“A Igreja foi moldada tanto por uma forte presença de padres homossexuais como por um discurso muito hetero-normativo”

 80% dos padres no Vaticano são gays, afirma jornalista - Guia Gay Floripa

 

Luc Chatel, Le Monde des Religions –  27 de setembro de 2021 – Foto: DAQUI

“Ao sacralizar o padre, a Igreja fez dele um ser separado, degenerado e assexuado”, observa Josselin Tricou. No seu livro “Des soutanes et des hommes” (Batinas e Homens), o sociólogo analisa a masculinidade atípica daqueles que a Igreja Católica coloca no topo de sua hierarquia.

 

Josselin Tricou: "Durante mucho tiempo, la Iglesia ha sido un refugio para homosexuales"

Josselin Tricou – Foto: DAQUI

 Celibato percebido como tóxico,  violências sexuais dentro da Igreja, condenação da homossexualidade, recusa em ordenar mulheres… Durante várias décadas, numerosos motivos foram apresentados para questionar a figura do padre, que não parece ser um homem como os outros.

Professor assistente de sociologia das religiões na Universidade de Lausanne (Suíça), doutor em ciências políticas e estudos de gênero, Josselin Tricou é autor do livro Des soutanes et des hommes. Pesquisa sobre a masculinidade dos padres católicos (PUF, 472 páginas, 23 euros).

Nele analisa esta construção de uma masculinidade atípica do clero feita pela Igreja e as suas consequências, tanto de um ponto de vista histórico e sociológico quanto político.

 

Entrevista.

 

Como nasceu o projeto da sua tese, que acaba de ser publicada, sobre a masculinidade dos padres na Igreja Católica?

Como participante engajado, eu vi crescer dentro do catolicismo, desde antes de 2012 e das grandes mobilizações contra o “casamento para todos”, tensões em torno das questões de gênero, principalmente entre os padres católicos.

Des soutanes et des hommes - Josselin Tricou - Hors collection - Format Physique et Numérique | PUF

Batinas e Homens – Foto: Reprodução

Como sociólogo, um enigma me deixava intrigado: o fato de a Igreja Católica ter instituído um sistema de gênero defasado em relação ao das sociedades que a englobam.

Na verdade, este sistema

  • não inclui dois, mas três gêneros:
  • o homem leigo, a mulher leiga e o clero.

É o que no livro eu chamei de bougé” católico do gênero, usando o termo que em fotografia se refere à imagem intencionalmente desfocada.

Este sistema, no entanto, é paradoxal.

Por um lado,

  • a Igreja Católica desenvolve um discurso naturalizante e binário,
  • segundo o qual há uma natureza masculina e uma natureza feminina, com uma diferença intransponível entre as duas,
  • na base da necessária complementaridade dos sexos e da heterossexualidade.

Por outro lado, ela estabelece uma organização interna totalmente diferente.

Com efeito,

  • a masculinidade que a Igreja coloca no topo da sua hierarquia de gênero, a dos sacerdotes e dos religiosos, é uma construção atípica:
  • ao sacralizar o padre, a Igreja o torna um ser separado, degenerado e dessexualizado.

 

Se a questão da masculinidade na Igreja Católica é essencial para a compreensão da sua doutrina e organização, você salienta que ela raramente foi objeto de estudos aprofundados por historiadores ou por sociólogos do catolicismo. Por que isto não foi pensado?

Em nossas sociedades ocidentais, a masculinidade sempre foi um tema impensado porque era a norma. Como tal, era onipresente, evidente. É o que muito bem demonstraram as pesquisadoras feministas das décadas de 1970 e 1980, notadamente Nicole-Claude Mathieu (1937-2014).

Além disso,

  • enquanto os padres eram levados a sério pela população – em particular porque eram ligados aos notáveis ​​–
  • a sua masculinidade atípica, degenerada e dessexualizada não era suspeitada e, portanto, não era questionada como tal.

Ou melhor,

  • esta construção multissecular é tão poderosa que muitos pesquisadores interessados ​​no catolicismo – do qual  além disso muitas vezes provinham –
  • tinham-na  eles mesmos interiorizado.

Mas creio que há também uma explicação ligada à estruturação do campo acadêmico: 

os recentes estudos sobre gênero e sexualidade se desenvolveram  à distância das pesquisas sobre religiões, mais antigas e legítimas, embora em declínio.

Consequentemente houve, e sem dúvida ainda há,  apreensões de ambos os lados.

  • Muitos estudiosos de religião consideravam as elaborações emergentes de gênero muito militantes,
  • enquanto que nos estudos de gênero havia uma percepção da religião como sendo conservadora e oposta aos valores que os fundamentam.

 

Você sublinha o fato de que a Igreja Católica, apesar de um discurso de condenação, ter sido por muito tempo uma espécie de refúgio para os  homossexuais …

  • Ao estabelecer esse “bougé” do gênero
  • e a ideia de que os fiéis estão destinados  seja ao casamento heterossexual seja à vida consagrada no celibato,
  • a Igreja Católica restringiu o horizonte das possibilidades para homens e mulheres que não se sentem atraídos pelo casamento heterossexual: ou o sacerdócio ou a vida religiosa.

Dito isso, o clero poderia ser em determinados lugares e em determinados momentos um espaço protetor num mundo marcado por uma homofobia generalizada.

Paradoxalmente, podemos até dizer que

  • a Igreja soube estabelecer um sistema de acompanhamento e cuidado de si, como diria Michel Foucault,
  • quase libertador para aqueles a que eu chamo de “os sexualizados de outra forma”.

“Paradoxalmente, o clero poderia ser um espaço protetor num mundo marcado por uma homofobia generalizada”.

Este dispositivo passa notadamente pela direção de consciência (Também chamada de Direção Espiritual – NdR).

  • O diretor de consciência é aquele que te ouve e te orienta, e que está obrigado a guardar segredo.
  • Para certo número de seminaristas e de jovens religiosos, o compartilhamento com o diretor de consciência
  • era um espaço onde podiam dizer seus desejos, até mesmo suas práticas, sem risco de retaliação.

Vale sublinhar também que,

  • para muitos padres e religiosos, o fato de serem homossexuais,
  • se conseguem verbalizá-lo, não parece tão grave em si,
  • pois é à abstinência – à ausência  de sexualidade –  que a Igreja católica os obriga, seja qual for a sua orientação sexual.

 

L'Eglise a été façonnée à la fois par une forte présence de prêtres homosexuels et par un discours très hétéronormatif »

Ao sacralizar o padre, a Igreja o torna um ser separado, degenerado e dessexualizado. Foto: DAQUI

 

Uma das condições que permitiu que este sistema se mantivesse é a obrigação de estes padres e religiosos silenciarem sobre a sua homossexualidade, escreveu você . E, a este respeito, você utiliza a metáfora do “armário”…

Eu tomei emprestada esta metáfora

  • da cultura das lésbicas, dos gays, dos bissexuais, dos transgêneros, dos ‘queer’, dos intersexuados (LGBTQI)
  • para quem “estar no armário” significa, para gays e lésbicas,
  • amoldar-se na presunção da heterossexualidade que pesa sobre todos
  • para se proteger da homofobia ambiente.

O que pressupõe discrição e dissimulação.

A Igreja, portanto, foi moldada durante séculos por uma forte presença de padres homossexuais e por um discurso muito heteronormativo.

Os padres homossexuais organizaram a sua vida neste espaço de relativa proteção e realização, e às vezes até de promoção social, que a sociedade não lhes teria oferecido.

Da mesma forma,

  • os conventos de freiras foram no século 19 locais de realização para mulheres
  • que queriam escapar do casamento heterossexual, da dominação masculina dentro do casal ou da maternidade.

Elas podiam até ter acesso a responsabilidades que nunca teriam na sociedade, como tornarem-se diretoras de escolas ou missionárias na África.

Houve para as pessoas homossexuais dentro do clero, uma forma de emancipação paradoxal, para retomar o conceito proposto pelo historiador Claude Langlois  a respeito  das religiosas.

Como explicar então o vigor  do discurso de denúncia da homossexualidade da Igreja Católica nos últimos anos?

À medida que a Igreja perdeu o controle sobre as sociedades na Europa,

  • houve dentro dela todo um movimento de reação a partir dos anos 1970-1980
  • que se focou nas questões de gênero e de sexualidade,
  • o último domínio em que a norma secular ainda copiava a norma religiosa.

No fundo, trata-se de uma tentativa desesperada de parar o movimento de secularização das normas de gênero e de sexualidade, a fim de manter as condições de plausibilidade do discurso religioso.

Mas, sempre sem admitir isso para si mesmas,

  • as autoridades eclesiais também tiveram receio da possível “saída do armário” de seus padres,
  • num mundo onde a norma se afasta irremediavelmente do discurso religioso.

Um mundo onde agora uma pessoa pode, sob certas condições, declarar-se publicamente homossexual e onde existe certa cultura gay legítima.

Um dos objetivos da cruzada anti-gênero lançada pelo Vaticano é, na minha  opinião, silenciar os seus padres e religiosos homossexuais para que não se saiba publicamente que o sacerdócio também serve de armário.

Isso era ainda mais necessário porque,

  • a partir da década de 1960, o padre perdeu a sua notoriedade,  que favorecia o recrutamento maciço e popular,
  • e também porque, desde a década de 1970, muitos padres e religiosos heterossexuais atraídos pelo casamento abandonaram a Igreja.

A função de “armário” continua sendo, portanto,

  • um dos últimos mecanismos sociais de atração do sacerdócio que ainda funciona,
  • particularmente nos círculos burgueses conservadores onde ainda é impossível para um jovem gay pensar em assumir-se como tal.

Mas hoje o “armário eclesial” está em crise. Tornou-se transparente aos olhos dos próprios clérigos assim como de alguns fiéis.

Assim,

  • padres e religiosos que encontrei durante a minha investigação evocaram longamente estes perfis de padres de batina
  • que eram conhecidos no mundo clerical como “grandes loucas de sacristia”, para usar a expressão usada neste meio,
  • e que iam gritar slogans homofóbicos nos desfiles de La Manif pour tous1.

 

Na sua opinião, os movimentos de oposição ao casamento para todos teriam sido encorajados pela Igreja não por questões de moralidade, mas de organização da instituição …

Pelos dois motivos, na verdade, e isto não é incompatível. De fato,

  • o que muitos dos observadores de La Manif pour tous não viram,
  • é que o extraordinário sucesso desse movimento
  • provinha também do fato de que ele respondia a problemáticas internas da Igreja Católica.

A Manif  pour tous e o clima que ela instaurou dentro do catolicismo exerceram de fato uma pressão muito forte sobre os padres e religiosos homossexuais.

Esta pressão era tanto mais eficaz, graças à mobilização dos fiéis,

  • porque ela era exercida por aqueles que estes padres têm obrigação de instruir e de orientar no dia a dia – e não por seus superiores hierárquicos –
  • forçando-os a adotar posturas de hipervigilância e de hipercorreção doutrinária.

Só o acúmulo de escândalos acerca da pedocriminalidade clerical que se seguiu a esta sequência, em particular o processo Preynat-Barbarin em Lyon,

  • é que fez diminuir esta pressão conservadora,
  • que de outra forma poderia constranger a Igreja da França por muito tempo.

Fiz uma pesquisa durante dois anos por conta da comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja.

Dada a amplitude  do fenômeno,

  • nem a instituição nem qualquer grupo de pressão católico podem se permitir dar lições de moral sexual às pessoas LGBTQI,
  • como fizeram o episcopado e La Manif pour tous durante as mobilizações de 2012-2013.
  • E, principalmente, não em nome da proteção da infância.

Muitos fiéis tomaram consciência dessa enésima perda de credibilidade e hoje exigem responsabilidade e mais humildade da sua Igreja. Certas questões “escanteadas” como “progressistas” pelo  pólo conservador tornam a ser repostas a partir de zero – a da ordenação das mulheres, por exemplo.

O fato é que a Igreja Católica, especialmente em comparação com as Igrejas Protestantes, fez do seu sistema tão particular de gênero um de seus pontos-chave e tem dificuldade em imaginar-se de outra forma.

 

“Batinas e homens”

É a uma formidável  exploração  que o sociólogo Josselin Tricou nos convida neste livro, resultado de um projeto de pesquisa de dez anos sobre

“a subjetivação de gênero e as políticas de masculinidade dentro do clero católico francês desde a década de 1980”.

Um tema que, segundo as suas palavras, “desperta ao mesmo tempo embaraços no interior e fantasmas no exterior”.

Embaraços,

  • porque esse tema coincide com o da homossexualidade na Igreja Católica,
  • ao mesmo tempo super-representada e objeto de incentivos ao silêncio.

Daí a vontade de todos os sacerdotes, religiosos e seminaristas citados (exceto um) de permanecer anônimos.

Sem dúvida, a sua experiência passada de religioso ajudou Josselin Tricou a obter estes testemunhos inéditos.

Fantasmas,

porque este assunto suscitou até então,  entre observadores externos,

  • operações espetaculares  de “outing2
  • e teorias acerca de  supostos “lobbies gays” católicos (ver o livro Sodoma, de Frédéric Martel, Robert Laffont, 2019).

Josselin Tricou dá-nos as chaves para a compreensão desta construção pela Igreja de uma masculinidade atípica do clero e as das suas consequências, tanto do ponto de vista histórico e sociológico como do político.

“Des soutanes et des hommes”, de Josselin Tricou (PUF, 472 páginas, 23 euros).

 

Luc CHATEL (MARTIN BRÉSIS) (https://saintetienne2020.wordpress.com/) - Viadeo

Luc Chatel

Fonte: https://www.lemonde.fr/le-monde-des-religions/article/2021/09/26/l-eglise-a-ete-faconnee-a-la-fois-par-une-forte-presence-de-pretres-homosexuels-et-par-un-discours-tres-heteronormatif_6096064_6038514.html

 

Notas: 

1 ‘La manif pour tous’ (LMPT – «a manifestação para todos») é o principal grupo de associações  que organizou as maiores manifestações de oposição ao casamento homossexual na França (comumente conhecido naquele país como mariage pour tous).  Junto com a Primavera francesa, este grupo de associações representa a expressão mais visível desta oposição.

De fato, desde a promulgação da lei em maio de 2016, as reivindicações do grupo se expandiram

  • da oposição ao casamento homossexual e homoparentalidade (adoção, reprodução assistida, barriga de aluguel),
  • à defesa da família tradicional e à rejeição do ensino de a chamada «teoria do gênero» .

Descrito por diversos meios de comunicação como vinculado à Igreja Católica e ancorado na direita e extrema direita francesas,

  • o grupo se apresentou como apolítico e não confessional,
  • antes de se tornar um partido político em abril de 2015.12

Vítima de divisões internas, com o sucessivas saídas de Béatrice Bourges, Frigide Barjot e Xavier Bongibault, o Manif pour tous tem sido criticado por homofobia, racismo e instrumentalização das crianças. (Wikipedia).

2 Outing– revelação da homossexualidade.

 

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