9º Suicídio Sacerdotal de 2021. Até quando?

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Padre Simeão do Espírito Santo –

Na Foto: José Alves de Carvalho / DAQUI

Não sei mais o que escrever, não sei mais como exprimir a dor que eu sinto quando recebo a notícia de suicídio de mais um padre. Rezar e escrever me ajudam, mas ainda não é o suficiente…

Estamos no início de Novembro, e o suicídio do Padre José Alves é o nono padre suicida este ano…

 

Cada sacerdote que tirou sua vida esse ano tinha um rosto, uma história, um sofrimento, uma dor, uma vocação, um sonho.

  • O que lhes faltava?
  • O que não foi feito por estes irmãos? Onde erramos?
  • Até onde vai a responsabilidade pessoal?
  • Há uma responsabilidade eclesial?
  • Por que os padres estão se assassinando?
  • Quantos mais precisarão morrer para a igreja católica no Brasil acordar?
  • Por que continuamos inertes, indiferentes e omissos?

Os suicídios sacerdotais em série, no Brasil, revelam em parte, a doença, a ineficiência e a hipocrisia da estrutura clerical.

A Diocese de Bom Jesus do Gurguéia, havia recebido uma acusação contra o Padre José. O teor da denúncia era de abuso sexual com menor. Nada foi comprovado. O padre foi suspenso de ordens “Ad cautelam”no último dia 6, através de um decreto.

Sim,

  • sabemos que após centenas de casos de pedofilias no mundo, desde o Papa Bento XVI, e agora com o Papa Francisco,
  • a cultura do silêncio está sendo quebrada, e as orientações são muito claras.

O bispo da Diocese pode ter aplicado a lei pela lei, e apenas com a denúncia da acusação (ainda que não tenha sido provada), o padre tenha sido suspenso.

Irmãos padres, qualquer sacerdote, pode passar por isso. Qualquer denúncia, mesmo sem prova, chegando ao bispo diocesano, pode acarretar na mesma suspensão recebida pelo Padre José.

  • Penso em irmãos que eu conheci, que foram suspensos sem poderem fazer absolutamente nada.
  • Irmãos que eram e sempre foram inocentes.
  • Temos um caso, de suicídio, aqui no Brasil, de um religioso, em 2013, que sendo acusado injustamente, não conseguiu suportar o peso de tal sofrimento, e se enforcou no quarto com o próprio cíngulo.

Quantos de nós fomos acusados levianamente!?

O Padre José foi encontrado morto, em sua casa paroquial, no último Domingo. Pergunto-me:

  • A Diocese ou Pastoral Presbiteral estava cuidando dele após a suspensão?
  • Se ele não podia mais celebrar por que ficou sozinho na casa?

Há algum acompanhamento jurídico, psicológico, espiritual, episcopal ou presbiteral para os padres que são suspensos “ad cautelam”?

Antes, da sua morte, Padre José, escreveu em suas redes sociais: “Eu Amo a Igreja”.

Ah, padre irmão, eu entendo sua afirmação. Escutamos isso no tempo todo do seminário, né?

  • Amamos a igreja, padre;
  • mas a grande verdade é que a igreja não nos ama.
  • O único que nos ama é o Cristo, Cabeça e Esposo da Igreja.

Na vida de todo padre, há de chegar um momento em que ele ficará sozinho. Teremos apenas Jesus! E, mesmo, Ele nos bastando, ao sermos abandonados, esquecidos, e alguns de nós, caluniados e acusados por bispos, padres e leigos, precisaremos pensar em nós mesmos.

O suicídio não vale como martírio, irmãos padres! Sei, porque escuto, que muitos padres pensam em tirar a própria vida.

  • Em um país latino-americano aqui vizinho, padres estão tirando a vida em grupo;
  • mas essa não é a resposta. Esse não é o caminho!

Faço uma confissão pública:

  • Quando em um momento de extremo sofrimento, há uns três ou quatro anos atrás, quando eu pedi um tempo de afastamento do exercício do ministério,
  • e tive também o pensamento de morte na cabeça, eu cheguei a seguinte conclusão:

“É melhor um sacerdote vivo do que um padre morto”. Sacerdote sempre seremos, exercendo ou não. Padre é outra história…

 

Por favor, irmãos padres, pensem em vocês! Parem de pensar na igreja, em primeiro lugar.

  • Na estrutura da igreja romana no Brasil, não existe tempo nem prioridade para o cuidado sacerdotal.
  • Somos empresários e empregados de batina.

Não é suficiente amar a Igreja. Apenas isso não é possível para continuar vivo diante dos inúmeros desafios sacerdotais que este tempo nos impõe.

O máximo que a igreja consegue fazer é rezar por nós.

  • Ela dificilmente acolhe, raramente escuta, não sabe cuidar, não tem tempo para amar.
  • Não nos procura como filhos, dificilmente a igreja vai te ajudar.
  • Ela se comunica conosco por decretos, papéis, provisões e excomunhões.

Os bispos já nos trocam de paróquia pelo Whatsapp e telefonemas.

  • Os padres viraram funcionários das mitras diocesanas.
  • São conhecidos pelos números dos CNPJ das paróquias que administram.
  • Para os senhores só chegarão os boletos das mitras, os envelopes das campanhas da CNBB e o número da conta do bispo para as espórtulas das crismas…

O que vale a vida e a história de um padre?  O que está escrito no Código de Direito Canônico! Ele vale mais que o Evangelho. Ele é punitivo. O último cânone nunca é aplicado na vida do padre!

Padre irmão que ainda não se suicidou, continue amando a Igreja; mas por favor, se ame, primeiro.

Se alguma coisa acontecer contigo, justa ou injustamente, você tem grande chance de ser descartado através de um decreto frio e impessoal.

  • Ame a Jesus! Converse com Ele! Não espere o bispo te perguntar como está.
  • Não crie expectativa sobre a fraternidade sacerdotal.
  • Ela existe, na maioria do clero, só no papel.
  • Ame-se! Se ame primeiro. Ame-se antes de amar os superiores e os irmãos padres.

Lembre-se, que haverá um momento que será só você e Ele. Todos te deixarão.

As acusações e o que podem colocar de ti nas redes, possivelmente, valerão mais do que tudo que Deus lhe deu a graça de realizar fielmente em todos os teus anos de ministério. Os conselhos presbiterais não te conhecem. Para a grande parte deles, você já está até morto…

Ah, irmão padre, não se mate. Não seja o décimo da lista de 2021!

  • Você sabe que nenhum dos ordinários locais dos outros nove falaram nada?
  • Se você se matar, no outro dia, alguém vai ser mandado para o teu lugar. Você será lembrado apenas nas missas em que alguém colocar teu nome nas intenções.
  • Com alguns dias, o Instagran e o Facebook não mais falarão de ti.

Foi assim com o Padre Ruben, Adriano Henrique, Milton, Marco Antônio, Mauro Jorge…e todos esse ano, e todos celebraram, usaram casulas, absolveram pecados, batizaram, assistiram casamentos.

Padre, não seja o décimo…peça férias, pede um ano sabático.

  • Vai para a casa dos teus pais. Deixe a paróquia. Você não vai morrer de fome. Eu sou testemunha disso.
  • Pede transferência de paróquia ou diocese. Busque a vida religiosa ou se incardine em uma diocese.
  • Mude de rito, de tradição. Mude de país. Vai fazer missão, mas não se mate. Nada vai adiantar com a tua morte.

Para alguns bispos, vai ser apenas menos um ‘problema’.

A maior parte dos padres nem vão se lembrar de ti quando teu nome for retirado do anuário ou do site da diocese.

  • Padre, por favor, não se mate por amor à Igreja. Essa igreja não merece nossa morte.
  • Ela precisa de nossa vida, ainda que escondida e insignificante para o alto clero.
  • Não diga sim aos homens, diga sim à Deus! Mude de Estado ou até de estado de vida; mas por favor, não se mate.

O Papa Francisco nunca saberá a verdade. A Nunciatura não vai te ajudar. Se um dia a CNBB fizer algo pensando nos potenciais padres suicidas, o senhor vai ser somente um número do passado. Se ame, padre!

Padre, procure ajuda.

  • Se teu bispo não te ajudar, ligue para um padre. Vai até um confessor, procure um diretor. Vai até o médico, padre.
  • Começa, por favor, uma terapia. Temos muitos padres e consagrados psicólogos.
  • Reze, padre; mas se ame. Se alimente, se divirta, durma, diminua a marcha.

Não espere ajuda fora.

  • Primeiro, comece em ti. Mude por dentro. Ame sua humanidade e o ministério sacerdotal. Grite, irmão.
  • Pare. Deixe o celular e vá rezar. Leia, padre. Confesse, padre.

Vai ao hospital e brinca com as crianças, visita os casais, escute os idosos, fica diante do sacrário. Não se mate. Não compre remédios nem cordas.

Não coloque fim na sua vida antes do tempo. O Bom Pastor te quer vivo. E, lembra da oração:

“Na hora da morte, chamai-me, e mandai-me ir à Vossa Presença”.

Não vá antes da hora, não antecipe nem um só dia. Precisamos de Ti. Ele te ama! Ele te amou e sempre te amará.

E, se um dia, eu tiver um lugar aqui para te acolher, vem ficar comigo. Prometo cuidar de ti, com irmãos que te acolherão e te amarão.

Não se mate, padre, Não seja o décimo, por favor!

Nossa Senhora, coloca a mão nesta lista e cancela ela, por favor. Maria, Mãe dos Sacerdotes, rasgue essa lista dos padres suicidas no Brasil. Agora, e até a hora da nossa morte. Amém!

 

Padre Simeão do Espírito Santo
LEIA MAIS:

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O DECRETO DIOCESANO:

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A NOTA DE ESCLARECIMENTO DA DIOCESE:

A Diocese de Bom Jesus do Gurguéia, na pessoa de seu Bispo, Dom Marcos Antonio Tavoni, comunica que recebeu, consternada a denúncia de abuso sexual de menor, supostamente, cometido por Padre da Diocese de Bom Jesus. E que a Diocese diante dos fatos divulgados em mídia, causa de escândalos dos fiéis, tem a informar:

  1. O Padre colocado em evidência, não foi, ainda, notificado pela justiça, não tem conhecimento oficial das acusações que, no momento, pesam sobre ele e que são divulgadas pela imprensa. Portanto, responderá no momento certo à Justiça, dando satisfação à sociedade;
  2. Uma Comissão interna da Diocese formada por peritos, profissionais relacionados ao assunto, será instaurada para o acompanhamento do Processo Canônico, investigativo e assistência à família envolvida.
  3. A Diocese se colocará sempre ao lado da justiça, colaborando com as autoridades civis na elucidação do caso, para o bem da suposta vítima, do sacerdote em questão, dos demais envolvidos e da própria Igreja.
  4. O Sacerdote em questão será suspenso do Uso de Ordens “Ad cautelam”, ou seja, fica suspenso o exercício de seu ministério, por cautela, até o final das investigações e a conclusão do veredicto.
  5. A Nunciatura Apostólica será comunicada oficialmente, para o acompanhamento do caso e para encaminhamento dos desfechos.
  6. Devemos orar, pela solução do caso, na justiça e na caridade e orar, em especial, pela santificação do Clero.

Dom Marcos lamentou muitíssimo a repercussão dos fatos e manifesta toda sua solidariedade com o sofrimento dos envolvidos:

“Sinto e sofro, com a família envolvida, a dor de todos, principalmente, dos pais; pois como Bispo, cada padre é para mim como verdadeiro filho e nenhum pai quer que o filho se perca”, concluiu o Bispo.

Decreto Diocesano Suspensão de Ordem (Capa)

(PASCOM – Bom Jesus-PI)

Fonte: https://diocesedebomjesus.org.br/

 

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O bispo diocesano Marcos Antonio Tavoni – Foto: Reprodução

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