“O neoliberalismo como filosofia hegemônica está morto”. Entrevista com Nancy Fraser

O que são o liberalismo e o neoliberalismo? - Portal de Educação do Instituto Claro

 

Florencia Angilletta – 28 Setembro 2021 – Imagem: DAQUI

Nascida em 1947, em Baltimore, e professora da New School de Nova York, NancyFraser mantém diálogos críticos com JudithButler sobre as políticas de identidade e de classe. Entre suas publicações, destacam-se Dominación y emancipación, com LucBoltanski (CapitalIntelectual),  Contrahegemoníaya  (SigloXXI) e Capitalismo em debateuma conversa na teoria crítica, junto com RahelJaeggi  (Boitempo).

Suas pesquisas giram em torno da problematização da sociedade e natureza, produção e reprodução, economia e política. Formada com JürgenHabermas, coloca em questão o “público” e realiza diagnósticos sobre as intersecções entre as formasde produção e as de organizaçãosocial.

A entrevista é de FlorenciaAngilletta, publicada por Le Monde Diplomatique e reproduzida por Rebelión, 27-09-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Com a pandemia, ocorre certo paradoxo entre a igualdade (todas as pessoas são vulneráveis ao vírus) e a diferença (as pessoas podem se proteger de acordo com o capital que dispõem), atravessada pela gestão estatal que oscila entre a volta do Estado (como marco normativo e institucional) e a crise do Estado (os Estados estão limitados pela distribuição geopolítica das vacinas).

De que modo é possível continuar pensando sobre a desigualdade estrutural e a intervenção estatal?

Nancy Fraser | The New School for Social Research

Nancy Fraser / New School

É uma excelente pergunta e começarei minha resposta dizendo que vejo a Covid-19 como uma tempestade perfeita de irracionalidade e injustiça capitalista.

pandemia é o ponto no qual convergem todas as falhas e contradições do sistema, incluídas as que você menciona. Muitas vezes se diz, e com razão, que

  • vírus serviu como diagnóstico perverso,
  • ao iluminar todas as lacunas de nossa sociedade.

Mas não ouvimos falar o suficiente

  • acerca do sistema social que gera essas lacunas, ainda que seja o mesmo sistema que nos trouxe o vírus, em primeiro lugar,
  • e que está bloqueando nossos esforços para enfrentá-lo.

Sendo assim, quero insistir nesse ponto: o que a pandemia diagnostica, na realidade, é a disfuncionalidade  profundamente arraigada do capitalismo.

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Para ver o motivo, consideremos de onde veio o vírus.

Ocorre que o SARSCoV2, há muito tempo, estava abrigado em cavernas remotas, sem efeitos nocivos para o ser humano. No entanto, recentemente, o vírus passou para uma espécie intermediária e depois para nós. Então,

  • o que causou esta transferência zoonótica”?
  • O que aconteceu para que os morcegos entrem em contato com a espécie intermediária e depois conosco?

Duas coisas, ambas resultado direto do capitalismo:

 

Juntos, esses dois processos forçaram inúmeros organismos a sair de seus habitats naturais e a entrar em outros novos, onde começaram a interagir com espécies que nunca antes tinham encontrado, incluindo algumas que estão em contato conosco. 

  • O resultado foi uma série de epidemias virais entre os humanos, não “só” Covid19, mas também AIDSEbola,   SARS e MERS.
  • Podemos estar certos de que virão mais, graças à persistência das mudançasclimáticas e o desmatamento, que são impelidos implacavelmente pelo desenvolvimento capitalista.

 

De fato, o sistema capitalista está desenhado para destruir o planeta.

  • Incentiva as empresas a que se apropriem da riqueza biofísica da forma mais rápida e barata possível,
  • ao mesmo tempo em que as exime da responsabilidade de reparar o que danificam e repor o que consomem.

Empenhadas em aumentar suas ações e lucros,

  • dizimam as matas tropicais, bombardeiam a atmosfera com gases do efeito estufa
  • e desencadeiam uma cascata crescente de pragas letais.

Em resumo, é o capitalismo que gerou a pandemia, e nos trará muitas outras, a menos que o detenhamos.

 

Agora, vejamos o aspecto que você mencionou, ou seja, o Estado.

  • O que se joga aí é o aspecto político da crise, que convergiu com o aspecto ecológico de um modo que exacerbou ambos e nos colocou em perigo.
  • É verdade, é claro, que a pandemia seria horrível para os seres humanos de qualquer modo.
  • No entanto, foi muito pior devido os 40 anos de financeirização neoliberal que afetaram as capacidades políticas que, de outro modo, teríamos conseguido utilizar para controlar a Covid.

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Durante esse período, “os mercados” exigiram e receberam investimento estatal em massa da privatização da infraestrutura pública.

Isso é verdade para a infraestrutura em geral, e para a infraestrutura de saúde pública em particular.

Salvo algumas exceções,

  • os Estados reduziram as reservas de equipes para salvar vidas,
  • destruíram as capacidades de diagnóstico
  • e reduziram as capacidades de coordenação e tratamento.

E o que acompanhou o desinvestimento estatal foi a privatização.

Além disso, uma vez destruídas as infraestruturas públicas, os governantes transferiram funções sanitárias vitais para provedores e seguradoras, empresas farmacêuticas e fabricantes com fins lucrativos.

 

Essas empresas controlam parte dessas capacidades, incluindo

  • a mão de obra e as matérias-primas,
  • a maquinaria e as instalações de produção,
  • as cadeias de fornecimento e a propriedade intelectual,
  • as instituições de pesquisa e os profissionais.

E centrados somente em seus lucros e no preço de suas ações, importam-se muito pouco com o interesse público.

Os resultados são trágicos, mas não surpreendentes.

  • Um sistema social que submete os assuntos da vida e a morte à “lei do valor”
  • estava estruturalmente preparado, desde o início, para abandonar milhões de pessoas à sua sorte diante da Covid-19.

 

Você também mencionou a desigualdade que ficou muito evidente sob as condições da pandemia. Um dos aspectos que ficou exposto é o racismo estrutural, que impregna todos os aspectos da crise atual.

Em nível global,

  • impacta na vertente ecológica,
  • já que em grande medida  o capital sacia sua sede de “natureza barata”
  • retirando a terra, a energia e a riqueza mineral das populações racializadas, privadas de proteção política e de direitos acionáveis.

Desproporcionalmente vulneráveis aos resíduos tóxicos, às “catástrofes naturais” e aos múltiplos impactos letais do aquecimento global, agora, estão no fim da fila da vacinação.

Enquanto isso, em nível nacional, durante muito tempo

  • foi negado às comunidades migrantes e BIPOC[em inglês, negras, indígenas e de cor] o acesso às condições que promovem a saúde:
  • acesso a um atendimento médico de alta qualidade, água limpa, alimentos nutritivos, condições de trabalho e de vida seguras.

 

Não causa estranhamento, portanto, que seus membros se infectem e morram de forma desproporcional por causa da Covid.

As razões não são misteriosas:

  • pobreza e atendimento à saúde inferior;
  • condições de saúde preexistentes relacionadas ao estresse,
  • desnutrição e exposição a tóxicos;
  • sobrerrepresentação em trabalhos na linha de frente que não podem ser realizados de forma remota;
  • falta de recursos que permitam que rejeitem trabalhos inseguros e de direitos trabalhistas que permitam que tragam proteções;
  • moradias que não permitem o distanciamento social e facilitam a transmissão;
  • acesso reduzido à vacina.

Em conjunto, essas condições ampliam o significado do slogan BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam), fazendo sinergia com sua referência original à violência policial e contribuindo para alimentar os protestos atuais.

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A cor, além disso, está profundamente entrelaçada com a classe, no sistema mundial capitalista em geral e no período atual em particular.

De fato, os dois são inseparáveis, como demonstra a categoria “trabalhador essencial”. Se deixarmos de lado profissões da medicina,

essa denominação abarca

  • trabalhadores agrícolas migrantes,
  • trabalhadores imigrantes dos matadouros e do empacotamento de carne,
  • distribuidores dos depósitos da Amazon,
  • motoristas de UPS (um sistema de envio de pacotes),
  • auxiliares das residências de idosos,
  • limpadores dos hospitais,
  • repositores e caixas dos supermercados,
  • aqueles que entregam comida para levar.

Especialmente perigosos em tempos de Covid, esses trabalhos

  • são em sua maioria mal remunerados,
  • não sindicalizados e precários,
  • desprovidos de auxílios e proteções trabalhistas,
  • sujeitos a uma supervisão intrusiva e aceleração implacável.

Embora exista uma diversidade de pessoas, são ocupados de forma desproporcional por mulheres e pessoas afro-americanas.

 

Em conjunto, esses trabalhos, e aqueles que o desempenham, representam o rosto da classe trabalhadora no capitalismofinanceirizado.

Não se personifica mais

  • na figura do homem branco mineiro, operário da fábrica e trabalhador da construção,
  • mas, ao contrário, essa classe também inclui os trabalhadores e as trabalhadoras de serviços com salários baixos e a grande maioria de cuidadores/as.

Pagos abaixo de seus custos de reprodução, quando são pagos, são expropriados/as e explorados/as.

Covid trouxe à luz também esse sujo segredo.

Ao justapor o caráter essencial do trabalho dessa classe com a subvalorização sistemática que o capital faz dele, a pandemia evidencia outra das principais contradições da sociedade capitalista:

a incapacidade do mercado da força de trabalho em calcular com precisão o valor real do trabalho.

Em geral, a Covid é uma tempestade perfeita de irracionalidade e injustiça capitalista.

Ao aumentar os defeitos inerentes do sistema até o ponto de ruptura,

  • faz brilhar um raio de luz
  • penetrante sobre todas as contradições estruturais de nossa sociedade.

Tirando-as das sombras e expondo-as à luz, a pandemia revela o impulso inerente do capital

  • em canibalizar a natureza até a beira da conflagração planetária,
  • desviar nossas capacidades dos trabalhos verdadeiramente essenciais da reprodução social,
  • eviscerar o poder público a ponto de não poder resolver os problemas gerados pelo sistema,
  • alimentar-se da riqueza e a saúde cada vez piores das pessoas racializadas,
  • não só explorar, mas também expropriar, a classe trabalhadora.

Não poderíamos pedir uma lição melhor de teoria social.

 

Entre as diferentes medidas de isolamento anunciadas pelo governo na Argentina, um das que mais gerou expectativa foi a relacionada às trabalhadoras em casas de família, se poderiam ou não se deslocar até seus locais de trabalho.

Como essa crise e essa pandemia impactam na revalorização do que você chamou de “reprodução social” e o problema das “cadeias globais de cuidado”, junto com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, em ‘Feminismo para os 99%: um manifesto’?

Assim como as outras dimensões da crise,

  • o aspecto de gênero também tem suas raízes no capitalismo,
  • que subvaloriza cronicamente as tarefas de cuidado
  • e fomenta as crises de reprodução social.

Hoje, vemos isso claramente. O mesmo regime neoliberal

  •  que se despojou da infraestrutura dos cuidados públicos,
  • também quebrou os sindicatos e reduziu os salários,
  • forçando a aumentar as horas de trabalho remunerado por lar,
  • inclusive de cuidadores/as principais.

Desse modo, descarregou o trabalho de cuidados nas famílias e nas comunidades justamente no momento em que também estava requisitando as energias sociais que necessitávamos para realizar esse trabalho. O efeito foi uma crise aguda de cuidados, que surgiu inclusive antes da pandemia e que se intensificou.

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Como sabemos,

  • Covid transferiu novas e importantes tarefas de cuidado para as famílias e comunidades,
  • já que o cuidado das crianças e a escolarização foi repassado para os lares das pessoas, durante o confinamento.

A carga recaiu principalmente sobre as mulheres, que continuam realizando a maior parte das tarefas de cuidado não remuneradas.

Não causa estranhamento, portanto,

  • que muitas mulheres empregadas tenham deixado o seu emprego para cuidar de seus filhos/as e outros familiares,
  • enquanto muitas outras foram demitidas por seus empregadores.

Os dois grupos enfrentam importantes perdas de posição e de salário, caso se reincorporem ao trabalho.

Um terceiro grupo,

  • que tem o privilégio de conservar o seu emprego e trabalhar de modo remoto,
  • ao mesmo tempo em que realiza tarefas de cuidado, inclusive de crianças confinadas em casa,
  • levou o multitasking (multi-tarefas – NdR) a novos níveis de loucura.

Um quarto grupo, que inclui tanto mulheres como homens,

  • integra com honra os “trabalhadores essenciais”,
  • ameaça de infecção, junto com o medo de levá-la para casa,
  • para produzir e entregar as coisas que permitem que outros/as se refugiem em seu local.

 

Está claro, portanto, que as tarefas de cuidado

  • se cruzam com a organização do mercado de trabalho,
  • a economia política,
  • cuidado social e os auxílios do Estado.

O problema principal é que a sociedade capitalista nutre uma profunda tendência

  • a se aproveitar da gratuidade do trabalho de cuidados,
  • canibalizar as capacidades de cuidados e o preenchimento das mesmas.

Isso se aplica ao capitalismo em geral. No entanto, o atual capitalismo neoliberal é especialmente predatório nesse aspecto. E a pandemia deixou claro

  • como é importante o trabalho de cuidados,
  • o quanto precisamos dele
  • e como é irracional viver em uma sociedade que não o valoriza.

 

Dois extremos a ser considerados em torno da política e a economia são a dívida e os subsídios. A Argentina, por exemplo, está negociando suas capacidades de pagamento. Por outro lado, neste ano, vimos os anúncios históricos de Joe Biden sobre os subsídios.

Quais são as possibilidades desse capitalismo entre o equilíbrio macroeconômico e a necessidade da economia injetada no bolso?

 

A dívida tem um papel especial no capitalismo neoliberal. Nas formas anteriores, as finanças eram um ramo da economia entre outros. Apoiavam o ramo produtivo, fornecendo créditos que permitiam a inovação e o crescimento. Mas esse não é o caso no neoliberalismo.

Agora, as finanças não são simplesmente um ramo discreto da economia capitalista. Ao contrário, seus tentáculos se estendem por todas as partes da economia. Este é um exemplo disso:

os fabricantes de automóveis, hoje em dia,

  • ganham menos produzindo e vendendo carros
  • do que oferecendo empréstimos aos compradores para que comprem carros.

Em outras palavras, estão no negócio do crédito, que é um negócio mais rentável que o da produção.

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A dívida circula por todo o sistemaeconômico, não só através dos bancos, mas também das empresas, Estados, lares e instituições financeiras mundiais.

  • Falamos de “dívida soberana”, mas é irônico
  • porque são os detentores dos títulos que determinam o que o Estado tem que fazer para que o crédito continue fluindo.

Vimos muitos desses exemplos na crise financeira de 2008,

  • quando a União Europeia soltou a mão da Grécia
  • para agradar os credores.

Essa forma de capitalismo mudou dramaticamente o equilíbrio de poder entre Estados e investidores, corporações e mercados financeiros.

 

Ao mesmo tempo, houve um grande aumento da dívida privada.

  • As famílias trabalhadoras não ganham o suficiente para suportar seus gastos de manutenção por meio de seus salários.
  • Dependem de cartões de crédito, de dívidas estudantis, hipotecas e créditos para o automóvel.

Este é outro traço definidor do capitalismo atual,

  • que não só explora as classes trabalhadoras,
  • mas simultaneamente as expropria através do endividamento.

Pais e mães não podem mais esperar que seus filhos vivam melhor que eles. Ao contrário, em muitos casos, estarão piores. A dívida é uma grande parte dessa história.

 

Você analisou o capitalismo não apenas como um sistema econômico, mas a partir do que chamou de “visão expandida do capitalismo”. As crises que vivemos atualmente não são apenas parte de um sistema econômico.

Como, então, construir horizontes emancipadores?

 

  • capitalismo não é apenas um sistema econômico,
  • é uma forma de organizar a relação do sistema  econômico com outras esferas da sociedade nas quais a economia se apoia.

Organiza a relação da economia com a natureza, com a vida familiar e a reprodução social, e com a esfera política.

Todos esses elementos são suportes necessários ou condições de fundo para uma economia capitalista.

Não pode existir

  • sem o trabalho não remunerado que sustenta os/as trabalhadores/as,
  • os processos naturais que sustentam os sistemas ecológicos e uma grande variedade de bens públicos,
  • incluindo os marcos legais, as forças repressivas, a oferta de dinheiro, a infraestrutura e as comunicações.

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No entanto, a sociedade capitalista institui uma relação perversamente contraditória entre sua economia e esses apoios necessários.

  • Incentiva os capitalistas a canibalizar as próprias condições de fundo
  • das quais dependem para devorar nossas capacidades políticasecológicas e assistenciais.

Por isso, nossa crise atual é sobre tudo.

  • Não é “apenas”uma crise econômica.
  • Também é uma criseecológica, política e de reprodução social.

Não podemos entender o que está acontecendo,

  • a menos que adotemos uma visão ampliada do capitalismo,
  • que problematize a relação da economia com suas condições de fundo não econômicas.

A visão tradicional do capitalismo como sistema econômico não pode esclarecer a situação atual.

 

Em relação à emancipação, devemos ampliar nossa ideia do que conta como luta anticapitalista.

  • Não são apenas as lutas nas fábricas entre os/as trabalhadores/as e patrões/as, ainda que sejam muito importantes.
  • São também as lutas pela educação, moradia digna e saúde pública.

Essas

  • são lutas sobre a reprodução social, que envolvem o setor público e o privado.
  • São lutas sobre a disfunção capitalista, por um novo sistema social,

que repensaria

  • toda a relação entre a sociedade humana e a natureza não humana,
  • entre a produção e a reprodução,
  • entre a economia e a política.

 

Em uma de suas últimas obras, dedicou-se a uma análise das “fronteiras”, e uma das fronteiras em seu trabalho se refere à existente entre os feminismos e a política.

O que ocorre nessa “fronteira”?

 

Desenvolvi essa ideia sobre a luta de fronteiras para tentar me conectar com essa visão ampliada do capitalismo.

Existem lutas não apenas dentro do setor econômico, entre o trabalho e o capital.

Também existem lutas de fronteiras

  • entre o sistema econômico e o Estado, e não só o Estado,
  • mas também sobre capacidades estatais e instituições públicas.

Algumas dessas lutas ocorrem em diferentes níveis. O caso da produção e a reprodução é de especial interesse para o feminismo porque tem a ver com fronteiras de gênero.

Historicamente, a reprodução era uma esfera feminina e a produção uma esfera masculina.

Hoje em dia,

  • isso não está delimitado de modo tão claro
  • e como as mulheres entraram em massa no mercado de trabalho remunerado,
  • possuem duplo turno de trabalho.

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Por que as mulheres, hoje em dia, em muitos países, estão à frente nesta luta de fronteiras sobre a reprodução social?

  • As mulheres que ensinam não lutam apenas por melhores salários, mais aulas e mais recursos para as escolas.
  • Estão se alinhando com os pais e mães que têm trabalhos em outros setores e que querem uma educação melhor para seus filhos/as.
  • As mulheres que trabalham nesses setores, diferente dos trabalhadores industriais que às vezes lutam apenas por melhores salários, lutam pela qualidade do serviço.

 

As enfermeiras são outro exemplo:

  • estiveram lutando não apenas por melhores salários,
  • mas também pela quantidade de pacientes que podem tratar,
  • para oferecer melhores condições.

Esses são casos interessantes, porque não são lutas apenas pelas condições de trabalho, mas também pelos recursos e pela qualidade dos serviços. Envolve o Estado e a reprodução social, a esfera econômica e a social. Tudo está relacionado. As lutas pela reprodução social são também as lutas trabalhistas.

 

Grande parte da militância trabalhista não vem dos trabalhadores industriais, mas de quem faz o trabalho de reprodução social.

Essa é uma grande mudança na luta de classes, no que significa a luta de classes.

Todas essas mudanças estão transformando a classe trabalhadora,

  • que não é mais composta apenas pelos/as trabalhadores/as das fábricas,
  • mas também por aqueles/as que trabalham em serviços, reprodução social, nas comunidades ou lares e que não recebem uma remuneração.

Essas pessoas também fazem parte da classe trabalhadora. Não sofrem apenas a exploração, mas também a expropriação por meio da dívida. O problema da dívida também faz parte da luta de classes.

 

Novamente, quando temos essa visão ampliada do capitalismo, é preciso levar em conta as formas de opressãoexploração e expropriação.

  • Tem-se um panorama mais amplo sobre quais lutas são potencialmente ou diretamente anticapitalistas.
  • E, depois, tem-se um panorama ainda maior de quais seriam as alianças possíveis.

Se essa forma de capitalismo é a raiz de todas as crises, irracionalidades e injustiças,

  • então, tem-se, ao menos potencialmente, a possibilidade de ter pessoas que estão situadas em diferentes lugares do sistema
  • e, portanto, com diferentes preocupações existenciais pelas quais lutar.

Isso significa que continua existindo possiblidades de que essas pessoas vejam as relações entre si, nesse sistema predatório.

 

Você escreveu sobre onde o neoliberalismo encontrou seu calvinismo, seu carisma, e a respeito dos vínculos entre neoliberalismo e progressismo.

Quais são os desafios, em 2021, para continuar lendo a partir de classe e identidade, “redistribuição”   e “reconhecimento”, pilares de seu trabalho?

 

Tenho um diagnóstico completo, uma espécie de diagnóstico ao modo de Gramsci,

  • de como uma filosofia econômica tão daninha para tanta gente
  • conseguiu suficiente apoio político e legitimidades para se tornar a força dominante e hegemônica para se apoderar dos governos em todo o mundo.

Minha ideia é que isso nunca poderia ter acontecido, se a única história estimada tivesse sido o projeto econômico, já que é prejudicial para os pobres, a classe trabalhadora e a classe média. Nunca poderia ter tido êxito somente a partir de sua filosofia econômica. Precisavam de algo a mais.

E isso

  • é o que Luc Boltanski e Ève Chiapello chamaram de “novo espírito do capitalismo”,
  • e graças ao qual o neoliberalismoconseguiu cooptar, em minha opinião, um setor importante dos novos movimentos sociais que têm carisma e legitimidade:

o feminismo, os direitos LGBTQ, os direitos civis, movimentos antirracistas e, ultimamente, também os movimentos ambientalistas.

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O que o neoliberalismo fez

  • foi sacudir os setores liberais convencionais dominantes, que nunca foram muito críticos, nem anticapitalistas,
  • e deu um tapinha nas costas deles, fazendo-os sentir que tinham poder.

Temos

  • o feminismo corporativo liberal, como por exemplo HillaryClinton,
  • que fez tudo o que Wall Street queria
  • e também promoveu um tipo de feminismo específico,
  • concentrado em eliminar barreiras discriminatórias para que algumas mulheres talentosas ascendessem na hierarquia corporativa.

Essa visão feminista não está relacionada a uma igualdade social real, está relacionada à meritocracia.

 

Black faces in high places, um livro crítico sobre o racismo, também ressalta esses conflitos a partir da presidência de Obama. É a velha história sobre como o neoliberalismo obtém o seu carisma.

  • Chamo essa aliança de “neoliberalismo progressista”,
  • porque é muito diferente do que acontece com Bolsonaro, que é um “neoliberal reacionário”.

 

Depois disso, houve alguns eventos importantes: 2016 foi um momento crucial nos Estados Unidos e, provavelmente, afetou o mundo todo.

Naquele momento,

  •  Bernie Sanders enfrentou Hillary Clinton pela indicação democrata à presidência,
  • e do outro lado estava Trump, que não era o típico republicano neoliberal.

Havia dois desafios para o neoliberalismo, da direita e a esquerda.

Por exemplo,

  • alguns trabalhadores brancos que votaram em Sandersnas primárias,
  • não votaram em Hillary Clinton nas eleições, mas, sim, em Trump.

Houve uma rejeição popular contra o neoliberalismo, que é o neoliberalismo progressista. A verdade é que a rejeição mais forte partiu da direita. A esquerda também se manifestou, mas a direita a conseguiu capitalizar melhor.

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Agora, temos a pandemia e, como disse no início, é uma grande lição de teoria social.

pandemia nos mostra que o livre mercado não pode fazer o que é necessário para garantir que vivamos de maneira decente.

Acredito que o neoliberalismo como filosofia hegemônica está morto: segue no poder, mas não tem mais credibilidade. Estamos nesse “interregno” de Gramsci, no qual aparecem todos os tipos de sintomas mórbidos.

 

Joe Biden não é um neoliberal progressista. A ação transcorre no Partido Democrata, entre a velha facção Clinton e a facção Sanders.

  • Sanders tem muito mais controle do que antes, embora não possua todo o controle. Essa é uma forma de ver o “interregno”.
  • As contradições são graves, mas é um momento importante e há oportunidades reais para a esquerda.
  • Não acredito que o fascismo esteja ao virar da esquina e que seja necessário correr para pedir proteção ao liberalismo.

Se chegarmos a esse ponto, lutarei junto com os liberais contra o fascismo, mas isso depende do momento e agora não é o momento. O movimento de Sanders deveria construir um novo bloco anti-hegemônico com todos os setores anticapitalistas que já mencionamos.

 

Penso que temos margem de ação, se não nos conformamos apenas com a política de reconhecimento. É preciso deixar de lado a cultura do cancelamento e as microagressões. Servem como proteína para a direita.

É preciso se concentrar na estrutura, nas instituições, nas demandas e lutas que podem realmente melhorar a vida material da classetrabalhadora. Existe uma oportunidade aí.

 

Una sociedad es una historia de sobrevivencia - El Dipló

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Florencia Angilletta

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/613208-o-neoliberalismo-como-filosofia-hegemonica-esta-morto-entrevista-com-nancy-fraser

 

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