Uma Igreja ferida chamada à conversão

Preparando o Sínodo de 2023 – Sínodo em Inglaterra e Gales

 

| 27 Jun 2022

Fiéis ingleses já fizeram a sua síntese. Foto © Du Ryo | phhere:

“O que se espera e exige é uma mudança da cultura e das mentalidades que permita a todo o Povo de Deus ‘ser a Igreja’”

 

 

 

 

 

 

  • A corresponsabilidade entre todos os batizados no governo da Igreja,
  • a valorização do papel da mulher,
  • uma maior atenção aos grupos até agora marginalizados
  • e uma reorientação das prioridades pastorais

são alguns dos pontos mais significativos da síntese nacional da Igreja na Inglaterra e em Gales divulgada no sábado, 25 de junho.

  • Mas se estes aspetos da reforma desejada pelos mais de 30 mil católicos que participaram na reflexão sinodal são semelhantes aos retidos nas sínteses nacionais de outras igrejas,
  • já o sentimento de serem uma Igreja ferida é algo novo neste tipo de documentos e neste assim descrito:

“A Igreja está gravemente ferida na sua capacidade

  • de agir segundo a sua própria missão,
  • de deixar a sua bondade resplandecer
  • e viver a sua vida de uma maneira que expresse a beleza da fé.

Existe um sentimento profundo de que a Igreja precisa de cura e de conversão para viver a sua própria natureza e a sua missão em verdade.”

Essa ferida tem origem

  • no excesso de clericalismo,
  • nos abusos sexuais e no seu encobrimento,
  • na incapacidade de aproveitar e promover os dons das mulheres
  • e por ter mantido à margem largos grupos de pessoas.

E nestes grupos marginalizados incluem-se

  • as mulheres mas também os jovens,
  • as pessoas LGBTQ+,
  • os divorciados recasados,
  • os ciganos,
  • as pessoas de cor
  • e aquelas com necessidades especiais e os tradicionalistas.

Copiando aquilo que os bispos franceses decidiram,

  • esta síntese nacional de 27 páginas será enviada para o secretariado do Sínodo dos Bispos no Vaticano,
  • juntamente com um documento que os bispos de Inglaterra e Gales vão elaborar durante a reunião plenária que estão a realizar ao longo desta semana.

 

Proximidade e companhia para superar o clericalismo

  • O peso e o imobilismo do clericalismo é denunciado “em quase todos os documentos recebidos”,
  • lê-se na síntese nacional que acrescenta “a resistência de uma parte do clero ao processo sinodal é assinalada em muitos relatórios”,  com uma particularidade muito inglesa:

“Menção especial é feita à desconfiança de alguns ex-padres anglicanos

  • que lembraram experiências negativas de governança de estilo parlamentar-sinodal da Igreja da Inglaterra [Anglicana],
  • com suas moções e votos, grupos de pressão e campanhas, que não são fáceis de esquecer.”

Tendo presente esses excessos, a síntese recorda as frequentes referências ao facto de que

“muitas vezes a Igreja não é acolhedora para pessoas específicas, ou para novas ideias e inspirações”,

constatação a que se contrapõe o

“apelo constante para que a Igreja incorpore o amor incondicional de Deus que a todos abraça, tanto ao que é diferente como aos marginalizados”.

De igual modo,

“o desejo de que as igrejas sejam lugares de proximidade é uma característica marcante dos relatos, expresso na palavra bem-vindo, juntamente com palavras relacionadas como integração e inclusão”.

De acordo com a interpretação deste documento feita por The Tablet em notícia publicada no dia 25 de junho,

“a síntese enfatiza que um futuro melhor para a Igreja na Inglaterra e no País de Gales só será possível através da ‘arte de acompanhar’,

  • em que leigos, religiosos, clérigos e bispos trabalham juntos, nos seus diferentes papéis,  como ‘discípulos missionários’
  • movimentando-se em estruturas sinodais como os conselhos pastorais paroquiais”.

 

Ouvir e identificar novos horizontes

Muito importante também foi o método utilizado pela equipa nacional que redigiu a síntese a partir de mais de 700 páginas de contribuições.

Como explicam os próprios na introdução ao documento:

  • “Procurámos captar notas comuns encontradas nos relatórios, bem como notas minoritárias ou visões marginais, que ocorrem com frequência suficiente para serem dignas de menção.
  • Demos atenção a elementos surpreendentes ou marcantes, sobretudo quando as opiniões nos pareciam particularmente sinceras;
  • e, sempre que possível, procurámos usar citações de frases dos relatórios para captar as ‘joias’ que o Espírito quis oferecer à nossa Igreja através da voz dos fiéis de Deus nestas ilhas.”

Tais preocupações em permanecer fiel ao conteúdo dos documentos recebidos, determinou que:

“Ao procurar sintetizar sem fazer julgamentos teológicos, praticámos o discernimento pela escuta e pela oração, refletindo sobre os contributos diocesanas. Este processo permitiu-nos identificar (…) os novos horizontes que vemos o Espírito abrir para a nossa Igreja através da via sinodal.”

E na última página da síntese, dedicada a umas sucintas conclusões, resumem-se esses “novos horizontes” para a Igreja Católica na Inglaterra e em Gales:

“O que se espera e exige é uma mudança da cultura e das mentalidades que permita a todo o Povo de Deus ‘ser a Igreja’”, convite que “se é feito por igual a todos, exige de quem tem autoridade um compromisso que o facilite e potencie através de reformas concretas”.

Mas se as autoridades eclesiais têm um papel específico a cumprir, “a responsabilidade de conversão não pode ser delegada a determinados grupos ou autoridades, mas deve ser assumido por todos em resposta aos dons que o Espírito já derramou sobre todos os fiéis (..).

Espírito que nos pede para ouvir e responder sem esperar por esta ou aquela mudança ou nova estrutura, confiante de que, ao despertar à nossa coresponsabilidade, as reformas se seguirão – na verdade, se tornarão a própria reforma.”

 

Jorge Wemans | Jornalista | PÚBLICO

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Fonte: https://setemargens.com/uma-igreja-ferida-chamada-a-conversao/

 

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