Qual igreja virá? Artigo de Giovanni Giavini

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“Gostaria de uma Igreja nos caminhos da Evangelii gaudium e de outros escritos do Papa Francisco, sobre os quais caminhamos num ‘já e ‘ainda não’, em busca de novos equilíbrios entre bens e aspectos da vida”, escreve o biblista e  padre italiano Giovanni Giavini, ex-capelão de Sua Santidade, durante o pontificado de João Paulo II, em artigo publicado por Settimana News, 14-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Tento responder à pergunta que vem tanto de cima como de baixo: como poderá ser a Igreja do amanhã, ainda que a previsão seja muito difícil e a resposta só possa ser provável e parcial.

Cada um pode pensar livremente e podemos discutir sobre isso. A Igreja do amanhã, eu a imagino assim.

Menos sacramental:

  • veja a suspensão da missa festiva tradicional com as suas várias consequências e das missas para funerais na época do Covid,
  • o desaparecimento das filas nos confessionários, etc.

E, no entanto, continuamos em frente do mesmo jeito, com a fé e com outras formas e iniciativas.

Vejamos as igrejas nas missões: apenas uma missa de vez em quando!

Pensemos também nas igrejas apostólicas primitivas:

  • nos Evangelhos e em São Paulo, quanto se fala dos sacramentos? Muito pouco.
  • Talvez certa virada enfática ocorreu com Santo Ambrósio e depois com outros Padres da Igreja,
  • em detrimento da escuta da Palavra e da caridade?

É possível.

A reavaliação da liturgia da Palavra na Santa Missa é boa:

  • Papa Bento XVI considera a leitura da Bíblia quase um sacramento,
  • especialmente durante a Santa Missa, onde também se torna uma importante catequese para todos.

Por outro lado, um caso a ser totalmente repensado é a iniciação aos sacramentos:

  • o que ela se tornou apesar de todas as tentativas de reforma?
  • O que são determinados batismos, confirmações, primeiras comunhões?

No que diz respeito à Santa Missa,

  • é necessário ressaltar mais o aspecto de memorial vivo de um grande amor,
  • do que o do sacrifício oferecido ao Pai:
  • quem acrescentou o termo “sacrifício” às palavras da consagração?

Palavra que, quando aplicada a Jesus, é muito rara em todo o NT; aqui predomina o “para vós, a vós”(ou seja, em primeiro lugar, para “anjinhos” como Judas, Pedro e todos os 12 em busca dos primeiros lugares!). Sacrifício sim, mas antes de tudo como oferta do Pai e de Jesus ao mundo pecador!

Menos moralista (espaço em demasia para a moral sexual!),

  • mais orientada e centrada no querigma-anúncio evangélico-pascal fundamental
  • e sobre as suas consequências para a vida humana terrena e eterna,
  • sobre pecado e salvação, sobre caridade como centro e sentido das outras virtudes.

Menos devocional, também menos mariana (talvez). Uma nova evangelização, portanto, favorecida também pelos novos meios de comunicação social, instrumentos novos que a Providência nos oferece através da ciência e da tecnologia.

Menos clerical: à parte as razões teológico-eclesiais (e, infelizmente, também os escândalos recentes),

  • nós, padres, seremos cada vez menos,
  • portanto teremos mais necessidade de leigos e de mulheres – e de casais –
  • bem dispostos e formados para a colaboração e a corresponsabilidade.

Eu poderia dizer algo sobre as mulheres nos ministérios eclesiais …

  • As mulheres já são sacerdotes/tizas para o batismo, não pastores-presbíteros-epíscopos-presidentes, diáconos; uma mulher não tem carismas e dons para se tornar um?
  • Pensemos no papel que as abadessas desempenharam na história.
  • Hoje temos mulheres à frente de empresas e estados e, às vezes, até de comunidades cristãs …

O mesmo vale para eventuais probi viri para o ministério presbiteral. Por quanto tempo poderemos deixar algumas igrejas sem a Eucaristia por falta de padres celibatários?

Menos milagrosa

  • e mais disposta às surpresas da misteriosa Providência, mais em busca da “Graça do que das graças”,
  • até porque, na luta contra o Covid, a ciência e a vacina se mostraram mais eficazes do que tantas de nossas maratonas de terços e orações várias (embora válidas também, pelo amor de Deus!).

Na oração poderíamos pedir com mais insistência o dom milagroso da assistência aos doentes (como, de fato, aconteceu).

Menos politizada,

  • mais “religiosa” (oração!) e mais “serva” por amor ao seu Senhor e ao homem;
  • mais livre de empenhos organizacionais e administrativos, que pesam especialmente sobre os párocos.

Menos católica e mais das e com as pessoas,

Uma Igreja ainda mais global em um mundo já muito globalizado (também por causa da pandemia).

Menos ligada a leis, preceitos e normas de todo tipo

  •  e mais aberta à voz das consciências e ao vento do Espírito (atentos ao desenvolvimento das Igrejas pentecostais católicas e não),
  • menos centralizada e mais sinodal

(verdadeiramente sinodal, e não apenas em certos aspectos e momentos, aqui também o Papa Francisco merece algumas críticas: às vezes parece agir mais por iniciativa pessoal do que de forma sinodal).

Menos preocupada com o 0,8 por mil (a taxa dos impostos destinada às igrejas, segundo a legislação italiana, o que, por enquanto, nos convém), mais aberta aos pobres, seus e da sociedade humana.

 

Em suma, gostaria de uma Igreja nos caminhos da Evangelii gaudium e de outros escritos do Papa Francisco, sobre os quais

  • caminhamos num “já e não ainda”,
  • em busca de novos equilíbrios entre bens e aspectos da vida

(cf. o excelente artigo da revista dos jesuítas Civiltà Cattolica nº 4101 – “Desafios contemporâneos do catolicismo global” de Thomas P. Rausch – e os artigos de Gabriele Ferrari e Vinicio Albanesi na SettimanaNews).

Seria bom discutir tudo isso juntos, como já fiz com alguns coirmãos. Vamos entrar em contato, mesmo que apenas por escrito.

 

Don Giavini: Ecco il mio testamento - SettimanaNews

 

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Giovanni Giavini

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/613698-qual-igreja-vira-artigo-de-giovanni-giavini

 

 

 

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

Leia mais:

 

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