Sou um corpo que diz “eu”

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Conta-se que, uma vez, estava um miúdo com a mãe, junto ao cadáver da avó. A mãe explicou ao filho: “Vês? Agora, o corpo vai para a Terra, a alma foi para Deus. Quando eu morrer, o meu corpo vai para a Terra e a minha alma vai ter com Deus. Depois, quando tu morreres, também vai ser assim: o teu corpo vai para o cemitério; a tua alma vai ter com Deus.” E o miúdo, aflito, perguntou: “E eu?”

 

Esta pequena história, na sua aparente ingenuidade, ilustra bem todo o enigma da constituição humana.

O pensamento enveredou frequentemente pelo dualismo, que quer exprimir uma tensão vivida:

  • eu sou um corpo que diz eu,
  • mas ao mesmo tempo penso-me como tendo um corpo,
  • pois o eu fontal parece não identificar-se com o corpo.

Parece haver no Homem um excesso face ao corpo, experienciado, por exemplo, na possibilidade do suicídio: eu posso matar-me.

Mas, por outro lado,

  • eu não sou uma alma que carrega um corpo, à maneira de uma coisa que eu tivesse.
  • Vivo-me desde dentro como sujeito corpóreo, um corpo-sujeito e matéria pessoal.
  • O meu corpo sou eu mesmo presentificado, é a minha visibilização, sou eu próprio voltado para os outros.

Numa concepção dualista de alma e corpo, os pais não seriam realmente pais dos filhos, mas apenas de um corpo que transporta ou é transportado por uma alma que viria de fora…

Vergílio Ferreira, referindo-se ao enigma humano, escreveu num misto realista, dramático e sublime:

“Um corpo é o que em obra superior ele produz. Como é fascinante pensá-lo.

  • Um novelo de tripas, de sebo, de matéria viscosa e repelente, um incansável produtor de lixo.
  • Uma podridão insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a decência do convívio, um equilíbrio difícil em dois pés precários, uma latrina ambulante, um saco de esterco.

E simultaneamente, na visibilidade disso,

  • a harmonia de uma face, a sua possível beleza
  • e sobretudo o prodígio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte.

Construir o máximo da sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem.

Dá vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaixão. Dá vontade de enlouquecer.”

O corpo humano é corpo pessoal,

  • na tensão da inevitabilidade de morrer
  • e do desejo de uma espiritualização crescente para uma personalização eterna.

O corpo humano é corpo falante,

  • e a palavra é o sentido encarnado
  • – com a palavra dizemos o mundo, dizemo-nos a nós mesmos, comunicamos, abrimo-nos à questão da Transcendência -,
  • de tal modo que pelo facto de falar o corpo humano será sempre misterioso.

Não cabe numa concepção naturalista do real.

É infinitamente estranho e enigmático o significado de dizer “eu”.

  • Só cada um o pode dizer de si mesmo, com sentido único e irrepetível.
  • Não é universalizável. Ninguém pode dizer “eu” na vez de outro.

Precisamente por isso,

  • ninguém sabe o que é exactamente ser outro, outro eu,
  • ninguém pode viver-se plenamente a partir de dentro de outro,
  • ninguém pode conceber o mundo visto pelo outro, por outro eu.

O outro – outro eu, mas sobretudo um eu outro – é irredutível.

É absolutamente fascinante perguntar-se a si próprio:

  • como será o mundo a partir dali, daquele olhar, daquele olhar do outro
  • – olhar não apenas externo, mas interior?
  • Como é que ele me vê?
  • O que se passará nele/nela, dentro dele/dela, quando me vê, quando me observa, quando pensa em mim, quando diz que me ama? Se nos fosse possível ir lá dentro!…

O que é que aconteceu para que o bebé, que começa por parecer um “embrulhinho” (perdoe-se a expressão terna),

  • inicie um processo de dizer-se, que vai do neutro – o menino, a menina, o Vítor, a Rita…
  • até ao soberano eu, donde tudo parece partir para tudo dominar?

Mas não é apenas o eu do outro que é enigmático. O meu próprio eu é enigma para mim.

Quando tentamos ver-nos a nós próprios à distância, em miúdos, quando andávamos na escola, por exemplo, ao dar connosco, sabemos que somos nós, mas ao mesmo tempo vemo-nos de fora: somos os mesmos, mas de outro modo.

E vamos ao espelho, admirados: “Eu sou este?”

Até no presente,

  • por mais que objective de mim,
  • há sempre um reduto último – parte da subjectividade –que resiste à objectivação,
  • não havendo nunca coincidência entre o eu objectivo e o eu subjectivo.

Vejo-me, sem ver-me adequadamente, de tal maneira que, na medida em que procuro mergulhar até à ultimidade de mim, é como se desaparecesse no nada.

Mas, descendo até ao abismo de mim,

  • aquele aparente nada com que deparo é o véu de mim enquanto inobjectivável,
  • isto é, enquanto pessoa e não coisa.

Precisamente aí – no eu irredutível – posso encontrar-me com o mistério do Deus criador.

É com esse milagre do eu enquanto pessoa, fim e não meio para nada nem para ninguém, que se defrontam, por exemplo, os pais, no encontro com o filho, como escreveu o filósofo Julián Marías:

“A realidade psicofísica do filho – corpo, funções biológicas, psiquismo, carácter, etc. – ‘deriva’da dos pais, e neste sentido é ‘redutível’ a ela.

  • Mas o filho que é e diz ‘eu’
  • é absolutamente irredutível ao eu do pai bem como ao da mãe, igualmente irredutíveis, é claro, entre si.
  • Não tem o menor sentido controlável dizer que ‘vem’deles,
  • pois eu não posso vir de outro eu, já que este é um ‘tu’ irredutível.

Neste sentido, a criação pessoal é evidente. Isto é, o aparecimento da pessoa – de uma pessoa – enquanto tal é o modelo daquilo que realmente entendemos por criação: a iluminação de uma realidade nova e intrinsecamente irredutível.”

 

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/sou-um-corpo-que-diz-eu-14155511.html

 

 

 

 

 

 

 

 

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