O crescimento da população da Europa parou

 

 Envelhecimento da população da Europa. População da Europa

por Marco Brando – 9 de junho de 2022 – Foto: Reprodução

Assistimos quase inermes ao “espetáculo”, como tínhamos amplamente previsto, de uma União Europeia que tem cada vez menos cidadãos: unida sim, mas na incapacidade de garantir um futuro através dos seus filhos.

 

 Pouco se fala disso, pelo menos entre os não entendidos na matéria. No entanto, entre os problemas que a União Europeia (UE) terá de enfrentar, um é representado por uma bomba-relógio: a demográfica.

Não é uma ameaça de explosão, como acontece em outras áreas cada vez mais populosas do mundo; pelo contrário, há risco de implosão.

Porque nós, os europeus, seremos cada vez menos.

Os dados sobre esta interrupção do crescimento da população podem ser inferidos do volumoso dossiê disponibilizado pelo Eurostat, o Serviço de estatística da UE.

O relatório de 2022, intitulado Demografia da Europa, propõe uma versão interativa,

“para ajudar os usuários não especializados a ver que estatísticas oficiais europeias nos podem dizer como a população se está desenvolvendo, está envelhecendo e muito mais ainda”.

 

Pois bem,

  • em 1º de janeiro de 2021, na União Europeia viviam 447,2 milhões de pessoas;
  • estão incluídos 23,7 milhões de cidadãos de Países não comunitários nascidos na UE (5,3% do total)
  • e 37,5 milhões de nascidos fora da UE (8,4%).

Verifica-se que entre 2001 e 2020,

  • a população total dos atuais 27 Estados-membros aumentou de 429 para 447 milhões, um crescimento de 4%;
  • alguns Países tiveram um aumento mais alto, outros mais baixo ou negativo.

É verdade que, somando todas as componentes, se chega estatisticamente a um crescimento no espaço de vinte anos.

No entanto, no dossiê de Eurostat

  • também se lê que – apesar da contribuição da imigração não comunitária –
  • em 2020 o aumento da população parou pela primeira vez.
  • Não só, a tendência inverteu-se: entre 1º de janeiro de 2020 e 1º de janeiro de 2021, a população total da UE teve um decréscimo de 278.000 pessoas.

 

A Itália tem contribuído fortemente para este número, pois detém o recorde negativo europeu:

  • perdeu 405.275 habitantes num ano, descendo para 59.236.213 no final de 2020.
  • Um número que posteriormente voltou a diminuir, dado que, de acordo com os dados mais recentes do Istat (Instituto Nacional de Estatística)
  •  a população italiana em 1º de janeiro de 2022 era de 58.983.122 residentes: outros 253.091 a menos que os do ano anterior.

É uma tendência negativa que se mantém desde 2015, depois de em 2014 os residentes do país terem atingido o recorde de 60.345.917 (uma perda de 1.362.795 em 8 anos).

  • Está na Itália a mais alta porcentagem de maiores de 65 anos (24%) e a mais baixa de menores de 20 anos (18%);
  • além disso, em 2020, também devido ao Covid-19, verificou-se o maior aumento de óbitos (+ 17%).

A Itália detém também outros recordes:

  • desde a mais baixa taxa bruta de natalidade (6,8 nascidos vivos por 1.000 habitantes)
  • até à mais alta idade média das mães que dão à luz ao primeiro filho (31,4 anos).

Portanto, mais idosos e menos recém-nascidos: nesse ritmo, em 2080 na Itália haverá menos de 53 milhões de habitantes, número igual ao registrado em 1967.

 

Demografia europeia – Imagem: Reprodução

 

Vamos dar um passo atrás para entender.

  • Na UE são muitos os que estão preocupados, talvez quase todos, exceto alguns otimistas incuráveis.
  • Por outro lado, existem motivos para se sentirem assim.

Além do choque causado pela pandemia (da qual estamos a saindo gradualmente mas que provocou muitas vítimas, a paralisação da economia e fortes repercussões psicológicas), não faltam outras fontes de stress:

  • a freada da recuperação pós-Covid causada pelo retorno da guerra no Velho Continente;
  • as mudança climáticas e a poluição;
  • o aumento dos preços com a inflação;
  • a taxa de ocupação instável;
  • a escassez de matérias-primas essenciais para as tecnologias digitais;
  • o custo da energia de origem fóssil mais do que triplicado
  • e o bloqueio de muitos mercados, também devido ao conflito desencadeado pela Rússia na Ucrânia.

 

Por ironia da sorte, a implosão provocada pela bomba demográfica europeia

  • pode fazer com que na UE, nos próximos anos, sejamos sempre menos a nos preocuparmos:
  • pela simples razão de que o número de europeus está fadado, se não forem encontradas soluções, a diminuir constantemente.

Uma perspectiva que, já num estudo aprofundado do Parlamento Europeu que remonta a 2008, quando já era previsível o decréscimo geral na União, era sintetizada assim:

  •  “A uma Europa com ritmos econômicos elevados e taxas positivas de crescimento, faz de contrapeso o espectro de uma sociedade em rápido envelhecimento.
  • E os poucos nascimentos em solo europeu têm um efeito bumerangue no mercado de trabalho, nos sistemas de proteção social e nos gastos com saúde.

O quadro demográfico que emerge é alarmante…

  • A população europeia está, de fato, em claro declínio e já em 2050 a idade média aumentará para 49 anos, quando mais de um europeu em cada dez terá mais de 80 anos.
  • Só cem anos atrás, a população europeia constituía 15% de toda a população mundial, mas essa proporção se inverterá  três vezes até 2050 (ou seja, seremos 5%, ndr).

A fazer de contrapeso a esta tendência está o forte crescimento dos Países em desenvolvimento, que representam mais de 95% do crescimento”,

o demográfico, em nível global.

 

No documento, que se acaba de citar, afirmava-se que a EU estava“estudando as opções possíveis em vista da solução certa”.

Por exemplo,

“rever a política sobre a família, estimular os nascimentos, agir sobre na relação vida privada/vida profissional”.

Além disso,

“uma das soluções é, sem dúvida, a imigração, ainda que esse recurso, mais cedo ou mais tarde, também se torne ‘velho’.

  • Será  portanto privilegiado o canal de maior produtividade e a introdução de novas políticas sobre os nascimentos.
  • O Parlamento europeu pediu repetidamente aos Estados-membros adaptações para levar em conta o fator “mudança demográfica”,
  • em particular visando a aprendizagem durante a vida inteira, a imigração ou a legislação trabalhista”.

 

Em comparação com 14 anos atrás, o mundo e a Europa mudaram muito, porque aconteceu de tudo e de surpresa:

  • desde a longa e grande recessão global iniciada mesmo naquela época,
  •  até os últimos terríveis dois anos e meio, com uma pandemia acompanhada de uma nova guerra em território europeu.

Em compensação,

  • as previsões sobre o “déficit demográfico” (como definido na análise aprofundada de 2008), face aos novos dados fornecidos pelo Eurostat (e, em nível italiano, pelo Istat),
  • mostram não apenas que essas previsões eram fundamentadas  mas que eram até otimistas;

em compensação, tendo em vista  os resultados, pouco se fez no que respeita às sugestões apresentadas na época pelo Parlamento europeu.

  • Pouco foi feito acerca das políticas para as famílias, de modo a incentivá-las a ter mais filhos.
  • Pouco foi realizado em relação à imigração, que pelo contrário – em vez de se tornar, se bem gerida, um motor do desenvolvimento, inclusive o demográfico –
  • tornou-se nos últimos anos o pretexto para alarmes contra uma alegada invasão, fomentados pelas forças políticas soberanistas e populistas em busca de votos.

Evidentemente, tal “invasão” não existiu, visto que a população residente na UE até diminuiu, mesmo incluindo, como se viu acima, 61,2 milhões de pessoas residentes (e integradas) na União  mas consideradas, a vários títulos, cidadãos extra-comunitárias.

 

É um grande problema, embora pouco percebido pela população, pois seus efeitos são diluídos ao longo do tempo; na realidade, é muito concreto, especialmente olhando em perspectiva daqui a algumas décadas.

O próprio Papa Francisco, no início de 2019 durante uma audiência geral, falou com preocupação sobre o “inverno demográfico que vivemos na Europa”.

  • Pode-se discordar da doutrina católica no que diz respeito ao conceito de vida conjugal e procriação;
  • no entanto, os dados mostram que entramos no auge desse inverno, independentemente da natureza secular de quem os julga.

Exatamente a partir de 2008 as taxas de fecundidade, muito diferentes de país para país na Europa, causaram uma diminuição dos nascimentos que se tornou uma constante, sem distinções quanto à idade dos pais e às suas possibilidades econômicas.

As pessoas

  • sentem-se menos seguras acerca do trabalho; sentem-se à mercê de ocupações precárias:
  • com poucas esperanças de ver a própria qualidade de vida melhorar
  • ou de aspirar a uma casa decente ou de poder contar com serviços públicos adequados a uma família com filhos.

Acontece na Itália e, em maior ou menor grau, também em outros lugares da UE.

 

Na UE,

  • o declínio dos nascimentos e a política migratória mal gerida (sem poder oferecer aos migrantes  trabalho e integração, uma vida digna desse nome)
  • contribuíram, portanto, para armar a bomba-relógio de que se falava no início.

Nos últimos dois anos e meio, as experiências comuns da pandemia e depois de apoio à resistência ucraniana estão mostrando, com alguns deslizes, uma União Europeia mais coesa.

Também no que se refere ao déficit demográfico, seria necessária uma revolução nas políticas públicas estaduais e comunitárias.

Em vez disso, assistimos quase inermes ao “espetáculo”, como tínhamos amplamente previsto, de uma União Europeia que tem cada vez menos cidadãos:

unida sim, mas na incapacidade de garantir um futuro através dos seus filhos.

Marco Brando

Fonte: https://www.treccani.it/magazine/atlante/societa/Si_fermata_crescita_popolazione_Europa.html

 

 

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