade comum e a dignidade de pessoas,
  • de tal modo que, face a um Deus que legitimasse a violência, o ódio, mandasse matar em seu nome,
  • impunha-se uma obrigação moral: ser ateu.

 

E dois princípios irrenunciáveis:

  • a leitura não literal, mas histórico-crítica dos livros sagrados – Deus não falou directamente com ninguém -,
  • e a laicidade do Estado – só mediante a neutralidade religiosa do Estado é possível garantir a liberdade religiosa de todos sem discriminação.

Mas laicidade não é laicismo, que pretende retirar a religião do espaço público.

Esta crónica despede-se com saudades até Outubro.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/salman-rushdie-e-o-dialogo-inter-religioso-15115524.html

 

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