O MFPC e a sinodalidade.

Outra Igreja é Possível

 

Cristianos Gays » Hechos de los Apóstoles

Eduardo Hoornaert – 12/09/2021 – Imagem: Reprodução

O padre casado não abandonou sua ‘vocação’, abandonou as leis desse sistema concreto que se chama igreja católica.

A liberdade é a expressão suprema do amor. Se o MFPC (Movimento das Famílias dos Padres Casados – NdR) critica a igreja, é por amor a ela. Ela necessita de libertação.

 

Nos próximos dias, cada diocese católica do mundo inteiro vai receber, por parte do Sínodo dos Bispos, um convite no sentido de se organizar uma coleta de opiniões, por parte do ‘Povo de Deus’, entre outubro de 2021 e abril 2022, acerca do andamento atual da igreja católica.

Ao apoiar a iniciativa, o Papa Francisco insiste:

“não se trata só de ouvir as pessoas que assistem regularmente às missas, mas de escutar o ‘Povo de Deus’, além de fronteiras”.

Não estou a par de iniciativas atualmente tomadas no Brasil no sentido de se realizar esses ‘sínodos diocesanos’. Só me chegam notícias provenientes da organização católica norte-americana denominada ‘Catholic Church Reform’ (info@catholicchurchreform.com).

Nos boletins dessa organização, que recebo regularmente,

  • vejo que ela insiste em fazer pressão junto aos bispos locais e, nesse sentido,
  • já está coletando posicionamentos de adesão por parte de católicos e católicas, predominantemente provenientes de países de língua inglesa.

Há adesões na França, mas vejo quase nada proveniente da América Latina, onde o tema não me parece aparecer (posso estar enganado).

O pressuposto da sinodalidade, a iniciativa mais marcante do pontificado de Francisco, é nada menos que revolucionário: passar do princípio hierárquico vertical ao princípio dialogal horizontal.

Isso, dentro da igreja católica, é deveras revolucionário. E é normal que apareça muita resistência. Penso que estamos apenas no início de uma movimentação.

Por enquanto, não devemos esperar muito dessa iniciativa do Papa, por um motivo muito simples.

  • A igreja católica carrega nas costas um peso muito pesado.
  • Já no século III, com a divulgação do texto ‘Traditio Apostolica’ pelo então bispo de Roma, Hipólito, entre 215 e 218, (bem antes de Constantino que fez dos Bispos Príncipes – NdR)
  • o original princípio fraternal e dialogal do cristianismo foi ‘oficialmente’ substituído pelo princípio hierárquico autoritário.

Aí começou uma evolução que se estende até hoje.

Essa mudança radical de rumo encontrou resistência ao longo dos séculos, mas ela se firmou, pois corresponde a anseios de grandeza e poder por parte da nova corporação que ela criou: o clero.

Por conseguinte, para entrar de pé direito na sinodalidade, há de se cultivar o espírito de indignação, que pode eventualmente ser alimentado por um estudo aplicado do passado da igreja católica.

Esse estudo mostra, de modo convincente,

  • que, ao longo de séculos, a igreja católica acumulou erros gigantescos,
  • que costumam ficar tão enraizados em seu modo de ser que muitos nem os percebem como erros.

Nesse sentido, aconselho a leitura dos livros de José Comblin, principalmente os publicados a partir de 1982. Em todos eles passa esse espírito de indignação (aliás, nisso reside exatamente a dificuldade em ler esse teólogo).

Sem essa indignação (sinal de amor), não acredito que a empreitada do Papa Francisco possa levar a algum resultado positivo.

 

Os padres casados têm razões de sobra para ficarem indignados.

  • O Papa Paulo VI se equivocou redondamente quando disse que um ‘padre casado’ dá um ‘beijo de Judas’ em Jesus.
  • Na realidade, quem dá esse ‘beijo de Judas’, repetido ao longo de séculos, é a igreja católica (na sua hierarquia – NdR).

Ela traiu Jesus, deformou a imagem de Jesus, lançou Jesus em empreitadas que não tinham nada a ver com o evangelho.

Esse espírito, em meu entender, é a base. Ele inverte tudo.

  • Não foi a igreja que ‘expulsou’ os padres casados,
  • foram os padres casados que expulsaram de suas vidas uma igreja que não tem a coragem de revisar seu passado
  • e, desse modo, se enrola sempre mais numa evolução que lhe será finalmente desastrosa.

Pois não há retorno, pelo menos para a igreja ‘ocidental’, o que alguns já observaram nos anos 1940 (Godin, France, pays de mission?) e que desde então se desenvolve, sem possibilidades de retorno.

  • Pode ser que a igreja católica conheça um renascimento na Ásia, mas isso seria para o século XXII.
  • Não é para nós, no Brasil, que optamos pela ocidentalização de nossa igreja (poderia ter sido diferente, mas isso é outra conversa).

Eis o desafio que a sinodalidade enfrenta.

  • Um caminho árduo, mas possível.
  • Haverá resistência não explicitada, haverá silenciamento.
  • A igreja católica, como toda organização poderosa, é mestra na arte do silenciamento.
  • Em vez de combater, deixar cair no silenciamento, no esquecimento.

Mas o padre casado conquistou a liberdade, o maior dom da vida.

Em conversas discretas, padres ‘da ativa’ confessam:

‘vocês podem dizer o que nós não podemos’.

Eles estão, de certo modo, ‘de rabo preso’. Não são livres e invejam a liberdade dos padres casados.  

Ora, o desafio do evangelho, afinal, é a liberdade.

  • O padre casado não abandonou sua ‘vocação’,
  • abandonou as leis desse sistema concreto que se chama igreja católica.

Aqui lembro que a liberdade é expressão de amor e só tem sentido dentro do preceito soberano do amor. Se Deus nos criou livres (um projeto arriscado, diga-se de passagem), é por amor.

A liberdade é a expressão suprema do amor. Se o MFPC critica a igreja, é por amor a ela. Ela necessita de libertação.

 

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Eduardo Hoornaert

Fonte: Texto enviado por e-mail pelo autor: e.hoornaert@yahoo.com.br

 

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