Talvez as mulheres desistam de Deus

 

Entre as brumas da memória: Talvez as mulheres desistam de Deus

 

por  Daniel Deusdado – DN 05.09.2021 – Imagem: DAQUI

Século XXI. Mudar? Lutar? Talvez as mulheres estejam a desistir de Deus.

Mulheres na História rebelaram-se e foram mortas.

Ou trouxeram nova luz e foram santas. Mas não há meio termo.

É entre a loucura inaceitável da voz de Deus na voz de uma mulher ou o silêncio sepulcral de uma Humanidade que amputa uma possível primavera existencial, mais repleta de fraternidade e solidariedade, através da máquina de ajuda aos pobres e excluídos.

 

Afeganistão: lentamente vamo-nos esquecer, é sempre assim. Esmagadas pelo arbítrio, amputadas da voz, da liberdade, da igualdade, do acesso às decisões de poder. Elas não podem. Porque não nasceram homens. Tão-somente.

Completamente absurdo, desumano. Em nome de “Deus”, seres humanos completamente iguais, física e espiritualmente, são segregados porque nasceram ou assumiram uma qualquer diferença.

O Afeganistão? Não apenas.

  • Um mundo moldado por um “Deus”, ou deuses, onde o poder físico ancestral se cristalizou, ao longo dos séculos, num mandato imutável:
  • a capacidade exclusiva de, apenas eles, interpretarem Deus (ver o extraordinário texto de ontem do padre Anselmo Borges neste jornal).

Estamos aqui:

  • Deus só se deixa interpretar, de forma oficial, nas cúpulas de poder religioso, apenas por cabeças que incluem cromossomas XY.
  • Como poderá Ele ter a liberdade/ousadia de dizer que não é assim?

O mundo mudou. Somos contra o racismo, a xenofobia, a desigualdade. Mas aceitamos que o poder mais fático do mundo não seja alvo de uma resposta social clara: é inaceitável a segregação religiosa.

Pensemos adiante: uma mulher Papa?

  • Nem Francisco consegue um primeiro passo – ordenar mulheres.
  • Não tem força para tal, como se viu no balão de ensaio chamado Amazónia.
  • Eles mandam no Vaticano, em Riade ou Teerão, no ortodoxismo católico e em quase todo o lado, à exceção dos anglo-saxónicos protestantes.

Não está nos seus horizontes olharem para a nova realidade do planeta: homens e mulheres iguais. Almas iguais, incorpóreas. Sem X nem Y.

O poder destas ordens reinantes espalha-se sempre pelos interstícios do invisível.

  • As pessoas mais respeitáveis da sociedade fazem parte do sistema e não ousam questionar-se,
  • umas mulheres aceitam o status quo, outras afastam-se ou submetem-se. Exato: a submissão.

A tal homilia que a Conferência Episcopal Portuguesa recomenda de três em três anos – para que elas não ousem.

  • Regozijem-se no privilégio da diferença.
  • Aceitem ser o que são. Inferiores nos direitos. Porque está “escrito”.
  • E elas aceitaram, século após século.

Século XXI. Mudar? Lutar? Talvez as mulheres estejam a desistir de Deus.

Mulheres na História rebelaram-se e foram mortas. Ou trouxeram nova luz e foram santas.

  • Mas não há meio termo.
  • É entre a loucura inaceitável da voz de Deus na voz de uma mulher
  • ou o silêncio sepulcral de uma Humanidade que amputa uma possível primavera existencial, mais repleta de fraternidade e solidariedade,
  • através da máquina de ajuda aos pobres e excluídos.

No Afeganistão elas vão morrer para ser livres. No Ocidente desperdiçamos a liberdade de lutar pela igualdade.

  • A religião parece não valer o esforço. As sacrossantas igrejas expulsam-nas antes mesmo de acederem à porta – não as deixam entrar como iguais.
  • Eternamente Marias Madalenas.
  • Até ao dia em que não fique pedra sobre pedra.

Tantos monumentos vazios, tanta voz assassinada.

Em Cabul constituir-se-á a Resistência. Elas vão derrotar os talibãs. O tempo joga a seu favor. Elas já são da era da comunicação e unirão desesperos. Não estão sós e precisam dos nossos sinais de apoio. As trevas são pesadas, mas um pequeno raio de luz derrota toda uma noite.

No Ocidente, no entanto, pode nem sequer chegar a haver uma tentativa de mudar as trevas de um certo cristianismo, o que é em si mesmo histórico. A segunda queda de Roma já faz parte da agenda.

Uma saída: seria tempo de se considerar intolerável que as mulheres sejam audiência passiva e ornamentadoras de santos. Chega de iconoclastia misógina. Deus também pode ser mulher.

 

Talvez as mulheres desistam de Deus

 

Daniel Deusdado

Jornalista.

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/talvez-as-mulheres-desistam-de-deus-14090406.html

1 comment to Talvez as mulheres desistam de Deus

  • Herminia Braulio

    Sou mulher, nasci mulher e sempre que desejei servi a comunidade como mulher. Posso ser ignorante mas não sinto nem nunca senti necessidade alguma de receber o sacramento da Ordem. A mulher, como exorta Jesus é aquela que na simplicidade do dia a dia busca servir a Deus no serviço ao núcleo familiar, à família ou à sociedade. Bobagem ordenar mulheres. Tem hora que parece que os homens enquanto seres humanos são formados sob o olhar atento e amoroso de uma mulher. Helloooo!!! Não queremos ser ordenadas queremos ser repeitadas como Jesus respeitou as mulheres segundo São João narra em seus textos do Ecangelho.

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