Numa espiral de crises, a marcha da sociedade à autodestruição

 

Guerra nuclear acabaria com o planeta Terra? Estudo responde

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Por: João Vitor Santos | 18 Mai 2022 | Imagem: Olhar digital

Na programação do Ciclo Decálogo Sobre o Fim do Mundo, Anselm Jappe profere hoje a palestra “A guerra e sociedade da autodestruição”, em que retoma crises da Modernidade ainda não superadas que, hoje agudizadas, podem colocar a humanidade em marcha ao seu fim

 

“A miséria e o desemprego se espraiam pelo mundo afora e se difunde, cada vez mais, a sensação de que vivemos numa época de crise contínua e aguda.”

Quando ele formula essa reflexão, o mundo ainda discutia a globalização e já percebia esgotamentos de muitas das perspectivas modernas que pareciam ser a garantia da perpetuação da humanidade na terra.

 

Hoje, ainda não resolvemos aqueles problemas e sequer pensamos outras formas de produção de consumo.

Pelo contrário,

E tudo isso ainda logo depois de termos experimentado umapandemia global, que coaduna crises causadas por desequilíbrios ambientais, econômicas e sociais.

 

Talvez não seja por acaso que Jappe atualiza sua reflexão e pontua que, desse jeito, estamos vivenciando “A guerra e sociedade da autodestruição”.

Aliás, esse é o título da sua palestra, que ocorre logo mais, às 10 horas, dentro da programação do Ciclo de Estudos Decálogo do Fim Mundo. A atividade é uma iniciativa do Instituto   Humanitas Unisinos – IHU e é transmitida ao vivo no formato live.

 

Nesse mesmo artigo, publicado pelo IHU em 2005, é possível perceber ainda outros elementos que revelam por onde o filósofo pensa caminhos para os estados de crise.

“O importante

  • seria uma produção voltada para a satisfação das necessidades sociais,
  • e não para satisfazer a cega necessidade do sistema baseado sobre o valor, sobre a mercadoria e sobre o dinheiro de crescer continuamente.”

 

Como não enfrentamos isso e sequer olhamos para esse caminho, parecemos estar numa verdadeira espiral de crises.

Houve um tempo no qual achamos que o caminho realmente era esse, mas ainda não ousamos trilhar por ele. O que não se percebeu é que estávamos na curva baixa da crise, ainda nessa espiral, e não fora dela.

  • Bastaram alguns anos para nos tornarmos ainda mais reféns desse tal de mercado e de um capitalismo predatório, em que subimos para a curva alta da crise.
  • E pior: ainda rancorosos e intolerante por não termos vivido aquele sonho que ousamos cogitar como possível de sonhar.

 

Sociedade autofágica

Imagine um sujeito com um apetite voraz, capaz de devorar tudo, absolutamente tudo que o cerca.

  • Esse foi Erisícton, o rei da Tessália que, segundo a mitologia grega, não tinha limite quando o assunto era saciar suas vontades.
  • Sem respeitar nenhum sujeito, deus ou divindade da terra, destrói o que pode para sua saciedade.

Até que viola um bosque consagrado e provoca a ira de Deméter, deusa da agricultura.

  • Enfurecida, a deusa aciona Éton, a divindade que personifica a fome, que coloca um estômago gigante em Erisícton.
  • Sua sentença é comer, comer e comer até que nada reste e começa a se autodevorar.

 

O mito pode dizer muito de nós mesmos e nossa necessidade de produção e consumo que coloca o planeta em colapso.

Teríamos nós o mesmo fim do rei glutão? Essa metáfora é justamente o que serve a Anselm Jappe para analisar o que chama de

  • “pulsão de morte do capitalismo”,
  • o que para ele é uma explosão de violência extrema gerada pela perda de sentido e pela negação dos limites, características de uma sociedade regida pela mercantilização.

Essa análise é o cerne de seu livro “A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição”(Elefante Editora, 2021).

 

 

de Jappe, “A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição” (Elefante Editora, 2021) (Foto: divulgação)

 

Para Jappe, num flerte com a psicanálise,

Afinal, produzimos e vendemos até bombas.

  • “O produtor de bombas produz bombas não porque ele é insensível moralmente, mas porque ele é submetido a essa lógica fetichista. A imoralidade pode ser acrescentada, mas ela não é o motor.
  • E, de resto, na sociedade capitalista, esse fetichismo atinge também os operários.
  • Aqueles que fabricam bombas não querem perder seus empregos. Todos participam dessa realidade, pois todos estão submetidos ao fetichismo da mercadoria e do valor”,

observa Jappe, em artigo reproduzido pelo IHU em 2021.

 

O filósofo ainda observa esses movimentos que compreendemos como fruto de uma ideia de Modernidade, aquela que via o progresso e desenvolvimento como um ideal maior que a sanha do rei Erisícton,

“A questão que eu me propus no meu livro foi a de saber se essa mudança representou, no final das contas, um progresso. Sem partilhar as visões de autores como Lasch e Dufour, que podem conduzir a consequências reacionárias, deve-se levar seus diagnósticos críticos a sério.

  • Pois, se, por um lado, essa evolução para a liberdade individual é evidentemente positiva,
  • por outro lado, o diabo, tendo saído pela porta, entrou novamente pela janela.

É preciso constatar que

  • o indivíduo que resultou desta evolução é fundamentalmente ainda mais fraco, justamente por causa da fraqueza de seu superego.
  • Ele é presa das pulsões do consumo de mercadorias.

E, de fato, assiste-se a uma grande reversão.

  • O ‘partido da desordem’, anteriormente aquele dos revolucionários,
  • tornou-se o do sistema capitalista.” Ansel Jappe

 

Papel do Estado

Voltando ao artigo de Jappe de 2005, é possível observar o lugar do Estado numa sociedade em crise. Para ele,

“Estado não pode ter outra função que a de garantir o mínimo de coesão

  • sem a qual esta sociedade, baseada sobre a concorrência,
  • se dissolveria imediatamente numa guerra de todos contra todos”.

Mas a que Estado, ou Estados, chegamos?

No Brasil,

  • um Estado que se retira do público e defende interesses privados de uma elite,
  • desmontando todo e qualquer tipo de equalização em prol de uma sociedade igualitária.

Na Europa,

  • estados irmãos, ou pelo menos parentes, se matam
  • para assegurar poder no mundo e impedir avanços de outros Estados que podem lhes fazer sombra.

 

Jappe:  “Estado não pode ter outra função que a de garantir o mínimo de coesão” (Foto: Divulgação)

 

Realmente, parecemos ter muitas lições a serem revistas e revisitadas. Nesse sentido, a fala de Jappe pode ser um caminho para nos inspirar a retomar a longa estrada que, quem sabe, nos leva para longe dessa espiral de crises que podem decretar nosso fim.

  • “A estrada da emancipação social não pode passar pela tomada do poder ou a conquista do Estado.
  • Este, de qualquer modo, se reduziu quase que inteiramente a uma carcaça vazia.
  • A emancipação social deve passar por uma longa estrada, feita de múltiplas experiências de auto-organização e de reapropriação direta dos recursos materiais e imateriais, lá onde vale a pena”

resume o filósofo, no artigo de 2005.

 

Saiba mais sobre Anselm Jappe

Filósofo e ensaísta nascido na Alemanha, fez seus estudos na Itália e na França. Além de inúmeros artigos na revista alemã Krisis, é autor do livro Guy Debord, sobre a vida e a obra do pensador e ativista francês (publicado no Brasil pela editora Vozes).

Também publicou o livro As Aventuras da Mercadoria(pela Editora Antígona, de Lisboa) que reconstrói a trajetória filosófica e política da crítica do valor.

Outras publicações recentes de Jappe são os títulos Violência, mas para quê? e Crédito à morte, ambos construídos com ensaios publicados por ele em revistas francesas. Esses títulos foram publicados em português, no Brasil, pela editora Hedra.

 

IHU Online - Equipe

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João Vitor Santos

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/618669-numa-espiral-de-crises-a-marcha-da-sociedade-a-autodestruicao

 

 

 

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