Como o Brasil está batendo continência aos EUA

 

Por Ana Penido e Lívia Peres Milani, na Piauí – 29.11.2021

Alinhamento na área da defesa com Washington iniciou-se com Temer – e foi aprofundado por Bolsonaro. Inclui exercícios militares na Amazônia, “intercâmbio” na PF e formação de cadetes em escola golpista. Dependência é estratégica…

 

O alinhamento militar do Brasil com os Estados Unidos na área de Defesa – em nítida expansão desde o governo Temer – foi elevado a outro patamar no governo Bolsonaro.

Um novo desdobramento desse processo ocorreu em outubro, quando foi autorizado o ingresso de militares dos Estados Unidos da América para exercícios conjuntos com o Exército e com a Polícia Federal.

Esses episódios

  • representam a intensificação, na área militar, do alinhamento automático Brasil-Estados Unidos,
  • apesar do cada vez maior distanciamento entre Bolsonaro e Joe Biden nas áreas de comércio exterior e meio ambiente.

Tal alinhamento implica a construção de uma política de defesa brasileira subserviente aos interesses nacionais dos Estados Unidos da América. A narrativa de afastamento em relação ao Brasil, promovida pelo governo Biden, não é confirmada pela realidade.

Quatro pontos ajudam a entender o que está por trás do discurso:

1. O papel dos intermediários da Defesa 

Até o momento não houve encontros presidenciais entre Biden e Bolsonaro, e o diálogo direto entre os presidentes foi limitado à troca de cartas. Contudo, essa dinâmica é apenas parte da história:

  • as relações entre o Brasil e os Estados Unidos continuam a ser intensificadas por meio da atuação de ministros e secretários, no caso brasileiro, muitos ministros-militares.
  • O Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, visitou o Brasil em agosto, quando se encontrou com o presidente e com ministros.
  • Já em setembro, o ex-comandante do Comando Sul estadunidense esteve no Brasil, quando foi condecorado no Ministério da Defesa.

Nessas visitas, chama atenção a constante reafirmação da necessidade de aproximação em temas de defesa e segurança,

  • o que se manifesta simbolicamente na proposta de entrada do Brasil em programa de cooperação com a Otan
  • e materializa-se na realização de exercícios militares conjuntos.

2. Os exercícios militares conjuntos e a subordinação do Brasil

Exercícios conjuntos realizados em território nacional com a presença de potências globais eram raros. Em 2017, os Estados Unidos participaram de exercício militar na Amazônia a convite do Brasil,

  • com a justificativa de preparação para atividades humanitárias,
  • como receber migrantes, e combater delitos transnacionais, como o tráfico de drogas.

Em 2020 ocorreu um novo treinamento na região, dessa vez estritamente militar, partindo da hipótese de guerra entre dois países amazônidas como Brasil e Venezuela.

A atividade não contou com tropas estadunidenses, mas gerou polêmica

  • pois, no mesmo período e na mesma região (fronteira com a Venezuela), o Brasil recebeu a visita do então secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo,
  • em plena corrida eleitoral estadunidense.

Agora em 2021, o governo federal decidiu

  • permitir a entrada de 240 militares estadunidenses, acompanhados de armamento
  • e autorizados a permanecer no país por três semanas para realizar exercícios na região do Vale do Paraíba.

O decreto presidencial não explica a razão do exercício.

Segundo o SBTNews, o exercício será realizado no Sudeste para aproveitar operações aeromóveis já previstas para ocorrer.

O exercício sucederá a um treinamento bilateral ocorrido de janeiro a março nos Estados Unidos, do qual participaram mais de duzentos militares brasileiros e que, de acordo com site mantido pelo Comando Sul, fez parte de um programa de intercâmbio entre os Exércitos com cinco anos de duração (2017-2021).

A convergência entre os exercícios e os interesses nacionais estadunidenses é clara, uma vez que contribuem para a manutenção dos militares brasileiros em uma situação de dependência estratégica, em um momento de disputa geopolítica com a China.

O mesmo, contudo, não pode ser dito com relação à participação brasileira no exercício:

  • qual o ganho possível para as Forças Armadas brasileiras em treinar com um exército tão superior em termos de equipamentos e tecnologia?
  • Qual segmento interno do Exército brasileiro está envolvido e o quanto esse segmento está comprometido com o governo Bolsonaro?
  • Por que o Brasil está treinando com um exército que adota uma estratégia ofensiva como resultado da política externa expansionista dos Estados Unidos?
  • Um exercício no Sudeste é voltado para qual natureza de ameaças?
  • Para que tipo de missões deseja-se construir interoperabilidade com o exército estadunidense?
  • Como essa subordinação impacta nas relações internacionais brasileiras com outros países da América do Sul?

3. O “intercâmbio” entre a Polícia Federal brasileira e o Exército dos Estados Unidos

Outro movimento semelhante, tão grave quanto, foi o decreto permitindo a entrada de militares dos Estados Unidos para realizar “intercâmbio” com a Polícia Federal, responsável pela segurança institucional e por prender políticos do alto escalão.

Ressalta-se: não é um intercâmbio com forças policiais estadunidenses, mas forças militares!

O decreto autorizou a entrada de aeronave militar, de doze militares e de material do Exército norte-americano.

Esse treinamento

  • coloca em xeque a tradicional separação entre a função policial, de proteção da população,
  • e dos militares, cuja principal função é garantir a defesa nacional, se necessário fazendo uso da força letal.

Salienta-se que, no Brasil, essa separação existe muito mais enquanto um ideal do que na realidade,

  • e seguiu turva mesmo com o final do regime militar,
  • mantendo práticas abusivas de uso da força coercitiva estatal e violações de direitos humanos.

Intercâmbios como o anunciado agravam um problema concreto, estrutural e histórico, contribuindo com a militarização do policiamento através do contato com material e equipamento de uma força ofensiva e preparada para a guerra.

4. O treinamento de militares brasileiros na antiga Escola das Américas

Além dos exercícios conjuntos propriamente ditos,

  • também vem crescendo durante o governo atual o número de militares brasileiros que receberam treinamento em academias estadunidenses,
  • como é o caso do Whinsec, o substituto da Escola das Américas.

De acordo com informação obtida por meio da Lei de Acesso à Informação pelo Jornal Brasil de Fato,

  • 41 militares brasileiros passaram pelo instituto nos três anos do governo atual,
  • diante de 41 enviados nos dezoito anos anteriores.

A Escola tornou-se notória durante o período da Guerra Fria pelo renome de seus ex-alunos, muitos dos quais tiveram um papel de destaque nos regimes militares da América do Sul.

No período recente,

  • quem frequentou os bancos da escola foi o atual ministro do GSI, general Augusto Heleno,
  • logo após sua passagem pelo comando da Minustah.

Contemporaneamente,

  • quatro ex-militares colombianos que passaram pela escola foram presos por ligação com o assassinato do então presidente do Haiti, Jovenel Moïse,
  • e aventou-se uma tentativa de contratar o mesmo grupo mercenário para o assassinato de Luis Arce, na Bolívia.

Os quatro pontos acima ajudam a exemplificar a intensificação das relações militares do Brasil com os Estados Unidos. Diante de um crescente quadro de instabilidade hegemônica global,

  • ao contrário de uma postura de distanciamento pragmático das duas potências em disputa, China e Estados Unidos,
  • militares brasileiros têm ampliado seu engajamento subordinado à estratégia de defesa estadunidense.

A chegada de Biden pode ter mudado o discurso público, mas não a ação.

 

Entre a arrogância e o paternalismo: a tutela militar sobre instituições do Estado brasileiro. Entrevista especial com Ana Penido - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

 

Ana Penido é pós-doutoranda em relações internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp-Unicamp-PUC/SP), bolsista Capes. Pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes – Unesp) e do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

 

 

Livia Milani, Visiting Researcher - CLAS

Lívia Peres Milani é pós-doutoranda em relações internacionais pelo Programa “San Tiago Dantas” (Unesp/Unicamp/PUC-SP), bolsista Capes-PrInt.

Pesquisadora do Gedes e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu).

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/como-o-brasil-esta-batendo-continencia-aos-eua/

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