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Padres casados estariam mais próximos dos fiéis

 | 5 Abr 2022

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Foto: Direitos reservados.

 

Dar espaço à existência de dois papéis diferentes no exercício sacerdotal – o celibatário e o conjugal – constituiria um enriquecimento da ação pastoral da Igreja. A proposta é do padre Giannino Piana, ex-professor de ética cristã na Universidade Livre de Urbino e de ética e economia na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Turim, em Itália.

artigo foi publicado há dias na revista Il Mulino, também italiana, e tem tido algum impacto internacional, talvez porque, como diz o autor, o celibato sacerdotal é tema recorrente de insistência na opinião pública católica (e não só), mas é também “um nó crítico que não pode ser facilmente resolvido”.

Contextualizando o problema, Giannino Piana começa por recordar o fator da escassez de clero, que atua como elemento de pressão para que o atual estado de coisas se altere. Já não é apenas dos episcopados de países em desenvolvimento que surgem os pedidos, mas cada vez mais dos episcopados ocidentais, preocupados com a falta de vocações.  

Poder-se-ia argumentar que uma forma de mitigar o problema seria aproveitar para “restituir aos leigos as funções que lhes competem, ampliando os espaços de participação eclesial”.

Contudo, o autor salienta que uma motivação “mais nobre” é a que diz respeito à liberdade de escolha, “já que não há vínculo indissolúvel entre o ministério ordenado e o matrimónio”, como demonstra a experiência das Igrejas cristãs orientais, que permite a escolha do matrimónio a quem é ordenado.

O assunto, faz notar o artigo, esteve na calha para ser resolvido no âmbito dos trabalhos do Vaticano II (1962-1965), mas, perante os acesos debates, o Papa Paulo VI avocou o dossiê e, através da Sacerdotalis coelibatus, reafirmou a doutrina tradicional da Igreja Latina.

“A razão principal aqui apresentada é de natureza pastoral e consiste na afirmação de uma maior liberdade interior e de um maior espaço de tempo dedicado ao serviço eclesial por quem está livre dos laços conjugais e familiares”, nota o texto.

Este argumento é questionado por Piana, observando que, a partir do Concílio de Trento (1545-1563), se percebe que “a motivação pastoral funciona muitas vezes como cobertura para outras motivações que não são explicitamente enunciadas, mas que, de facto, gozam de uma importância considerável”. E dá o exemplo da visão negativa da sexualidade e das mulheres, que viria já do período da patrística, por influência das correntes neoplatónicas e gnósticas, e, por outro lado, a razão estritamente económica, que “consiste no desejo de manter intacto o património dos bens eclesiásticos, protegendo-o do risco de transmissão aos filhos ou netos se o sacerdote tiver família própria”.

Em todo o caso, este padre reconhece que, com o Vaticano II se verificou “um certo ponto de inflexão”, ainda que incompleto, em favor da motivação pastoral, quer a respeito da sexualidade – vista de forma mais positiva – quer da questão económica, ao apelar a um retorno (na realidade não totalmente implementado) à pobreza evangélica. 

Esta abordagem pastoral choca, no entanto, com o dever de os pastores assegurarem às comunidades cristãs ministros que acompanham e dinamizam a vida comunitária que “tem na celebração da Eucaristia o momento culminante”.

É neste enquadramento que Giannino Piana coloca o pedido de revisão da disciplina eclesiástica sobre a obrigatoriedade do celibato, que, sublinha, “muitos fiéis consideram uma disciplina arcaica e anacrónica, visto que, ao impor por lei uma escolha que deveria ser completamente livre, acaba, por um lado, por criar situações de desconforto existencial, decorrentes da busca de desgastantes compensações emocionais e, por outro, por diminuir o próprio valor da virgindade”.

A proposta, “avançada por muitos”, faz notar, é, portanto, a de abrir a possibilidade de aceder a uma dupla tipologia de ministério: celibatário e casado.

Isso não acaba com o ministério celibatário “sempre que ele for expressão de uma livre escolha, fruto de uma autêntica vocação para a virgindade”. Até porque “há boas razões para afirmar que o celibato, vivido na alegria da livre escolha, constitui, além de sinal da dimensão escatológica do mistério cristão, um estatuto que oferece uma particular disponibilidade interior para viver o ministério ordenado”. Já o ministério conjugal “tem possibilidades consideráveis, ​​também do ponto de vista pastoral”. “Basta pensar, salienta o autor do artigo, no quão importante é a experiência familiar para lidar eficazmente com assuntos da vida quotidiana que envolvem a maioria dos fiéis”.

O modo de conceber a relação entre os dois tipos de ministério na prática pastoral, que assuma a contribuição diferenciada de cada um deles, dá corpo a tal proposta que Piana alude no título do seu texto: “Trata de dar vida à presença na Igreja de dois papéis diferentes no exercício do ministério ordenado. A primeira (e mais difundida) – a do ministério matrimonial – deveria ser proposta como forma de serviço residencial, oferecido aos fiéis que vivem na região por pessoas reconhecidas como líderes espirituais capazes de fazer crescer a comunhão (acaso não era esta a função dos presbíteros na comunidade cristã primitiva?). A segunda modalidade – o celibato – deve desempenhar uma função mais missionária, no sentido de se dedicar ao desenvolvimento de formas de presença em áreas onde é cada vez mais urgente um trabalho de evangelização ou voltado para o cuidar de áreas específicas em que decorre a vida familiar, profissional e laboral em geral; áreas que requerem uma intervenção mais direcionada e especializada”.

O fim da atual disciplina do celibato, “longe de ser considerado como uma rendição ao ‘espírito do tempo’, tornar-se-ia ocasião para um verdadeiro enriquecimento da ação pastoral da Igreja”, considera o texto de Il Mulino. “Além de constituir um ato de respeito pela liberdade pessoal e suscitar escolhas humanamente mais sólidas por serem mais serenas, favoreceria a realização de uma complementaridade no exercício do ministério presbiteral hoje, necessária para interpretar corretamente a complexidade das situações e responder eficazmente às exigências de uma condição de secularização, que torna cada vez menos percetível a exigência da fé”, salienta, a terminar.

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