Repetir o Novo Testamento é sepultá-lo

Comentário Mateus & Marcos - À Luz Do Novo Testamento Grego - Livraria Jesus o Caminho

 

Frei Bento Domingues, O.P. -28.11.2021

Os pregadores da repetição tornam-se os coveiros da novidade crepitante do Evangelho. Há excepções admiráveis.

Na homilia, Bergoglio não sepultou os textos bíblicos.

Fez deles uma luz para iniciar os caminhos da Jornada Mundial da Juventude, mas é das novas experiências dos caminhos que nascerá a luz da esperança.

 

 

1. A grande maioria dos católicos conhece, da Bíblia, os pedacinhos que se lêem nas celebrações dominicais, seja do Antigo seja do Novo Testamento. Isto significa que a maioria não conhece a Bíblia como tem sido estudada pela exegese moderna.

Sob o ponto de vista da sua investigação científica,

  • protestantes, católicos e ortodoxos frequentam, cada vez mais, os métodos modernos de exegese,
  • importantes para não se cair em hermenêuticas arbitrárias.
  • Isto não quer dizer que os pressupostos confessionais não contem, e ainda bem.
  • Neste sentido, não se pode continuar a dizer que a Bíblia é propriedade de qualquer uma das confissões religiosas.

No entanto, continua a ser verdade que o conhecimento das Escrituras é muito reduzido, apesar dos esforços que alguns movimentos desenvolvem para alargar esse conhecimento.

Lamento imenso as homilias que contam pouco com os métodos e os frutos da exegese, mas irritam-me ainda mais aquelas que gastam o tempo a repetir as leituras.

  • Essas repetições são o recurso da preguiça e acabam por anestesiar a atenção da assembleia.
  • Era melhor insistir na formação de bons leitores.

Os pregadores da repetição tornam-se os coveiros da novidade crepitante do Evangelho.

Há excepções admiráveis. São fruto de quem não lê só esses pedacinhos da Bíblia, escolhidos e repetidos de três em três anos.

  • As que me parecem admiráveis são as realizações de quem lê a Bíblia à luz dos acontecimentos e os acontecimentos à luz da interpretação bíblica.
  • São duas dimensões da escuta que se cruzam e se iluminam mutuamente.

Espero do Sínodo de toda a Igreja que as homilias deixem de ser um exclusivo do clero.

É fundamental que os leigos assumam a sua vocação de testemunhas do Evangelho todo, na vida toda, e que sejam escolhidas as pessoas que revelem carisma de comunicação, isto é, competência e graça da pregação.

Conheci, ao longo da vida, grandes servidores do Evangelho ao povo cristão, abrindo-o ao diálogo inter-religioso e à escuta de todas as pessoas de boa vontade, crentes ou não.

Tenho de confessar que, neste momento, quem mais me interpela é o estilo do Papa Francisco. A sua homilia do Domingo passado — dia de Cristo Rei — não repetiu as leituras.

  • Extraiu das leituras, sem violência ou falsos concordismos, um guião vivo para a caminhada dos jovens.

Não restringiu a sua intervenção a esse movimento, mas a todos os jovens e não apenas aos jovens porque ele confessa-se um sonhador:

“Sou um sonhador deslumbrado pela luz do Evangelho e aguardo ansiosamente as visões da noite. E quando caio, encontro em Jesus a coragem de lutar e de ter esperança, a coragem de voltar a sonhar. Em todas as idades.”

 

2. Não ocultou as duas imagens que recolheu dos textos da Missa.

  • A primeira, do Apocalipse de São João, antecipada pelo profeta Daniel na primeira leitura, é descrita pelas palavras: “Eis que vem com as nuvens.”  É uma referência à vinda gloriosa de Jesus como Senhor e fim da história.
  • A segunda imagem é a do Evangelho:

“Cristo está diante de Pilatos e diz-lhe: Eu sou rei. Faz-nos bem, queridos jovens, parar e contemplar estas imagens de Jesus, no momento em que iniciamos o caminho para a Jornada Mundial da Juventude de 2023 em Lisboa.”

Vamo-nos concentrar na primeira:

  • “Jesus que vem com as nuvens. Ao dizer isto, podia pensar-se que iria fugir para as nuvens, fugir do real da vida concreta.
  • Não. Esta imagem faz-nos perceber que a última palavra da nossa existência virá de Jesus, não de nós.
  • Ele é aquele que cavalga as nuvens e que, nos céus, manifesta o seu poder: ele é o Senhor, o Senhor que vem do alto e nunca desaparecerá, é aquele que resiste a tudo o que passa, é a nossa confiança inabalável e eterna. Ele é o Senhor.

“Esta profecia de esperança ilumina as nossas noites.

  • Diz-nos que Deus vem, que Deus está presente, que Deus está a trabalhar e que Deus dirige a história para ele, para o bem.
  • Ele vem com as nuvens para nos tranquilizar, como se dissesse: Não te deixo só quando a tua vida está envolta em nuvens negras. Estou sempre contigo. Venho para trazer luz e devolver serenidade.

“Caros jovens, reparai nas visões da noite! Que significam?

  • Ter um olhar luminoso, mesmo na escuridão.
  • Não deixar de procurar a luz no meio das trevas que muitas vezes carregamos no coração e que vemos à nossa volta.
  • Erguei os olhos do chão, não para fugir, mas para vencer a tentação de permanecer no chão dos nossos medos.
  • É aqui que está o perigo: deixar que os nossos medos nos governem.
  • Olhai para cima, levantai-vos! Já fiz eco deste convite na Mensagem que vos dediquei, queridos jovens, para a caminhada deste ano.

“Esta é a tarefa mais árdua, mas também a mais fascinante:

  • levantar-se quando tudo parece estar a desmoronar-se;
  • ser sentinelas capazes de ver a luz durante as visões nocturnas;
  • ser construtores entre os escombros — há tantos neste mundo, hoje, tantos — para poder sonhar.

E esta é a chave para mim:

  • um jovem que não é capaz de sonhar, coitadinho… envelheceu antes do tempo!
  • Quem sonha não se deixa engolir pela noite, mas acende uma chama, uma luz de esperança que anuncia o dia seguinte.

Sonhai. Sonhar é estar vivo e olhar para o futuro com coragem.

“(…) Muitos dos vossos sonhos correspondem aos do Evangelho. Fraternidade, solidariedade, justiça, paz são os sonhos de Jesus para a humanidade. Não tenhais medo de conhecer Jesus. Ele ama os vossos sonhos e ajuda-vos a realizá-los. O cardeal Martini disse que a Igreja e a sociedade precisam de sonhadores que nos mantenham abertos às surpresas do Espírito Santo. É isso mesmo! Desejo que sejais um desses sonhadores!”

 

 

3. A segunda imagem vem da própria celebração desse Domingo:

“Cristo Rei, com todos os equívocos que, ao longo dos séculos, lhe foram impostos.

  • Jesus Cristo foi preso, acusado, interrogado, ridicularizado, condenado à morte e crucificado pela coligação de Herodes e Pôncio Pilatos, pelas nações pagãs e os povos de Israel.

Segundo uma das interpretações aberrantes e de mais sucesso,

  • todos esses actores estavam, no fundo, a executar uma peça urdida por um deus autocentrado:
  • teria sido infinitamente ofendida a sua dignidade divina
  • e para a reparar, era preciso uma vítima humana de alcance divino.”

O Papa recusou esse caminho porque esse não era o seu Deus nem o seu Cristo. Recuperou, no entanto, a afirmação da identidade de Jesus perante Pilatos:

  • “Eu sou rei. Mas o seu reinado não é para oprimir, para fazer escravos.
  • É para servir a liberdade, ajustiça e o amor de todos para com todos.
  • Esta determinação, coragem e liberdade impressiona. Nem Deus nem Cristo reinam pela força. Não têm exército.
  • Eu sou rei, mas deste reino do amor. Eu sou rei, do reino de quem dá a própria vida pela salvação dos outros, de todos.”

Na homilia, Bergoglio não sepultou os textos bíblicos. Fez deles uma luz para iniciar os caminhos da Jornada Mundial da Juventude, mas é das novas experiências dos caminhos que nascerá a luz da esperança.

 

 

Frei Bento Domingues

in Público, 28.11.2021

Fonte: https://www.publico.pt/2021/11/28/opiniao/opiniao/repetir-novo-testamento-sepultalo-1986628

 

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